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Divulgador das palavras do Ministério através dos escritos dos irmãos W. Nee e W. Lee aos buscadores pela verdade da Bíblia

quinta-feira, 14 de maio de 2015

NÃO AMEIS O MUNDO - livro completo

 

NÃO AMEIS O MUNDO


Watchman Nee

Í N D I C E

  1. A MENTE QUE SE OCULTA POR TRÁS DO SISTEMA 
  2. A TENDÊNCIA OPOSTA A DEUS                               
  3. UM MUNDO SOB A ÁGUA                                         
  4. CRUCIFICADO EM MIM                                              
  5. DIFERENCIAÇÃO DO MUNDO                                  
  6. LUZES NO MUNDO                                                   
  7. SEPARAÇÃO                                                               
  8. O REFRIGÉRIO MÚTUO                                            
  9. MINHAS LEIS EM SEUS CORAÇÕES                        
  10. OS PODERES DO MUNDO VINDOURO                     
  11. ROUBANDO O USURPADOR                                                


PREFÁCIO

Grande parte deste livro originou-se de uma série de palestras sobre o tópico "o mundo", feitas por Watchman Nee (Nee To-sheng), natural de Foochow, aos crentes da cidade de Xangai, no princípio da guerra sino-japonesa. Por esse motivo, as palestras trazem certa influência das pressões econômicas daqueles dias. Foram-lhes acrescentadas outras palestras sobre o mesmo tema geral, feitas em diversos lugares e ocasiões, durante o período 1938-1941. Por exemplo, o capítulo três é baseado em uma mensagem pregado numa cerimônia de batismo em maio de 1939. Sou grato a diversos amigos que supriram o material que originou o livro.
O autor vê o "kosmos" como um ente espiritual além das coisas visíveis, uma força que sempre precisamos considerar. Aborda o seu impacto sobre o cristão, e o impacto deste sobre ele, com as conflitantes reivindicações feitas sobre o cristão quanto à separação e o envolvimento, e com o destino do homem de "ter domínio" em Cristo. Como sempre, os estudos do Senhor Nee revelam pensamentos originais, e ele não tem receio de ser provocador, incitando o coração e a mente a uma resposta. Minha oração é que, apesar da inevitável construção do livro por etapas, o seu tema demonstre ser coerente, como retrato do homem de Deus no mundo, e ainda mais, que possa desafiar a todos os que invocam o nome de Cristo a caminhar mais corajosa e positivamente pelo cenário terrestre, sempre com o pensamento em nosso papel aqui, dentro do propósito eterno de Deus com relação só Seu amado Filho.

Angus I. Kinnear
Londres, 1968

1
 CAPÍTULO



A MENTE QUE SE OCULTA POR TRÁS DO SISTEMA


"Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso. E eu, quando for le­vantado da terra, atrairei todos a mim mesmo". (João 12:9, 32).

Nosso Senhor Jesus pronuncia estas palavras em um ponto chave de Seu ministério. Ele entrou em Jerusalém apertado por multidões entusiásticas; porém, quase que de imediato falou em termos velados sobre sacrificar Sua vida, e a isto os céus deram sua aprovação pública. Agora Ele surge com esta grande afirmação dupla. O que, per­guntamo-nos, pode ter essa afirmação transmitida àqueles que o tinham aclamado, saindo para encontrá-Lo e acompanhando-O de volta a casa? Para muitos deles as Suas palavras, se tiveram algum significado, devem ter soado como uma total inversão de suas esperanças. Na verdade, os de maior discernimento chegaram a ver nelas uma previsão das reais circunstâncias de Sua morte como um criminoso (vs. 33).
Embora Seu pronunciamento destruísse uma série de ilusões, ofereceu em lugar delas uma maravilhosa esperança, sólida e segura, pois anunciava uma mudança de domínio, muito mais radical do que até mesmo os próprios patriotas judeus esperavam. "E eu...” – a expressão contrasta acentuadamente com o que a precede, assim como Aquele a quem ela identifica está em contraste com Seu antagonista, o príncipe deste mundo. Através da Cruz, através da obediência até a morte, Daquele que é o grão de trigo de Deus, as leis deste mundo, baseadas no medo e na coação, estão para terminar com a queda de seu orgulhoso soberano. E com Sua volta novamente à vida, surgirá no lugar delas um novo reino de justiça, caracterizado por uma livre aliança dos homens com Ele. Com cordas de amor, seus corações serão levados para longe de um mundo sob julgamento, para Jesus o Filho do Homem, o qual embora tendo sido levantado para morrer, por esse mesmo ato foi levantado para reinar.
"A terra" é o cenário dessa crise e de suas terríveis conseqüências, e "este mundo" é, podemos dizer, o ponto em que se chocam. Faremos deste ponto o tema de nosso estudo, e começaremos por considerar as idéias do Novo Testamento, associadas com a importante palavra grega "kosmos". Nas versões inglesas, com uma única ex­ceção que será mencionada em breve, essa palavra é invariavelmente traduzida por "o mundo" (a outra palavra grega, “aion”, que é traduzida da mesma forma, contém a idéia de tempo e deveria ser mais convenientemente interpretada como “a época”).
Vale à pena gastar algum tempo para consultar um Léxico do Novo Testamento Grego, tal como o de Grimm. Ficará clara a grande variedade de significados que a palavra "kosmos" tem nas Escrituras. Porém, em primeiro lugar consultamos suas origens no Grego Clássico, onde descobrimos que originalmente tinha dois significados: primeiro, uma ordem ou arranjo harmonioso, e segundo, embelezamento ou ornamentação. Esta última idéia aparece no verbo neotestamentário kosmeo, usado com o significado de "ornamentar", ou seja, o templo com pedras bonitas, ou uma noiva para o seu esposo (Lc 21:5, Ap 21:2). Em 1 Pedro 3:3, a exceção já citada, a palavra "Kosmos" é ela própria traduzida por "adorno", concordando com o mesmo verbo kosmeo no versículo 5.
(1) Quando nos voltamos dos Clássicos para os escritores do Novo Testamento, descobrimos que seus usos da palavra "kosmos" enquadram-se em três grupos principais. É usada em primeiro lugar com o sentido de universo material, o mundo todo, esta terra. Assim: Atos 17:24 "o Deus que fez o mundo, e tudo o que nele existe"; Mt 13:35 (e em outros lugares) "a criação do mundo"; João 1:10 "estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele"; Marcos 16:15 "Ide por todo o mundo".
(2) O segundo uso de kosmos é duplo. É usado co­mo: (a) para os habitantes do mundo em frases como a de João 1:10 "o mundo não o conheceu"; 3:16 "Deus amou ao mundo de tal maneira"; 12:19 "eis aí vai o mundo após Ele"; 17:21 "para que o mundo creia". (b) Uma ampliação desse uso conduz à idéia da raça inteira dos homens separados de Deus e assim hostis à causa de Cristo. Assim: Hb. 11:38 "homens dos quais o mundo não era digno"; João 14:17 "que o mundo não pode receber"; 14:27 "não vo-la dou como a dá o mundo"; 15:18 "se o mundo vos odeia...”.
(3) Em terceiro lugar, descobrimos que kosmos é usada nas Escrituras para assuntos mundanos: todo o cír­culo de bens, talentos, riquezas, vantagens e prazeres mundanos que embora vazios e transitórios; excitam nossos desejos e nos afastam de Deus, sendo assim obstá­culos à causa de Cristo. Exemplos: 1 João 2:15 "as coisas que há no mundo"; 3:17 "a sua (do mundo) concupiscência"; Mt 16:26 "se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma"; 1 Cor. 7:31 "e os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem". Este uso de kosmos aplica-se não somente a coisas materiais, mas também a coisas abstratas que têm valores espirituais e morais (ou imorais). Assim: 1 Cor. 2:12 "o espírito do mundo"; 3:19 "a sabedoria deste mundo"; 7:31 "a aparência deste mundo”; Tito 2:12 "paixões mundanas" (adj. Kosmikos); 2Pe. 1:4 "a corrupção das paixões que há no mundo"; 2:20 "as contaminações do mundo"; 1Jo 2:16, 17 "tudo o que há no mundo, a concupiscência... a soberba... passam". O cristão deve "a si mesmo guardar-se incontaminados do mundo", Tiago 1:27.
O estudante da Bíblia logo descobrirá que, como sugere o parágrafo acima, a palavra kosmos é uma das favoritas do apóstolo João, e é ele, principalmente, quem agora nos auxilia a chegar a outras conclusões.
Embora seja verdade que estas três definições de "o mundo" como (1) a terra material ou, (2) as pessoas sobre a terra e (3) as coisas da terra, contribuem cada qual com algo para o quadro geral, já está claro que por detrás delas há algo mais. A idéia clássica de sistema organizado ou organização ajuda-nos a compreender o que é. Atrás de tudo o que é tangível encontramos algo intangível, encontramos um sistema planejado; e nesse sistema há um funciona mento harmonioso, uma ordem perfeita.
Com relação a esse sistema, há dois pontos a serem enfatizados. Primeiro, desde o dia em que Adão abriu a porta para que o mal penetrasse na criação de Deus, a disposição do mundo tem mostrado por si própria ser hostil a Deus. O mundo "não o conheceu" (1Cor. 1:21), "odiou" Cristo (João 15:18) e "não pode receber" o Espírito da verdade (14:17). "As suas obras são más" (João 7:7) e "a amizade do mundo é inimiga de Deus" (Tiago 4:4). Por isso Jesus diz "meu reino não é deste mundo" (João 18:36). Ele venceu "o mundo" (16:33) e "esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé" (1 João 5:4). Pois, como o versículo de João 12 que encabeça este estudo afirma, o mundo está sob julgamento. A atitude de Deus para com ele é inflexível.
Isto porque, em segundo lugar, como o mesmo ver­sículo declara, há uma mente por trás do sistema, João escreve repetidamente sobre "o príncipe deste mundo" (12:31, 14:30, 16:11). Nesta epístola, ele o descreve como "aquele que está no mundo” (1 João 4:4), colocando como seu opositor o Espírito da verdade que habi­ta nos crentes. "O mundo inteiro", diz João "jaz no maligno" (5:19). Ele é o rebelde kosmokrator, dominador do mundo – uma palavra que, contudo, aparece uma única vez, usada no plural com relação aos seus "oficiais", os "dominadores deste mundo tenebroso" (Efésios 6:12).
Existe, portanto, um sistema organizado, "o mundo", que é governado por trás do cenário por um sobe­rano, Satanás. Quando em João 12:31 Jesus afirma que foi dada a sentença de julgamento sobre este mundo, Ele não está querendo dizer que o mundo material ou seus habitantes estão julgados. Para eles o julgamento está ainda por chegar. O que ali está julgado é aquela institui­ção, aquela ordem mundana harmoniosa da qual o próprio Satanás é o originador e o cabeça. Finalmente, como as palavras de Jesus deixam claro, é ele, o "príncipe deste mundo", que foi julgado (16:11) e que será destronado e "expulso" para sempre.
Assim, as Escrituras aprofundam nossa compreensão do mundo ao nosso redor. Na verdade, a não ser que olhemos para os poderes invisíveis atrás das coisas mate­riais, podemos ser facilmente enganados.
Esta reflexão pode ajudar-nos a entender melhor a passagem de 1 Pedro 3, à qual já nos referimos. Nela o apóstolo coloca "o adorno" (kosmos) exterior como "frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário" em contraste deliberado com o "incorruptível de um espírito manso e tranqüilo, que é de grande valor diante de Deus. Conseqüentemente, portanto, os primeiros são corruptos e sem valor diante de Deus. Podemos ou não estar prontos para aceitar imediatamente a avaliação de Pedro, dependendo se vemos o verdadeiro significado de suas palavras. Aqui está o que ele quis dizer. Em segundo plano, por trás dessa questão de vestuário, jóias e maquiagem, há um poder atuando para alcançar seus próprios interesses. Não deixe que esse poder o domine.
Temos que perguntar a nós mesmos: qual é o motivo que nos impulsiona com relação a estas coisas? Pode não ser nada sensual; mas totalmente inocente, objetivando simples-mente, pelo uso do estilo, harmonia e perfeita combinação, obter um efeito que é esteticamente agradável. Pode não haver nada intrinsecamente errado em fazer isso; porém, você e eu percebemos com o que estamos entrando em contato aqui? Estamos tocando aquele sistema harmonioso por trás das coisas visíveis, um sistema que é controlado pelo inimigo de Deus. Portanto, sejamos cautelosos.
A Bíblia começa pela criação divina dos céus e da terra. Ela não diz que Deus criou o mundo no sentido em que o estamos analisando agora. Na Bíblia, o significado do "mundo" passa por uma evolução, e é apenas no Novo Testamento (embora talvez em menor extensão já nos Salmos e alguns dos Profetas) que o "mundo" alcança seu total significado espiritual. Podemos ver de imediato a razão para essa evolução. Antes da queda do homem, o mundo existia apenas no sentido da terra, as pessoas da terra e as coisas da terra. Até então não havia kosmos, "mundo" no sentido de ordem constituída. Com a queda, contudo, Satanás trouxe para esta terra a ordem que ele próprio idealizara, e com isso começou o sistema mundano do qual falamos. Originalmente, nossa terra física não tinha ligação com o "mundo", nesse sentido de um sistema satânico, nem o homem, na verdade, a tinha. Porém, Satanás aproveitou-se do pecado do homem, e da porta que isso lhe abrira, para introduzir na terra a organização que se propusera estabelecer. Dai em diante, a terra estava no "mundo" e o homem "estava no mundo". Assim, podemos dizer que antes da queda havia uma terra; após a queda há um mundo; na volta do Senhor haverá um Reino. Assim como o mundo pertence a Satanás, o Reino pertence ao nosso Senhor Jesus. Além disso, é esse Reino que destitui e que destituirá o mundo. Quando a "Pedra que não é feita por mãos" despedaça a orgulhosa imagem do homem, então o reino deste mundo transformar-se-á no "reino de nosso Senhor e do Seu Cristo" (Dn. 2:44, 45; Ap 11:15).
Política, educação, literatura, ciência, arte, lei, co­mércio, música – são estas coisas que constituem o kosmos, e estas são coisas que encontramos diariamente. Se as subtrairmos, o mundo como um sistema coerente deixará de existir. Estudando a história da humanidade, temos que reconhecer marcante progresso em cada uma dessas áreas. Contudo a questão é: em que direção está seguindo esse progresso? Qual é o objetivo final de todo esse desenvolvimento? No final, conta-nos João, o anti­cristo se levantará e estabelecerá o seu próprio reino neste mundo (1João 2:18, 22; 4:3; 2João 7; Ap 13). Essa é a direção do progresso do mundo. Satanás está utilizando o mundo material, os homens do mundo, as coisas que estão no mundo, para finalmente liderar tudo no reino do anticristo. Naquela ocasião o sistema mundial terá alcançado seu apogeu; e naquela ocasião cada uma de suas unidades será revelada como sendo anticristã.
No livro de Gênesis, não encontramos no Éden qual­quer alusão à tecnologia, qualquer menção a instrumentos mecânicos. Após a queda, contudo, lemos que entre os filhos de Caim havia um artífice de instrumentos cortantes de ferro e bronze. Alguns séculos atrás pode ter parecido fantástico discernir o espírito do anticristo em ferramentas de ferro, ainda que haja muito tempo a espada tem estado em competição aberta com o arado. Porém hoje, nas mãos do homem, os metais têm sido empregados para finalidades sinistras e mortais, e à medida que o final se aproxima, o abuso difundido da tecnologia e engenharia tornar-se-á ainda mais evidente.
O mesmo se aplica à música e às artes. Pois a flauta e a harpa parecem ter-se originado com a família de Caim, e hoje em mãos não consagradas, sua natureza desafiadora a Deus torna-se mais e mais clara. Em muitas partes do mundo, já há muito tempo pode-se relacionar facilmente um entrosamento íntimo entre a idolatria e as artes de pintura, escultura e música. Não há dúvida de que está chegando o dia em que a natureza do anticristo será revelada mais abertamente do que nunca, através da can­ção, dança e artes visuais e dramáticas.
Quanto ao comércio, suas ligações talvez sejam ain­da mais suspeitas. Satanás foi o primeiro mercador, negociando idéias com Eva para seu próprio lucro, e na lin­guagem figurativa de Ezequiel 28, que parece revelar algo do caráter original de Satanás, lemos: "Pelo teu comércio aumentaste as tuas riquezas; e por causa delas se eleva o teu coração" (vs. 5). Talvez isto não precise ser debatido, pois muitos de nós prontamente admitimos por experiência própria a origem e natureza satânica do comércio. Falaremos mais sobre isto posteriormente.
E quanto à educação? Certamente, protestamos, essa deve ser inofensiva. De qualquer forma, nossos filhos precisam ser ensinados. Porém a educação, não menos do que o comércio e a tecnologia são coisas do mundo. Têm suas raízes na árvore do conhecimento. Com que sinceridade nós, como cristãos, procuramos proteger nossos filhos das ciladas mais óbvias do mundo. E, contudo, é absolutamente verdadeiro que temos que proporcionar-lhes educação. Como vamos resolver o problema de deixá-los entrar em contato com o que é essencialmente uma coisa do mundo, e ao mesmo tempo guardá-los do grande sistema mundial e seus perigos?
E quanto à ciência? Ela, também, é uma das unida­des que constituem o kosmos. Ela, também, é conheci­mento. Quando nos aventuramos pelos limites do alcance da ciência, e começamos a especular sobre a essência do mundo físico – e do homem – surge imediatamente à pergunta: até que ponto é legítimo o objetivo da pesquisa e descoberta científica? Onde está a linha de demarcação entre o que é útil e o que é prejudicial no campo do conhecimento? Como podemos nós prosseguir em busca do conhecimento e contudo evitar ser apanhados nas malhas de Satanás?
Estes, então, são os assuntos que devemos analisar. Sei que para alguns parecerá que estou exagerando as coisas, porém isso é necessário para alcançar minha meta. Pois “se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele" (1 João 2:15). Enfim, quando tocamos as coisas do mundo, a pergunta que sempre devemos fazer a nós mes­mos é: "Como isto afetará meu relacionamento com o Pai?”
Passou o tempo em que precisávamos ir para o mundo para ter contato com ele. Hoje o mundo vem à nossa procura. Agora existe uma força circulando, a qual está cativando os homens. Você alguma vez já sentiu o poder do mundo tanto quanto hoje em dia? Já ouviu tantas conversas sobre dinheiro? Já pensou tanto sobre alimento e vestuário? Onde quer que vá, até mesmo entre cristãos, as coisas do mundo são os tópicos da conversa. O mundo avançou até a própria porta da Igreja, e está procurando atrair até mesmo os santos de Deus para o seu domínio. Jamais nessa esfera de coisas necessitamos tanto de conhecer o poder da cruz de Cristo para livrar-nos, como necessitamos na presente época.
Outrora falávamos muito do pecado e da vida natu­ral. Podíamos facilmente ver neles as conseqüências espirituais, porém pouco percebíamos então que conseqüên­cias espirituais igualmente importantes estão em jogo quando tocamos o mundo. Há uma força espiritual por trás desse cenário mundial, a qual, através das "coisas que estão no mundo", está procurando enredar os homens em seu sistema. Portanto não é somente contra o pecado que os santos de Deus precisam estar alertas, mas contra o dominador deste mundo. Deus está edificando a sua Igreja para ter seu apogeu no reino universal de Cristo. Simultaneamente, Seu rival está construindo este sistema mundial para seu fútil clímax no reino do anticristo. Como precisamos ser vigilantes para que em tempo algum, sejamos encontrados ajudando Satanás na construção desse malfadado reino. Quando estamos perante alternativas e uma escolha de caminhos se nos oferece, a pergunta não é: isto é bom ou mau? Isto é útil ou prejudicial? Não, a pergunta que devemos fazer a nós mesmos é: isto é deste mundo, ou de Deus? Pois uma vez que o único conflito existente no universo é esse, então sempre que dois caminhos contrastantes se abrirem à nossa frente, a escolha em questão é nada menos que: Deus... ou Satanás?



2
 CAPÍTULO

TENDÊNCIA OPOSTA A DEUS


Tendo sido cada um de nós escravos do pecado acreditamos de imediato que as coisas pecaminosas são de Satanás; porém, acreditamos de igual modo que as coisas do mundo são satânicas? Creio que muitos de nós ainda estamos vacilantes com relação a isso. No entanto, a Escritura afirma de modo claro que "o mundo inteiro jaz no maligno" (1 João 5:19). Satanás sabe muito bem que, de modo geral, tentar seduzir cristãos verdadeiros através de coisas que são indubitavelmente pecaminosas, é vão e infrutífero. Eles geralmente percebem o perigo e escapam. Assim, ao invés disso ele planejou uma atraente rede, cujas malhas são tão habilmente tecidas que enganam o mais inocente dos homens. Nós evitamos concupiscências pecaminosas; com boas razões, mas quando se trata de coisas tão aparentemente inócuas como ciência, artes e educação, como perdemos facilmente nosso senso de valores e tornamo-nos vítimas das seduções de Satanás!
Contudo, a sentença de julgamento de Nosso Senhor indica claramente que tudo o que faz parte do "mundo” está em desacordo com o propósito de Deus. Suas palavras, "agora é o julgamento deste mundo", indicam de modo claro a condenação de tudo o que constitui o kosmos, e não teriam jamais sido pronunciadas, se não houvesse algo radicalmente errado com ele. Mais adiante, quando Jesus continua, "agora o príncipe deste mundo será expulso", Ele não está simplesmente enfatizando a relação íntima entre Satanás e a ordem mundial, mas o fato de que a sua condenação está relacionada com a dele. Reconhecemos que Satanás é hoje o príncipe da educação, ciência, cultura e artes, e que estas, como ele, estão condenadas? Reconhecemos que ele é o verdadeiro mestre de todas aquelas coisas que, juntas; formam o sistema mundial?
Quando se menciona um salão de baile ou um clube noturno, nossa reação como cristãos é de desaprovação instintiva. Para nós isso é o "mundo” por excelência. Quando, contudo, indo ao outro extremo, se ciência médica ou serviço social estiverem sendo discutidos, tal reação pode ser completamente inexistente. Estas coisas merecem nossa aprovação tácita, e talvez nosso apoio entusiasta. E entre estes extremos, há uma multidão de outras coisas, variando grandemente em sua influência para o bem ou o mal, entre as quais provavelmente nenhum de nós concordaria quanto ao lugar exato onde traçar uma linha divisória. Porém encaremos o fato de que foi pronunciado julgamento por Deus, não sobre certas coisas escolhidas que pertencem a este mundo, mas imparcialmente sobre todas elas.
Faça um teste com você mesmo. Se por acaso se aventurar em uma das áreas aprovadas, e então alguém lhe disser: ''Você entrou em contato com o mundo", ficaria impressionado? Nem um pouco, provavelmente. Se­ria preciso que alguém a quem você realmente respeita lhe dissesse muito direta e sinceramente: "Irmão, você ficou envolvido com Satanás aqui!”para que você ao menos hesitasse. Não é assim mesmo? Como você se sentiria se alguém lhe dissesse: "Você entrou em contato com a educação" ou "você entrou em contato com a ciência médica ou "você entrou em contato com o comércio"? Reagiria com a mesma cautela que teria se ele tivesse dito: "você entrou em contato com o diabo?" Se realmente acreditássemos que, sempre que entramos em contato com qualquer dessas coisas que constituem o mundo, nós entramos em contato com o príncipe deste mundo, então a terrível gravidade de estar envolvido, seja como for, com as coisas mundanas, não deixaria de atingir-nos. "O mundo todo jaz no maligno" – não uma parte dele, mas o todo. Não pensemos sequer por um momento que Satanás opõe-se a Deus somente através do pecado e car­nalidade nos corações dos homens; ele faz oposição a Deus através de cada coisa mundana. Sim, concordo com você quanto ao fato de que as coisas do mundo são todas em certo sentido materiais, sem vida, intrinsecamente sem poder para prejudicar-nos; contudo, até mesmo isso deveria sugerir por si próprio que elas são resistentes ao propósito de Deus, como é na realidade tudo em que não haja o toque da vida divina.
A frase repetida "segundo a sua espécie" em Gênesis 1, representa uma lei de reprodução que governa todo o reino da natureza biológica. Não governa, contudo, o reino do Espírito. Pois geração após geração, pais humanos podem gerar filhos segundo a sua espécie; porém uma coisa é certa: cristãos não podem gerar cristãos! Nem mesmo quando ambos os pais são cristãos os filhos serão automaticamente cristãos, nem mesmo na primeira gera­ção. Será necessário um novo ato de Deus a cada vez.
E este princípio aplica-se, com não menos veracida­de, aos negócios humanos em maior escala. Tudo o que pertence à natureza humana continua espontaneamente; tudo o que pertence a Deus continua somente enquanto a operação de Deus continua. E o mundo inclui tudo o que pode continuar independente de atividade divina, is­to é, que pode prosseguir por conta própria, sem necessi­dade de atos específicos de Deus para manter seu vigor. O mundo, e tudo o que lhe pertence, faz isso natural­mente – é a sua natureza – e agindo assim move-se em direção contrária à vontade de Deus. Procuraremos agora ilustrar essa afirmação, pelas Escrituras e pela experiên­cia cristã.
Tomemos primeiramente o campo da ciência políti­ca. A história de Israel no Velho Testamento fornece-nos o exemplo de uma nação altamente privilegiada, e de seu governo. Ficamos sabendo que o povo de Israel desejava manter relacionamento com as nações ao seu redor, e, portanto desejava um rei. Por ora deixaremos de lado a sua escolha de Saul, adiantando-nos até o ponto em que finalmente, no tempo escolhido por Ele, Deus deu-lhes o rei que elegera, que estabeleceria o reino sob a Sua pró­pria direção.
Ora, mesmo sendo isso claramente obra de Deus, o curso natural do reino provou ser, "como as nações", di­rigido para longe Dele. Pois um reino é algo mundano, e estando de acordo com todas as coisas mundanas, tende a colidir com o propósito divino. Em qualquer parte do mundo em que o governo de uma nação seja deixado ao seu próprio destino, ele segue seu curso natural, que é mais e mais afastado de Deus. E o que é verdadeiro para políticas nacionais seculares, provou ser igualmente ver­dadeiro mesmo na divinamente escolhida, Israel. Sempre que Deus cessou Seus atos específicos a favor deles, o reino de Israel derivou para alianças políticas idólatras. Houve recuperações, é verdade, mas cada uma delas foi marcada por uma definida intervenção divina, e sem tal intervenção o curso era sempre descendente.
Pouco nos surpreenderá que o mesmo seja verdade em relação ao comércio. Não posso imaginar outra área onde a tentação para transações desonestas e corruptas seja tão grande como nesta. Todos sabemos algo sobre isto. Todos sabemos como é difícil permanecer direito e conduzir os negócios honestamente no mundo competitivo do comércio. Muitos diriam que é impossível, e para fazê-lo é necessária uma vida entregue a Deus de modo especial.
Recordamo-nos que nosso Senhor Jesus conta-nos sobre dois homens diferentes, um que ganhou o mundo todo e perdeu a sua vida, e outro, um mercador, que ven­deu tudo o que tinha para comprar uma pérola de inestimável valor. Jesus comparou o reino dos céus com este último (Mt 16:26; 13:45, 46). Não raro o Espírito de Deus tem movido homens de negócios para ações seme­lhantes. Tem havido não poucas firmas comerciais bem conhecidas cujos lucros foram dirigidos para finalidades divinas na pregação do evangelho e em outros modos.
Imagino um empreendimento assim, que no início de sua história, foi criação de um homem de negócios te­mente a Deus. Ora, temor religioso é uma qualidade que só pode existir quando é sustida dos céus, porém a saga­cidade comercial e eficiente organização que ela cria po­dem perpetuar-se sozinhas. Na primeira geração da histó­ria dessa firma, vemos a vida divina sendo mediada atra­vés de seu fundador, o suficiente para manter o que mesmo então era uma preocupação mundana, segura­mente sob a autoridade de Deus. Mas na segunda gera­ção, aquele impedimento foi-se, e, como era de se espe­rar, o negócio gravitou automaticamente para o sistema mundial. O temor religioso esgotara-se, porém a firma em si ainda está prosperando.
Vamos supor agora que se tome um assunto aparentemente tão inocente quanto à agricultura. Aqui o livro de Gênesis, escrito em um mundo primitivo de rebanhos e agricultura, tem algo a dizer-nos. Após a queda de Adão, Deus foi forçado a dizer-lhe: "Maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abro­lhos, e tu comerás erva do campo. No suor de teu rosto comerás o teu pão, até que tornes a terra, pois dela foste formado". Ninguém iria sugerir que no Éden, onde flo­rescia a árvore da vida, a lavoura ou a jardinagem estives­sem erradas. Eram ordenanças de Deus. Porém assim que saíram das mãos de Deus, deterioraram-se. O homem foi condenado a um círculo interminável de trabalho penoso e decepção, e um elemento de perversidade marcava o fruto do seu labor. A libertação de Noé foi o grande mo­vimento de recuperação de Deus, no qual foi dado a ter­ra um novo princípio. Mas como foi rápida, como foi trágica, a volta do homem ao tipo primitivo. "Sendo Noé lavrador, passou a plantar uma vinha. Bebendo do vinho, embriagou-se, e se pôs nu dentro de sua tenda". É claro que a agricultura não é pecaminosa em si mesma, mas já aqui a sua direção é contrária a Deus. Deixe a seguir sua tendência natural e ela conseguirá tomar um rumo diametralmente oposto a Ele. Temos nós algo disso hoje em dia, em desastres físicos tal como a esterilização de continentes?
Como é diferente a Igreja, a lavoura de Deus! Pela graça de Deus e a habitação do Espírito Santo, ela possui um poder inerente de vida que, se for correspondido, é capaz de conservá-la constantemente movendo-se para Deus, ou então chamá-la de volta a Ele, no caso de se desviar.
Quando nos voltamos para a educação, tanto a Bí­blia como a experiência tem algo a dizer-nos. Alegorica­mente falando, poderíamos dizer que rejeitando Saul e escolhendo Davi, Deus estava passando por cima de um homem que se distinguia por sua cabeça (pois ele excedia nessa medida a altura de seus nobres), a favor do homem que era segundo o Seu coração! Mas, seriamente falando, homens tais como José, Moisés e Daniel, de cuja sabedo­ria Deus fez uso publicamente, receberam cada qual, di­retamente do próprio Deus, o entendimento de que ne­cessitavam. Eles tiveram em pouca conta a educação secular que haviam recebido. E o apóstolo Paulo colocou cla­ramente o conhecimento entre "todas as coisas" que considerava como perda pela excelência do conhecimen­to de seu Senhor Jesus Cristo (Fl 3:8). Ele traça uma clara distinção entre a sabedoria do mundo e a sabedoria que vem de Deus (1Co 1:21, 30).
Mas é a experiência que demonstra o mundanismo essencial do conhecimento como tal. Muitos dos histó­ricos estabelecimentos universitários do ocidente, foram fundados por homens cristãos que desejavam proporcio­nar a seus semelhantes uma boa educação, sob influên­cia cristã. Durante a vida de seus fundadores, o caráter daquelas fundações era elevado, porque esses homens co­locaram conteúdo espiritual real nelas. Quando, porém, os homens se foram, o controle espiritual foi-se também, e a educação seguiu seu curso inevitável em direção ao mundo do materialismo e para longe de Deus. Em alguns casos pode ter levado um longo tempo, pois a tradição religiosa é difícil de desaparecer; mas a tendência sempre foi óbvia, e em muitos casos o destino só agora foi alcançado. Quando as coisas materiais estão sob controle espi­ritual, elas cumprem seu devido papel secundário. Liber­tas da restrição manifestam muito rapidamente o poder que está por trás delas. A lei de sua natureza declara-se, e seu caráter mundano é comprovado pelo curso que seguem.
A difusão de empreendimentos milionários na nos­sa era atual dá-nos uma oportunidade de testar esse prin­cípio nas instituições religiosas de nossos dias e de nossa pátria. Mais do que um século atrás, a Igreja determinou estabelecer na China escolas e hospitais com um caráter espiritual definido e um objetivo evangelístico. Naqueles primeiros dias, não foi dada muita importância às cons­truções, ao passo que ênfase considerável foi dada ao pa­pel das instituições na proclamação do Evangelho. Dez ou quinze anos mais tarde podia-se passar pelos mesmos lugares e em muitos deles encontrar instituições muito maiores e mais bonitas no lugar das originais, mas em comparação com os primeiros anos, um número muito menor de convertidos. E hoje em dia, muitas daquelas esplêndidas escolas e universidades transformaram-se em centros puramente educacionais, carentes de qualquer motivação realmente evangelística, enquanto que em quase idêntica extensão, muitos dos hospitais existem agora unicamente como lugares de mera cura física, e não mais de cura espiritual. Os homens que lhes deram início haviam, por caminharem próximos a Deus, manti­do aquelas instituições firmemente dentro de Seu propó­sito; mas quando eles morreram, as instituições rapida­mente gravitaram em direção aos objetivos e padrões mundanos, e assim fazendo, classificaram-se como "coi­sas do mundo". Não deveríamos ficar surpresos por assim suceder.
Nos primeiros capítulos de Atos, lemos como o ines­perado surgiu, levando a Igreja a instituir assistência aos santos mais pobres. Aquela instituição urgente de serviço social foi claramente abençoada por Deus, porém era de natureza temporária. Você exclama: "Como seria bom se tivesse continuado!" Somente alguém que não conhece a Deus diria isso. Se aquelas medidas de assistência tives­sem sido prolongadas indefinidamente, teriam certamen­te tomado a direção do mundo, assim que a influência espiritual que operava inicialmente fosse removida. É inevitável.
Existe uma diferença entre a Igreja construída por Deus, por um lado, e pelo outro, aqueles valiosos subprodutos sociais e de caridade que são lançados por ela de quando em quando, através da fé e visão dos seus membros. Estes últimos, por se originarem em visão espi­ritual, possuem em si mesmos um poder de sobrevivên­cia independente, que a Igreja de Deus não tem. São as obras que a fé dos filhos de Deus pode iniciar e conduzir, mas que, uma vez mostrado o caminho e estabelecido o padrão profissional, podem ser facilmente sustentadas ou imitadas por homens do mundo totalmente separados dessa fé.
A Igreja de Deus, repito, não deixa jamais de ser de­pendente da vida de Deus para sua manutenção. Imagine uma igreja viva em uma cidade de hoje, com sua comuni­dade, oração e testemunho do evangelho, seus muitos la­res e centros de atividade espiritual. Alguns anos depois, o que encontramos? Se o povo de Deus O seguiu em fé e obediência, pode ser um lugar mais cheio do que nunca com a vida e luz do Senhor e com o poder de Sua pala­vra; mas se, sendo infiéis a Ele esqueceram sua visão de Cristo, pode igualmente ter-se transformado em um lugar onde se prega o ateísmo. Terá então cessado de existir como uma igreja. Pois a Igreja depende para sua própria existência de uma incessante concessão da nova vida de Deus, e não pode sobreviver um dia sequer sem ela.
Mas suponha que ao lado da Igreja há uma escola, hospital, editora, ou qualquer outra instituição fundada com base religiosa, originando-se na fé dos mesmos mem­bros da Igreja. Na hipótese de que a necessidade de seus serviços ainda continue a existir dez anos depois e não tenha sido preenchida por alguma empresa privada ou governamental, então é provável que aquela obra ainda estará operando então, em um padrão de serviços não menos eficiente e recomendável. Pois se for fornecida ex­periência administrativa regular, um colégio ou hospital pode continuar eficientemente em um nível puramente institucional, sem nenhum novo fluxo de vida divina. A visão pode ter desaparecido, porém o estabelecimento prossegue indefinidamente. Tornou-se não menos mun­dano do que tudo o mais que pode ser mantido indepen­dente da vida de Deus. E cada uma dessas coisas está inclusa na sentença do Senhor: "Agora é o julgamento deste mundo".
Vamos imaginar que eu lhe faça esta pergunta: "Que tipo de trabalho você faz?" Você responde: "Sou médi­co". Você o diz sem qualquer outro sentimento especial, a não ser o orgulho quanto à natureza compassiva de sua missão, e sem qualquer percepção do possível perigo de sua situação. Mas, e se eu lhe disser que a ciência médica é mais uma das unidades de um sistema que é controlado por Satanás? Admitindo-se que, como cristão, você me leve a sério, então ficará imediatamente alarmado e poderá até mesmo pensar se não seria melhor abandonar sua profissão. Não, não deixe de ser médico. Mas cami­nhe cuidadosamente, pois você está sobre território que é governado pelo inimigo de Deus, e, a não ser que este­ja vigilante, você é tão passível de cair presa de seus artifícios, como qualquer outra pessoa.
Ou, suponha que você seja engenheiro, fazendeiro ou editor. Tome cuidado, pois estas também são coisas do mundo, tanto quanto dirigir um lugar de diversões ou um antro de vícios. A não ser que caminhe cuidadosa­mente, você será apanhado em alguma das armadilhas de Satanás, perdendo a liberdade que lhe pertence como fi­lho de Deus.
Então como, pergunta você, seremos libertos de seus envolvimentos? Muitos pensam que escapar ao mundo é uma questão de consagração, de dedicar-se novamente e com maior sinceridade às coisas de Deus. Não, é uma questão de salvação. Por natureza estamos todos enreda­dos naquele sistema satânico, e não temos meios de sair, a não ser pela misericórdia de Deus. Toda nossa consagração é impotente para livrar-nos; dependemos somente de Sua compaixão e Sua obra redentora para tirar-nos para fora dele. Ele é totalmente capaz para fazê-lo, e os meios pelos quais o faz, será o tema do nosso próximo capítulo.
Deus pode colocar-nos sobre uma rocha, e guardar nossos pés de escorregarem. Auxiliados por Ele, podemos dedicar nosso comércio ou profissão ao serviço de Sua vontade, por tanto tempo quanto Ele o deseje. Mas repito novamente que o curso natural de todas as "coisas que estão no mundo” dirige-se a Satanás e pa­ra longe de Deus. Algumas delas podem ter sido inicia­das por homens pelo Espírito com uma finalidade que é divina, porém assim que a restrição da vida divina é re­movida, automaticamente dão meia volta e tomam a outra direção. Não admira então que os olhos de Satanás estejam sempre no final do mundo, e na perspectiva de que naquela ocasião todas as coisas do mundo voltar-se-ão para ele. Mesmo agora, e todo o tempo, estão se mo­vendo em sua direção, e no tempo final pode-se esperar que tenham alcançado seu objetivo. Quando entramos em contato com qualquer das unidades desse sistema, esse pensamento deveria fazer-nos raciocinar, a fim de que não sejamos encontrados inadvertidamente ajudan­do-o na construção do seu reino.

  
3
 CAPÍTULO


UM MUNDO SOB A ÁGUA

"E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado, será salvo; quem, porém, não crer será condenado." (Marcos 16:15,16).
Para muitos de nós, a ordem da segunda sentença é uma surpresa. Jesus não disse que aquele que crê e é sal­vo será batizado. Não, ele colocou o fato de outro modo. Aquele que crê e é batizado, disse Ele, será salvo. É ape­nas para nosso risco que mudamos algo que o Senhor dis­se em algo que Ele não disse. Tudo o que Ele diz é im­portante, e Ele realmente fala sério cada palavra. Mas se é assim, então deve ser um fato que somente através da fé Nele e sendo batizados somos salvos. Alguns ficarão perplexos diante disso. "O que você quer dizer?" protes­tarão. Mas não se espantem; e não me culpem! Eu não disse isso; meu Senhor o disse. Foi Ele quem estabeleceu a ordem: fé, então batismo, então salvação. Não devemos inverter para fé, salvação, batismo, não importando o quanto desejemos que assim fosse. O que o Senhor disse deve permanecer, cabendo-nos apenas obedecer.
Não apresento desculpas por tomar as palavras de Marcos 16:16 como palavras autênticas de Jesus, embo­ra esteja ciente de que há críticos que as questionam. Certa vez, em uma vila campestre, encontrei um alfaiate chamado Chen. Ele encontrara um evangelho de Marcos, e quando chegou a esta passagem que os críticos afir­mam que não pertence de modo nenhum àquele evan­gelho, ele creu e confiou no Senhor. Não havia outros cristãos no lugar, e, portanto ninguém para batizá-lo. O que iria fazer? Então ele leu o versículo 20. O próprio Deus confirmaria Sua palavra a ele: aquilo foi suficiente. Assim, em sua simplicidade, ele decidiu testar uma das promessas do versículo 18. Agindo de acordo, visitou di­versos vizinhos que estavam enfermos. Após orar, impor as mãos sobre eles em nome de Jesus voltou para casa.
No devido tempo e sem exceções, contou-me ele, os seus vizinhos sararam. Aquilo o satisfez. Com a sua fé confir­mada, ele continuou calmamente com sua alfaiataria, onde, quando o encontrei, estava fielmente testemu­nhando para seu Senhor. Se ele tomar a Palavra de Deus seriamente, porque não deveria eu fazê-lo?
Assim sendo, repito, "Quem crer e for batizado, se­rá salvo". Acaso quer dizer, você exclamará, que acredita na regeneração batismal? Não, na verdade não creio! O Senhor não disse: "Creia, e seja batizado, e você nascerá de novo"; e uma vez que Ele não o disse, não tenho ne­nhuma necessidade de crer nisso. Suas palavras são: "Quem crer e for batizado será salvo". Portanto o que eu acredito é na salvação batismal.
Assim surge naturalmente a pergunta: o que significa essa afirmativa? E o que ela significa quando Lucas con­ta-nos que, em resposta à exortação de Pedro para "sal­var a si próprio dessa geração má", então aqueles que recebem sua palavra foram batizados.
Para responder a isso devemos perguntar-nos primei­ro o que queremos dizer com a palavra "salvos". Receio que tenhamos uma idéia muita errada de salvação. Tudo o que muitos de nós sabemos sobre salvação é que sere­mos salvos do inferno e iremos para o céu; ou de outro modo, que somos salvos de nossos pecados para viver daí em diante uma vida santa. Mas estamos errados. Nas Es­crituras, descobrimos que a salvação vai além disso. Pois não está tão relacionada com o pecado e o inferno, ou santidade e paraíso, mas com algo mais.
Sabemos que cada dom perfeito que Deus nos ofere­ce, é dado para refutar e contrariar um mau contrastante. Ele nos dá justificação, porque existe condenação. Ofere­ce-nos vida eterna, porque há a morte. Oferece-nos per­dão, porque existem pecados. Traz-nos salvação – por quê? Justificação relaciona-se à condenação, o céu ao inferno, o perdão aos pecados. Então com o que se rela­ciona a salvação? Salvação, veremos, está relacionada ao kosmos, o mundo.
Satanás é o inimigo pessoal de Cristo. Ele opera através da carne do homem para produzir seu padrão de coisas sobre a terra, com a qual todos ficamos envolvi­dos, nenhum de nós está isento. E todo este padrão cós­mico está particularmente em disputa com Deus o Pai. Creio que todos sabemos como as três forças negras, o mundo, a carne e o diabo estão em oposição às três pes­soas da divindade. A carne está alinhada contra o Espíri­to Santo como Paracleto, o próprio Satanás contra o Senhor Jesus Cristo, e o mundo contra o Pai como Criador.
Aquilo que estamos tratando aqui como sendo o kosmos sempre se opõe a Deus como Pai e Criador. Foi a esse plano eterno da criação que as palavras "era muito bom" se referiam, Ele jamais cessou de trabalhar com relação a esse plano. Antes da fundação do mundo Ele propusera em Seu coração ter sobre a terra uma ordem da qual a raça humana seria a expressão máxima, e que mostraria livremente o caráter de Seu Filho. Porém Sa­tanás interveio. Usando esta terra como seu trampolim e o homem como seu instrumento, ele usurpou a criação de Deus, fazendo-a, ao contrário, algo centralizado em si mesmo e refletindo sua própria imagem. Assim este siste­ma alienígena de coisas foi um desafio direto ao plano divino.
Dessa forma, somos atualmente confrontados por dois mundos, duas esferas de autoridade, tendo dois caracteres totalmente diferentes e opostos. Para mim o pre­sente não é simplesmente uma questão de um céu ou in­ferno futuros; é uma questão destes dois mundos atuais, e se eu pertenço a uma ordem de coisas da qual Cristo é soberano Senhor, ou a uma ordem oposta tendo Sata­nás como seu verdadeiro dirigente.
Assim, salvação não é tanto uma questão pessoal de pecados perdoados ou inferno evitado. Precisa ser encarada mais em termos de um sistema do qual saímos. Quando sou salvo, faço meu êxodo de um mundo inteiro e minha entrada em outro. Sou salvo agora de todo aquele império organizado que Satanás construiu em de­safio ao propósito de Deus.
Esse reino, o kosmos que tudo abrange, tem muitas entranhas. Naturalmente o pecado tem seu lugar prioritário ali, e as concupiscências mundanas; nossos mais estimados padrões humanos e meios de fazer as coisas fazem parte dele da mesma maneira. A mente humana, sua cultura e suas filosofias estão todas incluí­das, juntamente com o melhor das ideologias sociais e políticas da humanidade. Ao lado dela deveríamos sem dúvida colocar as religiões do mundo, e entre elas aque­les pássaros manchados, o cristianismo mundano e sua "Igreja do mundo". Onde quer que o poder do homem natural domine, existe naquele sistema um elemento que está sob a inspiração direta de Satanás.
Se esse é o mundo, o que então é a salvação? Salvação significa que fujo dessa situação. Eu saio, realizo um escape daquele kosmos que tudo contém. Não pertenço mais ao padrão de coisas de Satanás. Coloco meu cora­ção naquilo em que o coração de Deus está colocado. Tomo como meu objetivo Seu propósito eterno em Cris­to, caminho para ele, e sou liberto deste.
Aquele que crê e é batizado será salvo. Jesus queria dizer simplesmente aquilo que falou. Eu dou o passo da fé: creio e sou batizado, e saio como um homem salvo. Isso é salvação. Por isso, jamais consideremos o batismo como de pouca importância. Coisas tremendas estão re­lacionadas a ele. Trata-se de uma questão não inferior à de dois mundos que se opõem violentamente, e de nossa transferência de um para o outro.
Há nas Escrituras outra passagem que coloca o batis­mo e a salvação juntos, para ilustrar o tema. Refiro-me ao capítulo 3 de 1 Pedro. Lá o apóstolo conta-nos como "a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvas, através da água..." (vs. 20). A água, diz ele, é uma figura ou semelhança, ou (como dizem as notas da Revised Version inglesa) um antítipo de alguma outra coisa. "A qual, figurando o batismo, agora também vos salva". Assim o batismo, raciocina ele, nos salva agora. Está claro que Pedro acreditava em nossa salvação através do batismo tão firmemente como acredi­tava na salvação de Noé através da água. Por favor, lembre-se de que não estou falando de regeneração, e nem estou dizendo libertação do inferno ou do pecado. En­tenda-se claramente que aqui estamos falando sobre sal­vação. Não é apenas uma questão de termos; diz respeito a sermos fundamentalmente separados do sistema mun­dial atual.
Para compreendermos melhor o que Pedro quer di­zer, deveremos retornar à sua fonte nos capítulos 6 a 8 de Gênesis. O quadro é ilustrativo. Ali encontramos nos dias de Noé um mundo totalmente corrupto. Criada pri­meiramente por Deus, a terra tornara-se corrupta pelo ato do homem, naquele dia em que este se colocou sob Satanás. O pecado, uma vez introduzido, desenvolveu-se e chegou ao excesso, até que o próprio Espírito Santo de Deus gritou "Basta!" As coisas haviam chegado a um ponto em que não podiam mais ser remediadas; só po­diam ser julgadas e removidas.
Assim Deus ordenou a Noé que construísse uma ar­ca, e trouxesse sua família e as criaturas para dentro de­la, e então veio o dilúvio. Por ele foram "levantados aci­ma da terra" sobre águas que cobriam "todos os altos montes que havia debaixo do céu". Todas as coisas vivas, tanto homens como animais, pereceram e somente aque­les que flutuaram por sobre as águas foram salvos. O im­portante aqui não é apenas que eles escaparam à morte por afogamento. Isso não é o essencial. O essencial para nós é que eles foram as únicas pessoas a saírem daquele sistema corrupto de coisas, aquele mundo sob a água. Vi­da pessoal é a conseqüência inevitável de sair, e a perdi­ção pessoal a de ficar, porém salvação é a saída em si, não o efeito dela. Preste atenção a esta diferença, pois é grande. Salvação é essencialmente a saída agora de uma ordem condenada que pertence a Satanás.
Louvado seja Deus, eles saíram! Como? Através das águas. Assim hoje em dia quando os crentes são batizados, passam simbolicamente através da água, do mesmo modo pelo qual Noé passou dentro da arca pelas águas do dilúvio. E esta passagem pelas águas significa sua fuga do mundo, sua saída do sistema de coisas que, como seu príncipe, está sob a sentença divina. Posso dizer isto es­pecialmente àqueles que estão sendo batizados hoje. Por favor, lembre-se, você não é o único que está na água. Quando você caminha para a água, um mundo inteiro desce com você. Quando sai das águas, você sai em Cris­to, na arca que flutua sobre as ondas, porém o seu mun­do fica para trás. Para você, aquele mundo está submer­so, afogado como o de Noé, morto na morte de Cristo e para não mais ser ressuscitado. É pelo batismo que você o declara. "Senhor, deixo para trás o meu mundo. Tua cruz separa-me dele para sempre!"
Falando de forma figurada, portanto, quando você passa através das águas do batismo, tudo o que pertencia à antiga ordem é cortado para nunca mais voltar, por aquelas águas. Só você emerge. Para você é uma passa­gem para um outro mundo, onde encontrará um pombo e as folhas verdes das oliveiras. Você sai do mundo que está sob julgamento, para um mundo que é marcado pela novidade da Vida Divina.
Quero novamente enfatizar que você não foi o único que desceu para as águas; seu mundo desceu com você, e ficou lá. Do ponto de vista de sua nova situação, você descobrirá que a água sempre cobre o mundo ao qual pertenceu antes. O mesmo dilúvio que salvou Noé e sua família afogou o mundo em que tinham vivido o mes­mo dilúvio. Dessa forma, a mesma água por um lado co­loca você e eu na terra da salvação em Cristo, e pelo ou­tro sepulta todo o sistema de coisas de Satanás. Não só sua própria história como filho de Adão termina no ba­tismo; o seu mundo também termina ali. Em ambos os casos, é uma morte e sepultamento sem qualquer ressur­reição. É o fim de tudo.
Isto significa que você não pode carregar nada da­quele antigo mundo para o novo. O que pertencia àquele reino anterior em Adão fica lá, e que jamais seja recorda­do. Pode ser que anteriormente você era empregado em uma loja, ou um criado em uma residência. Ou talvez vo­cê fosse o dono, gerente ou diretor de um negócio. Hoje, você pode continuar sendo o dono ou um criado, mas descobrirá que quando se trata de coisas divinas, quando se trata da Igreja e do serviço de Deus, não há escravo nem livre, nem empregador ou empregado. Você pode ser um judeu ou um gentio, ou uma centena de coisas que eram bem consideradas – ou mal consideradas – em Adão. Quando você passa através dessa água, todo aquele sistema de coisas desaparece, para não mais retornar. Ao invés delas, você vê a si próprio em Cristo, onde não há nem judeu nem grego, bárbaro ou cita nem qualquer outra coisa, mas um novo homem. Você entrou para uma ordem de coisas caracterizada por oliveiras e folhas de oliveiras, cujo segredo é a vida divina. A expressão "por meio da ressurreição de Jesus Cristo" dá colorido a todo futuro (1Pe 3:21). Significa que você passou para algo completamente novo que Deus está criando. De acordo com os comentaristas (Robert Young, Concordância Analítica da Bíblia Sagrada), o próprio nome Ararate significa "Terra Santa”. Seja como for, louvamos a Deus porque a arca que descansou sobre aquela terra renovada estava cheia de criaturas, tipificando uma nova criação. Da morte de Cristo, Deus traz à existência uma criação inteiramente nova, e em união com Cristo ressus­citado Ele está introduzindo o homem nela. Em Cristo, você e eu estamos lá!
Agora você me pergunta se importa não sermos ba­tizados. Minha única resposta é que o próprio Senhor o ordenou (Mt 28:19). E foi um passo do qual Ele pró­prio recusou-se a ser dissuadido (Mt 3:13-15). Pedro descreve o batismo como a indagação, ou testemunho, de uma boa consciência a Deus (vs 21). Um testemunho é uma declaração. Assim, por esse ato você diz algo, você declara onde está, talvez sem usar palavras, mas certamente pelo que faz. Passando pela água, você proclama a todo o universo que deixou para trás o seu mundo e entrou em algo absolutamente novo. Isso é salvação. Vo­cê assume uma posição pública quanto ao lugar no qual Deus o colocou em Cristo.
Isto ajuda a explicar porque nas Escrituras encontra­mos passagens relativas à salvação que são difíceis de in­terpretar, se relacionamos a salvação somente ao inferno ou pecado. Ilumina, por exemplo, as palavras aparente­mente difíceis de Paulo e Silas ao carcereiro de Filipos. O homem perguntou: "Que devo fazer para ser salvo?" Qual seria a sua resposta? Se você é um perfeito pregador evangélico dos nossos dias, diria com certeza: "Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo". Mas Paulo de fato acrescentou: "tu e tua casa". Posso ouvir você exclamar, quer realmente dizer que se eu creio no Senhor Jesus Cristo, seremos salvos eu e minha família? Agora precisa­mos novamente ser cuidadosos: Paulo não disse: "Crê no Senhor Jesus Cristo e tu e tua casa terão vida eterna". Ele disse, "Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e tua casa". Lembre-se, ele está preocupado com um siste­ma de coisas, com o repúdio e a saída do carcereiro da­quele sistema. Quando, como chefe de família, aquele homem declara que daquele dia em diante ele e sua casa servirão ao Senhor, e quando essa declaração torna-se co­nhecida publicamente, até mesmo os que passam pela rua apontarão para a porta e dirão: "Eles são cristãos”.
Isso é o que significa ser salvo. Declarar que perten­ce a outro sistema de coisas. As pessoas apontam-nos e dizem: "Oh! sim, aquela é uma família cristã; eles perten­cem ao Senhor!" Essa é a salvação que o Senhor quer para você, que por seu testemunho público você declare diante de Deus, "meu mundo se acabou; estou entrando em outro”. Possa o Senhor conceder-nos esse tipo de sal­vação, para encontrar-nos totalmente desarraigados da velha e coordenada ordem de coisas e firmemente planta­dos na nova e divina ordem.
Pois, louvado seja Deus, há um lado positivo glorio­so em tudo isto. Somos salvos "por meio da ressurreição de Jesus Cristo”, o qual, Pedro continua, "depois de ir para o céu, está à destra de Deus, ficando-lhe subordina­dos anjos, e potestades, e poderes" (vs. 22). Deus colocou Seu Filho como superior a todas essas coisas, e fez de todas autoridades súditos Seus. Um Deus que é capaz de fazer isso é muito capaz para trazer-me, corpo e al­ma, para esse outro reino.
Assim, para recapitularmos, temos aqui dois mun­dos. Por um lado, há o mundo de Adão, mantido firme­mente em escravidão a Satanás; por outro lado, há a no­va criação em Cristo, a esfera de atividade do Santo Espí­rito de Deus. Como você e eu saímos de uma esfera, Adão, para a outra, Cristo? Se você não tiver certeza de como responder a essa pergunta, posso fazer-lhe outra? Como você entrou em Adão, em primeiro lugar? Pois o caminho da entrada indica o da saída. Você entrou para a esfera de Adão nascendo na raça de Adão. Como você sai? Obviamente, pela morte. E como, da mesma forma, você entra na esfera de Cristo? A resposta é a mesma: pelo nascimento. O modo de entrar para a família de Deus é pelo novo nascimento para uma esperança viva, através da ressurreição de Jesus Cristo (1Pe 1:3). Tendo ficado unido a Ele pela semelhança de Sua morte, você também está unido a Ele pela semelhança de Sua ressurreição (Rm 6:5). A morte coloca um fim ao seu relaciona­mento com o velho mundo, e a ressurreição o coloca em contato vivo com o novo.
Finalmente, o que ocupa a brecha? Qual a pedra de ligação entre esses dois mundos? Não é o sepultamento? "Fomos, pois sepultados com Ele na morte pelo batis­mo" (Rm 6:4). Por um lado, há uma inflexível deter­minação quanto às palavras "sepultados na morte". Minha história em Adão já foi concluída na morte de Cris­to, de forma que quando saio daquele sepultamento pos­so dizer que sou um homem "acabado”. Mas posso dizer mais, pois, louvado seja Deus, não é menos verdade que há o outro aspecto. Desde que "Cristo foi ressuscitado dentre os mortos", quando saio da água e vou embora, posso caminhar em novidade de vida" (6:4).
Esse duplo efeito da cruz está implícito também nas palavras precedentes de Rm 6:3: "Ou porventura, ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na Sua morte?" Aqui, em uma só frase, os dois aspectos do batismo são novamente aludidos. É batismo em duas coisas. Primeiro, nós que cremos fomos "batizados na sua morte". Este é um fato tremendo, po­rém é tudo? De modo nenhum, pois em segundo lugar o mesmo versículo diz que nós fomos "batizados em Cristo Jesus”. Um batismo na morte de Cristo acaba com minha relação com este mundo, mas um batismo em Cristo Jesus como uma Pessoa viva, Cabeça de uma nova raça, abre para mim todo um novo mundo de coisas. In­do para as águas, eu simplesmente estabeleço as coisas, afirmando publicamente que o "julgamento deste mun­do" tornou-se real para mim, desde o dia em que o Filho do Homem "levantado" atraiu-me para Si.
Que evangelho para pregar a toda criação!


4
 CAPÍTULO


CRUCIFICADO EM MIM


Separação para Deus, separação do mundo, é o primeiro princípio do viver cristão. Na revelação de Cristo feita a João, foram mostrados dois extremos irre­conciliáveis, dois mundos que moralmente eram pólos opostos. Ele foi primeiro transportado no Espírito para um deserto, para ver Babilônia, mãe das meretrizes e abominações da terra (Ap 17:3). Foi então levado no mesmo Espírito para uma grande e alta montanha, para dali contemplar Jerusalém, a noiva, a esposa do Cordeiro (Ap 21:10). O contraste é claro, e dificilmente poderia ser mais explicitamente declarado.
Quer sejamos Moisés ou Balaão, para termos a visão que Deus tem das coisas, precisamos ser levados como João para um pico de montanha. Muitos não podem ver o plano eterno de Deus, ou se o vêem entendem-no ape­nas com árida doutrina, porque se satisfazem em permanecer nas planícies. Pois a compreensão jamais pode tocar-nos; só a revelação o faz. Do deserto podemos ver algo da Babilônia, porém necessitamos de revelação espi­ritual para ver a Nova Jerusalém de Deus. Uma vez que a avistemos, jamais seremos os mesmos novamente. Por­tanto, como cristãos nós confiamos tudo a essa abertura de olhos, mas para experimentá-la precisamos estar pre­parados para renunciar aos níveis comuns e subir.
A meretriz Babilônia é sempre "a grande cidade" (Ap 16:19, etc.), com ênfase em seus feitos de gran­deza. A Nova Jerusalém é, ao contrário, "a cidade santa" (Ap 21:2, 10), com a ênfase correspondente em sua separação para Deus. Ela é "de Deus" e está preparada para "seu esposo". Por essa razão, ela tem a glória de Deus. Essa é uma questão de experiência para todos nós. Santidade em nós é o que é de Deus, o que está total­mente separado para Cristo. Segue a regra de que so­mente o que se originou do céu retorna para lá; pois nada mais é santo. Retire-se esse princípio de santidade, e estamos instantaneamente em Babilônia.
Dessa forma, sucede que a muralha é o primeiro aspecto da cidade em si que João menciona em sua descri­ção. Há portas fazendo provisão para as obras de Deus, porém a muralha tem prioridade. Pois, repito, separação é o primeiro princípio da vida cristã. Se Deus quer Sua cidade com suas medidas e Sua glória naquele dia, então precisamos construir aquela muralha nos corações humanos agora. Na prática isto quer dizer que devemos guar­dar como precioso tudo o que é de Deus, e recusar e rejeitar tudo o que é da Babilônia. Com isso, não estou me referindo à separação entre cristãos. Não ousamos excluir nossos próprios irmãos, mesmo quando não pode­mos participar de algumas coisas que eles fazem. Não, devemos amar e receber nossos irmãos cristãos, mas ser­mos em princípio inflexíveis em nossa separação do mundo.
Em seus dias, Neemias conseguiu reconstruir a mu­ralha de Jerusalém, mas apenas enfrentando grande oposição. Pois Satanás odeia a separação. Ele não pode su­portar a separação do homem para Deus. Por isso, Nee­mias e seus companheiros armaram-se, e assim equipados para a guerra, assentaram pedra por pedra. Este é o preço da santidade, para o qual devemos estar preparados.
Pois certamente precisamos construir. O Éden era um jardim sem muralhas artificiais para conservar fora os inimigos; por isso Satanás pôde entrar. Deus pretendia que Adão e Eva "o guardassem" (Gn 2:15), eles pró­prios constituindo-se numa barreira moral contra ele. Hoje, por meio de Cristo, Deus planeja um Éden no co­ração de Seu povo redimido, ao qual, em triunfante realidade, Satanás finalmente não terá qualquer acesso mo­ral. "Nela nunca jamais penetrará coisa alguma contami­nada, nem o que pratica abominação e mentira; mas so­mente os inscritos no livro da vida do Cordeiro".
Muitos de nós concordaríamos que foi dada uma reve­lação especial da Igreja de Deus ao apóstolo Paulo. De igual modo, sentimos que Deus deu a João uma compre­ensão especial da natureza das coisas do mundo. Na verdade, kosmos é peculiarmente uma palavra de João. Os outros evangelhos usam-na apenas quinze vezes (Ma­teus nove, Marcos e Lucas três vezes cada, enquanto Paulo emprega-a 47 vezes em oito cartas. Mas João usa-a 105 vezes ao todo, 78 em seu evangelho, 24 em suas epístolas e mais três vezes em Apocalipse.
Em sua primeira epístola, João escreve: "porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a con­cupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo" (2:16). Nestas palavras que refletem com tanta clareza a tentação de Eva (Gn 3:6), João define as coisas do mundo. Tudo o que pode ser incluído na concupiscência ou desejo primitivo, tudo o que excita ambição gananciosa, e tudo o que desperta em nós a soberba ou deslumbramento da vida, todas essas coisas são parte do sistema satânico. Talvez quase não seja necessário considerar mais detalhadamente os dois primeiros, mas contemplemos o terceiro por um momento. Tudo o que provoca soberba em nós, é do mundo. Proeminência, riquezas, realizações, isto o mun­do aplaude. Os homens ficam legitimamente orgulhosos do sucesso. Contudo, João denomina tudo o que traz essa sensação de sucesso como "do mundo".
Portanto, cada sucesso que experimentamos (eu não estou sugerindo que deveríamos ser fracassados) recla­ma de nós, por um instante, a humilde confissão de sua pecaminosidade inerente, pois onde quer que tenhamos encontrado o sucesso, até certo ponto entramos em con­tato com o sistema mundial. Sempre que sentimos complacência quanto a alguma realização, podemos saber de imediato que tocamos o mundo. Podemos saber, também, que nos colocamos sob o julgamento de Deus, pois não temos já concordado que o mundo todo está sob julgamento? Agora (e vamos tentar assimilar este fato) aqueles que percebem isso e confessam sua necessidade estão desse modo protegidos.
Mas o problema é, quantos de nós estão conscientes disso? Mesmo aqueles dentre nós que vivem na separação de suas casas particulares estão tão propensos a serem presas da soberba da vida, quanto os que têm grande su­cesso público. Uma mulher em uma modesta cozinha po­de tocar o mundo e sua complacência mesmo enquanto estiver preparando a refeição diária ou entretendo convidados. Toda glória que não é para a glória de Deus é van­glória, e são surpreendentes os sucessos insignificantes que podem causar vanglória. Onde quer que encontremos o orgulho, encontramos o mundo, e há uma perda imediata de nosso relacionamento com Deus. Oh, que Deus nos abra os olhos para vermos claramente o que é o mundo! Não apenas as coisas más, mas todas aquelas que nos afastam tão gentilmente de Deus, são unidades da­quele sistema que é antagônico a Ele. Contentamento na realização de um trabalho tem o poder de se colocar de imediato entre nós e Deus. Pois se é soberba da vida e não o louvor a Deus que desperta em nós, podemos saber com certeza que tocamos o mundo. Dessa forma, há uma necessidade constante de vigiar e orar, se quisermos manter pura comunhão com Deus.
Qual é então o modo de escapar a essa cilada que o diabo colocou para enganar o povo de Deus? Primeiro, digo enfaticamente que não escaparemos pelo fato de fugirmos. Muitos pensam que podemos escapar do mundo, procurando abster-nos das coisas do mundo. Isso é tolice. Como poderíamos nós escapar ao sistema do mundo usando o que, afinal de contas, é um pouco mais do que métodos mundanos? Permita-me recordar-lhes as pala­vras de Jesus em Mateus 11:18, 19: "Pois veio João, que não comia nem bebia e dizem: tem demônio. Veio o Fi­lho do homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!" Alguns pensam que João Batista nos oferece uma receita para escapar ao mundo, mas "não comia nem bebia" não é cristianismo. Cristo veio comendo e bebendo e isso é cristianismo! O apóstolo Paulo fala das "ordenanças do mundo", e define-as como "não manuseies isto não proves aquilo, não toques aquiloutro" (Cl 2:20, 21). Assim, a abstinências é nada mais nada menos do que mundana, e que esperança há, no uso de ordenanças mundanas, de escapar do sistema do mundo? Contudo quantos cristãos sinceros estão renunciando a toda sorte de prazeres mundanos na esperança de assim ficarem libertos do mundo! Você pode construir uma cabana de eremita em algum lugar remoto, pensando escapar ao mundo retirando-se para lá, mas o mundo o seguirá até mesmo ali. Seguirá sua pista e o encontrará, não importando onde você se esconda.
Nossa libertação do mundo começa, não com a nossa desistência disso ou daquilo, mas com o enxergarmos com os olhos de Deus, que é um mundo sob sentença de morte, como na ilustração com a qual abrimos este capítulo, "caiu, caiu a grande Babilônia!" (Ap 18:2). Agora uma sentença de morte está sempre passada, não sobre os mortos, mas sobre os vivos. E em certo sentido o mundo é uma força viva hoje, perseguindo e procuran­do incansavelmente seus vassalos. Mas, embora seja ver­dade que quando é pronunciada a sentença a morte ain­da pertence ao futuro, ainda assim é certa. Uma pessoa sob sentença de morte, não tem futuro além dos limites de uma cela condenada. Do mesmo modo o mundo es­tando sob sentença, não tem futuro. O sistema mundial ainda não foi "golpeado", como dizemos, e terminado por Deus, mas o golpeamento é uma questão já decidida. Faz toda diferença para nós se vemos isso. Algumas pessoas procuram a libertação do mundo no ascetismo e como o Batista, não comem nem bebem. Isso hoje é budis­mo, não cristianismo. Como cristãos nós comemos e be­bemos, mas o fazemos na compreensão de que o comer e beber pertencem ao mundo, e, como eles estão sob a sentença de morte, não tem poder sobre nós.
Suponhamos que as autoridades municipais de Xangai decretem que a escola onde você está empregado deve ser fechada. Assim que toma conhecimento dessa notícia, você percebe que não há futuro naquela escola para você. Continua trabalhando lá por um tempo, mas não constrói nada para o futuro ali. Sua atitude para com a escola muda no momento em que fica sabendo que deve ser fechada. Ou, para usar outra ilustração, suponha que o governo decida fechar certo banco. Você se apressaria a depositar nele uma grande importância de dinheiro para salvá-lo do colapso? Não, você não depositaria ali nem mais um centavo, desde que saiba que não tem futu­ro. Você não deposita nada, porque não espera nada dele.
E podemos com justificativa dizer que o mundo está sob uma ordem de fechamento. Babilônia caiu quando seus defensores guerrearam com o Cordeiro, e quando por Sua morte e ressurreição Ele os superou como o Senhor dos senhores e Rei dos reis (Ap 17:14). Não há futuro para ela.
Uma revelação da cruz de Cristo implica para nós na descoberta desse fato, que através dela tudo o que per­tencia ao mundo está sob sentença de morte. Continua­mos vivendo e utilizando as coisas do mundo, mas não podemos construir qualquer futuro com elas, pois a cruz destruiu toda esperança que tínhamos nelas. A cruz de nosso Senhor Jesus podemos na verdade afirmar, arrui­nou nossas expectativas quanto ao mundo, não temos nada por que viver nele.
Não existe um verdadeiro caminho de salvação do mundo que não principie com tal revelação. Precisamos apenas tentar escapar do mundo fugindo dele, para descobrir o quanto nós o amamos, e o quanto ele nos ama. Podemos fugir para onde quisermos para evitá-lo, mas ele certamente nos encontrará. Mas perdemos inevitavelmen­te todo interesse pelo mundo, e este perde seu poder sobre nós, assim que descobrirmos que o mundo está con­denado. Compreender isso é ser automaticamente corta­do de toda economia de Satanás.
No final de sua carta aos Gálatas, Paulo afirma isso muito claramente. "Mas longe esteja de mim gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo" (Gl 6:14). Notou algo marcante quanto a este versículo? Com relação ao mundo, ele fala dos dois aspectos da obra da cruz já mencionados em nosso capítulo anterior. "Fui crucificado para o mundo" é uma afirmativa que vemos ser facilmente adaptável à nossa compreensão de estarmos crucificados com Cristo, como definido em passagens tais como Romanos 6. Mas aqui também está dito: especificamente que "O mundo foi crucificado para mim". Quando Deus vem a você e a mim com a revelação da obra terminada de Cristo, Ele não apenas mostra a nós mesmos crucificados lá na cruz, mostra-nos tam­bém o nosso mundo ali. Se você e eu não podemos escapar ao julgamento da cruz, então nem o mundo pode escapar a esse julgamento. Será que eu realmente já compreendi isso? Essa é a questão. Quando eu compreendo, não tento repudiar um mundo que amo, vejo que a cruz o repudiou. Não tento escapar a um mundo que se agarra a mim; vejo que através da cruz eu escapei.
Como tantas outras coisas na vida cristã, a forma da libertação do mundo vem a ser uma surpresa para muitos de nós, pois está em grande desigualdade com os conceitos naturais do homem. O homem procura resolver o problema do mundo afastando-se fisicamente do que ele considera a zona de perigo. Mas a separação física não traz a separação espiritual; e o contrário também é verda­deiro, que o contato físico com o mundo não compele à captura espiritual pelo mundo. Escravidão espiritual ao mundo é fruto de cegueira espiritual, e a libertação é o resultado de ter nossos olhos abertos. Não importa quão próximo possa ser externamente o nosso contato com o mundo, somos libertos do seu poder quando verdadeira­mente compreendemos sua natureza. O caráter essencial do mundo é satânico; é inimizade para com Deus. Compreender isso é encontrar libertação.
Permita-me perguntar-lhe: qual a sua ocupação? Mercador? Médico? Não se afaste dessas vocações. Sim­plesmente, escreva: o comércio está sob sentença de mor­te. A medicina está sob sentença de morte. Se fizer isso com sinceridade, sua vida será mudada dai em diante. No meio de um mundo sob julgamento por sua hostilida­de a Deus, você saberá o que é viver como alguém que verdadeiramente O ama e teme.
  

5
 CAPÍTULO


DIFERENCIAÇÃO DO MUNDO

"Chamo agora sua atenção para as palavras que Jesus dirigiu aos judeus em João 8:23: "Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não sou". Desejo que notemos aqui de modo especial o uso das palavras "de" e "deste". A palavra grega em cada caso é ek, que significa "fora de", e indica origem. Ek tou kosmos é a expressão empregada: "de, ou deste ou fora de, deste mundo". Assim o sentido da passagem é: "Vosso lugar de origem é de baixo; meu lugar de origem é de cima. Vosso lugar de origem é este mundo; meu lugar de origem não é este mundo". A questão não é: você é uma pessoa boa ou má? Mas, qual o seu lugar de ori­gem? Não perguntemos, isto está certo? Ou, isto está errado? Mas, de onde se originou? É a sua origem que de­termina tudo. "O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito" (João 3:6).
Assim, quando Jesus volta-se para os Seus discípu­los, Ele pode dizer, usando a mesma preposição grega, "se vós fosseis do mundo (ek tou kosmos) o mundo ama­ria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pe­lo contrário dele vos escolhi, por isso o mundo vos odeia" (João 15:19). Temos aqui a mesma expressão, "não sois do mundo", mas além disso, temos outra ex­pressão ainda mais forte, "dele vos escolhi". Nesta última citação há uma ênfase dupla. Como antes há um ek, "fora de", mas somando-se a isto o verbo "escolher", eklego, que contém em si outro ek. Jesus está dizendo que Seus discípulos foram "escolhidos, fora do mundo".
Há este duplo ek na vida de cada crente. Fora da­quela vasta organização chamada kosmos, fora de toda a grande massa de indivíduos que pertencem a ele e que es­tão envolvidos nele, para fora de tudo isso é que Deus nos chamou. Daí vem o nome "igreja", ekklesia, os que Deus "chamou para fora". Do meio do grande kosmos Deus chama um aqui e um ali; e todos os que Ele chama, chama para fora. Não existe tal coisa como um chamado de Deus que não seja um chamado "para fora" do mundo. A igreja é ekklesia. Na intenção divina, não há klesia ­à qual falte esse ek.
Se você é alguém que foi chamado, então foi chamado para fora. Se Deus o chamou, chamou-o para viver em espírito, fora do sistema mundial. Estávamos originalmente naquele sistema satânico, sem meios de sair; mas fomos chamados, e esse chamado trouxe-nos para fora. É verdade que essa declaração é negativa, mas há um la­do positivo também para nossa natureza; pois como povo de Deus temos dois títulos, cada qual significativo, de acordo com o modo pelo qual vemos a nós mesmos. Se olharmos para nossa história passada, somos ekklesia, a Igreja; mas se olharmos para nossa vida presente em Deus somos o corpo de Cristo, a expressão na terra Daquele que está no céu. Do ponto de vista da nossa escolha por Deus, estamos "fora" do mundo; mas do ponto de vista de nossa nova vida não somos absolutamente do mundo, mas do alto. Por um lado somos um povo escolhido, chamado e liberto do sistema mundial. Por outro lado, so­mos um povo regenerado, absolutamente sem ligação com aquele sistema, porque pelo Espírito somos nasci­dos do alto. Assim João vê a cidade santa descendo "do céu da parte de Deus" (Ap 21:10). Como o povo de Deus, o céu não é somente nosso destino, mas nossa origem.
É algo espantoso que em você e em mim haja um elemento que é essencialmente sobrenatural. É na verda­de tão sobrenatural que, não importa como este mundo possa evoluir, jamais pode avançar um passo de acordo com ele. A vida que temos como dom de Deus veio do céu, e jamais esteve no mundo. Não tem qualquer seme­lhança com o mundo, mas tem perfeita semelhança com o céu; e embora precisemos misturar-nos ao mundo dia­riamente, não permitirá jamais que nos acomodemos e fiquemos à vontade ali.
Consideremos por um momento essa dádiva divina, essa vida de Cristo habitando o coração do homem regenerado. O apóstolo Paulo tem muito a dizer sobre isso. Em uma passagem esclarecedora de 1 Coríntios, ele faz uma impressionante afirmação dupla: a) que o próprio Deus colocou-nos em Cristo; e b) que Cristo "se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção" (1:30). Aqui estão exemplos da ex­tensão total da necessidade humana que Deus satisfez em Seu Filho. Demonstramos em outra obra como Deus não nos concede estas qualidades de retidão, santidade e assim por diante, em prestações para "serem utilizadas quando necessário". O que Ele faz é dá-nos Cristo como resposta completa a todas as nossas necessidades. Ele faz Seu Filho ser minha retidão e minha santidade, e tudo o que não tenho, pela razão de que Ele já me colocou em Cristo crucificado e ressurreto.
Agora chamo sua atenção para a última palavra, "re­denção". Pois a redenção tem muito a ver com o mundo. Os israelitas, você deve estar lembrado, foram "redimi­dos" para fora do Egito, que naquela época era o mundo que eles conheciam, e que é para nós uma figura deste mundo sob governo satânico. "Eu sou o Senhor" disse a Israel, "e vos tirarei com braço estendido". Dessa forma, Deus os trouxe para fora, colocando uma barreira de jul­gamento entre eles e os exércitos perseguidores de Faraó, de forma que Moisés podia cantar sobre Israel como "o povo que salvaste" (Ex. 6:6, 15:13).
A luz disso, analisemos a dupla afirmação de Paulo. Se: a) Deus nos colocou em Cristo, então desde que Cris­to está inteiramente fora do mundo, nós também esta­mos inteiramente fora do mundo.
Ele é agora nossa esfera, e estando Nele, estamos por definição fora daquela outra esfera. O Pai "nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do Seu amor; no qual temos redenção" (Cl 1:13, 14). Esta transferência foi o assunto de nossos dois capí­tulos precedentes.
Além disso, se também (b) Cristo "se tornou re­denção" – se assim podemos dizer, Ele nos é dado para ser isso – então quer dizer que Deus colocou dentro de nós o próprio Cristo, como barreira para resistir ao mun­do. Encontrei muitos jovens cristãos tentando resistir ao mundo, tentando de um modo ou de outro viver uma vi­da não mundana. Descobriram que é muito difícil, e, além disso, tal esforço é, naturalmente, totalmente des­necessário. Pois por sua própria "estranheza" essencial, Cristo é nossa barreira contra o mundo, e não necessita­mos de nada mais. Não se trata de que precisamos fazer algo com relação à nossa redenção, do mesmo modo que o povo de Israel nada fez com relação à sua salvação. Sim­plesmente confiaram no braço redentor de Deus, estendido em seu favor. E Cristo é feito redenção para nós. Em meu coração há uma barreira levantada entre mim e o mundo, a barreira de uma outra espécie de vida, a saber, a vida do próprio Senhor Jesus, e Deus colocou ali essa barreira. E por causa de Cristo, o mundo não pode me alcançar.
Portanto, que necessidade tenho eu de tentar resistir ou escapar ao sistema de coisas? Se olhar para dentro de mim mesmo à procura de algo com que enfrentar e conquistar o mundo, instantaneamente encontro tudo em meu anterior clamando por aquele mundo, e enquanto luto para separar-me dele, simplesmente fico mais e mais envolvido. Mas deixemos que chegue o dia em que eu re­conheça que em meu interior Cristo é minha redenção, e que Nele eu estou inteiramente "fora". Aquele dia verá o fim da luta. Eu irei simplesmente dizer a Ele que não posso fazer absolutamente nada quanto a esse assunto de "mundo", a não ser agradecer-Lhe de todo coração por­que Ele é meu Redentor.
Arriscando-me a ser monótono, digo novamente: o caráter do mundo é moralmente diferente da vida concedida pelo Espírito que recebemos de Deus. É principal­mente porque possuímos essa nova vida doada por Deus que o mundo nos odeia, pois não tem ódio de sua pró­pria espécie. Essa diferença radical nos deixa realmente sem meios de fazer com que o mundo nos ame. "Se vós fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; todavia, não sois do mundo, pelo contrário dele vos escolhi, por isso o mundo vos odeia".
Quando o mundo vê em nós honestidade e decência naturalmente humanas, ele o aprecia, e está pronto a prestar-nos o devido respeito, e colocar-nos em sua con­fiança. Porém assim que encontra em nós o que não é de nós mesmos, a saber, a natureza divina da qual fomos fei­tos participantes, sua hostilidade é imediatamente des­pertada. Mostre ao mundo os efeitos do cristianismo, e ele aplaudirá; mostre-lhe o cristianismo, e ele se oporá vi­gorosamente. Pois não importa o quanto o mundo evolua, não pode jamais produzir um cristão. Pode imitar a honestidade cristã, a cortesia cristã, a caridade cristã, sim, mas produzir um só cristão é algo que jamais poderá almejar. Uma assim chamada civilização cristã ganha o reconhecimento e respeito do mundo. Ele pode tolerar isso; pode até mesmo assimilar e utilizar isso. Mas a vida cristã – a vida de Cristo no crente cristão, isso ele odeia, e onde quer que a encontre, irá certamente opor-se até a morte.
A civilização cristã é o resultado de uma tentativa de reconciliar o mundo e Cristo. Nas figuras do Velho Testamento, encontramos aquela representada por Moabe e Amom, o fruto indireto do envolvimento e comprometi­mento de Ló com Sodoma; e nem Moabe nem Amom demonstram ser menos hostis a Israel do que eram as na­ções gentílicas. A civilização cristã demonstra que pode misturar-se ao mundo, e até mesmo pode ficar ao lado do mundo em uma crise. Há algo, contudo, que é total­mente separado do mundo e jamais pode misturar-se a ele, e isso é a vida de Cristo. Suas naturezas são mutua­mente antagônicas, e não podem ser reconciliadas. Entre o mais fino espécime da natureza humana que o mundo pode produzir e o crente mais insignificante não há nada em comum, e assim não há termo de comparação. Pois a bondade natural é algo que temos pelo nascimento natu­ral e podemos, por nossos próprios recursos, desen­volver naturalmente; mas a bondade espiritual é, nas palavras de João, "nascida de Deus" (1João 5:4).
Deus estabeleceu no mundo uma Igreja Universal; e aqui e ali Ele colocou muitas igrejas locais. Deus, digo, fez isso. Não seria razoável, portanto, esperar que o Seu modo de libertação do mundo fosse através da separação física dele. Mas como conseqüência muitos cristãos sinceros estão muito perplexos pelo problema da absorção. Se Deus coloca uma igreja local aqui, perguntam eles, irá ela ser um dia reabsorvida pelo mundo?
Isso de fato não representa problema para o Deus vivo. Visto que a sua origem não é deste mundo, não há na família de Deus qualquer concordância com o mun­do e assim nenhuma possibilidade de ser absorvida por ele. Isso naturalmente não se deve a nós, Seus filhos. Não é porque nós desejamos sinceramente ser celestiais que a Igreja é celestial, mas porque somos nascidos do céu. E se, devido à nossa origem celestial, somos absolvidos de tentar ganhar nossa entrada lá, somos também absolvidos desse modo de esforçar-nos para conservar-nos fisicamen­te livres deste mundo.
Como pode o mundo misturar-se com o que é de fora do mundo? Pois tudo o que é do mundo é pó vazio, enquanto tudo o que é de Deus tem a miraculosa quali­dade da vida divina. Alguns de nossos irmãos de Nankin estavam certa ocasião ajudando nos trabalhos de socorro após o bombardeio da cidade por aviões japoneses. Re­pentina-mente, quando estavam diante de uma casa des­truída pensando em como começar houve uma violenta elevação de tijolos e vigas, e um homem surgiu. Sacudin­do a poeira e cascalho de si levantou-se e com esforço fi­cou em pé. As vigas e traves caídas retomaram seus lugares por trás dele, e a poeira assentou novamente, mas ele caminhou vivo para fora! Enquanto há vida, qual é o re­ceio de que haja mistura?
A oração de Jesus a Seu Pai, que João registra no capítulo 17, contém um apelo que é impressionante. Ten­do repetido a afirmação de que "o mundo os odiou, por­que eles não são do mundo, como também eu não sou", Jesus continua: "Não peço que os tires (ek) do mundo; e, sim, que os guardes do (ek) mal" (vs. 14, 15). ­Temos aqui um princípio importante, que ocupará nosso próximo capítulo. Os crentes têm um lugar vital no mundo. Embora salvos do mal e seu sistema, não foram ainda retirados de seu território. Eles têm um papel a ser representado ali, para o qual são indispensáveis. As pessoas religiosas, como vimos, tentam vencer o mundo saindo dele. Como crentes, essa não deve ser de modo nenhum a nossa atitude. Aqui é o lugar onde somos cha­mados a vencer. Tendo sido criados separados do mun­do aceitamos com alegria o fato de que Deus colocou­-nos nele. Essa separação, nosso dom de Deus em Cristo, é toda a defesa de que necessitamos.


6
 CAPÍTULO


LUZES NO MUNDO

Sem receio do desafio Jesus podia dizer: "Eu sou a luz do mundo" (João 8:12). Sua afirmação não nos preenche nem um pouco. O que é surpreendente, contudo, é que Ele disse em seguida a seus discípulos, e assim a nós, por implicação: "Vós sois a luz do mundo" (Mt 5:14). Pois Ele não nos exorta a sermos a luz; Ele simplesmente declara que nós somos a luz do mundo, que levemos a nossa luz para onde os homens possam vê-la, ou a ocultemos deles. A vida divina plantada em nós, que é em si própria tão profundamente estranha ao mundo a seu redor, é uma fonte de luz destinada a mostrar à humanidade o verdadeiro caráter do mundo, enfatizando através do contraste as trevas inerentes a ele. Em concordância a isso, Jesus continua: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o Vosso Pai que está nos céus”. Está claro que separar-nos do mundo hoje, privando-o assim de sua única luz, de nenhum modo glorifica a Deus. Simplesmente contraria Seu propósito em nós e na humanidade.
E certo que, como vimos antes, a carreira de João Batista foi um tanto diferente. Ele de fato retirou-se do mundo para viver austeramente em lugares desertos e iso­lados, sobrevivendo, é-nos contado, de gafanhotos e mel silvestre. Os homens saíram para procurá-lo lá, porque mesmo lá ele era uma luz brilhante e incandescente. Con­tudo somos lembrados de que "ele não era a Luz". Ele veio apenas para testemunhar a respeito dela. Seu teste­munho foi o último e o maior de uma velha ordem profética, mas assim foi porque apontava para Jesus. Somen­te Jesus era "a verdadeira Luz, que vinda ao mundo, ilu­mina todo homem"; e Ele certamente "estava no mundo", não fora dele (João 1:9, 10). O cristianismo pro­vém Dele. Deus pode usar um João clamando no deserto, mas nunca foi Sua intenção que a Igreja fosse um grupo selecionado, vivendo pelo princípio da abstinência. Vimos anteriormente como a abstinência – "Não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquilou­tro" – era simplesmente mais um elemento no sistema mundial, e como tal era suspeita (Cl 2:21). Mas deve­mos ir a um passo, além disso, e uma vez mais o apóstolo Paulo vem em nosso auxílio. Em Rm 14:17, ele mostra como a vida cristã é algo totalmente independente da controvérsia sobre o que fazemos ou o que não fazemos. "Porque o reino de Deus não é comida nem bebida" ­isto é, não é para ser concebido de modo algum nesses ter­mos – "mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo" ­que estão em um campo totalmente diferente. O cristão vive, e é dirigido, não por regras especificando até onde pode misturar-se aos homens, mas por estas qualidades in­teriores que lhe são mediadas pelo Espírito Santo de Deus.
Justiça e paz e alegria no Espírito Santo. É interes­sante que voltemos nossa atenção por um momento para o segundo item. Pois a paz descobrimos, é um poderoso elemento na resposta de Deus à oração de Seu Filho de que Ele iria guardar-nos do mal (João 17:15).
No próprio Deus há uma paz, uma profunda imperturbabilidade de espírito, que o conserva despreocupado e sereno face a indescritível conflito e contradição. "No mundo passais por aflições" diz Jesus, mas "em mim po­deis ter paz" (João 16:33). Como ficamos facilmente perturbados assim que algo sai errado! Mas já fizemos uma pausa para considerar o que saiu errado com o gran­de propósito de Deus, no qual Ele colocara Seu coração? Deus, que é luz, tinha um plano eterno. Fazendo com que a luz brilhasse na escuridão, Ele projetou este mun­do para ser a arena daquele plano. Então Satanás, como sabemos, entrou para contrariar a Deus, de forma que os homens passaram a amar as trevas ao invés da luz. Con­tudo, apesar desse revés, cujas implicações nós pouco compreendemos, Deus preserva em Si uma paz absoluta­mente imutável. É aquela paz de Deus que, conta-nos Paulo, guardará nossos corações e pensamentos em Cristo Jesus (Fl 4:7).
Qual é o significado real de "guardar?” Significa que meu inimigo tem que lutar com a guarda armada nos portões, antes que possa alcançar-me. Antes que eu possa ser tocado, a própria guarda tem que ser derrotada. Assim eu ouso ser tão cheio de paz como Deus, pois a paz que está guardando Deus está guardando a mim. Isto é algo que o mundo desconhece. "Deixo-vos a paz, a mi­nha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo" (João 14:27).
Como o mundo falhou totalmente em entender a Jesus! Tudo o que Ele fez estava errado a seus olhos, pois a luz que havia neles era trevas. Até mesmo ousaram iden­tificar o espírito que estava Nele com Belzebu, o prínci­pe dos demônios. Todavia, quando O acusaram de glutonaria e bebedice, qual foi a Sua resposta? "Graças te dou, ó Pai" (Mt 11:19, 25). Ele não foi abalado, porque em espírito, habitava na paz de Deus.
Ou recordemos aquela última noite antes de Sua morte. Tudo parecia estar saindo errado: um amigo saindo dentro da noite para traí-Lo, outro puxando raivosamen­te da espada, pessoas escondendo-se, ou fugindo despidas, na ânsia de escaparem. No meio de tudo isso, Jesus disse àqueles que haviam vindo para levá-lo: "Sou eu", tão tranqüila e calmamente que ao invés dele ficar nervo­so, foram eles que tremeram e caíram por terra. Esta foi uma experiência que tem se repetido nos mártires de to­das as épocas. Podiam ser torturados ou queimados, mas porque possuíam Sua paz, os espectadores podiam ape­nas maravilhar-se ante sua dignidade e compostura. Por­tanto, não é de surpreender que Paulo descreva essa paz como além do entendimento.
Como é impressionante o contraste que Jesus traça entre "no mundo", onde estamos para ter aflições, e "em mim", onde podemos ter paz. Se Deus nos colocou no primeiro, para sermos pressionados por suas aflições, reivindicações e necessidades, colocou-nos também no Outro, para sermos conservados imperturbáveis no meio de tudo. O próprio Jesus perguntou certa vez "Quem me tocou?" O toque de fé de alguém naquela multidão de Cafarnaum encontrou eco Nele. Foi de encontro a Seu próprio coração compassivo, ao passo que a pressão do resto da multidão sobre Ele não teve tal efeito. Todos os seus empurrões impacientes não o tocaram em absoluto, pois havia pouco em comum entre eles e Ele. "Não vo-la dou como a dá o mundo". Se a nossa vida é a dos homens, somos agitados pelo mundo. Se for a vida do Espíri­to, não é perturbada pelas pressões mundanas.
"Retidão, paz e alegria”: com tais coisas é que o Reino de Deus está relacionado. Portanto, jamais deixe­mo-nos arrastar para longe, para o velho reino do "comer e beber, pois não é nem o uso nem a proibição dessas coisas que nos dizem respeito, mas outro mundo total­mente diverso. Assim, nós que somos do reino não precisamos abster-nos. Nós vencemos o mundo não por aban­donar as coisas do mundo, mas por sermos contrários ao mundo de modo positivo: por possuirmos, isto é, por termos um amor, uma alegria e uma paz que o mundo não pode dar e de que os homens precisam desesperada­mente.
Longe de buscarmos evitar o mundo, precisamos ver como somos privilegiados por termos sido colocados nele por Deus. "Assim como tu me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo". Que afirmação! A igreja é a sucessora de Jesus, um estabelecimento divino colocado aqui bem no meio do território de Satanás. É algo que Satanás não pode tolerar, assim como não podia tolerar o próprio Jesus, e, contudo é algo de que ele não pode livrar-se de modo nenhum. É uma colônia do céu, uma intromissão estranha em seu território, e contra a qual é totalmente impotente. "Filhos de Deus" Paulo nos denomina, "in­culpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo" (Fl 2:15). Deus nos colocou deliberadamente no kosmos para mostrar a sua finalidade. Precisamos expor a luz divi­na, para que todos os homens vejam, sua rebelião contra Deus por um lado e seu vazio por outro lado.
E nossa tarefa não termina aqui. Temos que procla­mar aos homens as boas novas que, se voltarem para elas, àquela luz de Deus na face de Jesus Cristo livrá-los-á do vazio inútil do mundo, para a plenitude que é Dele. É esta dupla missão da Igreja que provoca o ódio de Sata­nás. Não há nada que o aborreça tanto quanto a presen­ça da Igreja no mundo. Nada o agradaria mais do que ver a sua luz reveladora retirada. A Igreja é um espinho na carne do adversário de Deus, uma constante fonte de irritação e aborrecimento para ele. Causamos a Satanás uma montanha de problemas, simplesmente por estar­mos no mundo. Assim sendo, por que deixá-lo?
"E disse-lhes: ide por todo o mundo e pregai o evan­gelho a toda criatura" (Marcos 16:15). Este é o privilégio do cristão. É também o seu dever. Aqueles que tentam sair do mundo somente demonstram que ainda es­tão até certo ponto escravizados a seu modo de pensar. Nós que não somos do mundo não temos razão para ten­tar deixá-lo, pois é onde devemos estar.
Assim, não há necessidade de deixarmos nossos em­pregos seculares. Longe disso, pois eles são nossos cam­pos missionários. Nesse caso não há considerações seculares, somente espirituais. Não vivemos nossas vidas em compartimentos separados, como cristãos na igreja e se­res seculares o resto do tempo. Não há nada em nossa profissão ou emprego que Deus pretenda que seja separado de nossa vida com Seus filhos. Tudo o que fazemos, seja no campo ou rodovia, loja, fábrica, cozinha, hospi­tal ou escola, tem valor espiritual em termos do reino de Cristo. Tudo será reivindicado por Ele. Satanás preferiria não ter crentes em nenhum desses lugares, pois ali eles estão decididamente no seu caminho. Ele tenta, portan­to, amedrontar-nos para fora do mundo, e se não o con­segue, tenta envolver-nos em seu sistema mundial, pen­sando nos seus termos, regulando nosso comportamento pelos seus padrões. Qualquer desses meios seria um triun­fo para ele. Mas o estarmos no mundo, embora com to­das as nossas esperanças, nossos interesses e nossa expec­tativa fora do mundo, essa é a derrota de Satanás e a gló­ria de Deus.
Da presença de Jesus no mundo está escrito que "as trevas não prevaleceram contra ela" (João 1:5). Em nenhum lugar as Escrituras nos dizem que vamos "vencer" o pecado, mas dizem claramente que vamos vencer o mundo. Com relação ao pecado, a palavra de Deus fala apenas em libertação; é com relação ao mundo que ela fala de vitória.
Precisamos de libertação do pecado, porque Deus nunca pretendeu que tivéssemos qualquer contato com ele; mas não precisamos, e nem deveríamos buscar, liber­tação do mundo, pois está no propósito de Deus que entremos em contato com ele. Não somos libertos do mundo, mas, sendo nascidos de cima, temos vitória sobre ele. E temos essa vitória no mesmo sentido, e com a mes­ma infalível certeza, de que a luz venceu as trevas.
"E esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé. Quem é o que vence o mundo senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?" (1João 5:4, 5). A chave para a vitória é sempre o nosso relacionamento pela fé com o Fi­lho vitorioso. "Mas tende bom ânimo", disse Ele, "Eu venci o mundo" (João 16:33). Somente Jesus podia fa­zer tal reivindicação; e Ele podia fazê-la porque antes afirmara: "o príncipe do mundo... e ele nada tem em mim" (João 14:30). Era a primeira vez que alguém na terra dissera tal coisa. Ele o disse, e venceu. E pela sua vitória o príncipe do mundo foi lançado fora, e Jesus co­meçou a atrair os homens a Si.
E porque Ele o disse, nós agora ousamos dizê-lo também. Por causa do meu novo nascimento, porque "tudo o que é nascido de Deus vence o mundo", eu pos­so estar no mesmo mundo em que meu Senhor estava, e no mesmo sentido em que Ele estava eu posso estar to­talmente separado dele, uma lâmpada colocada sobre um suporte, iluminando a todos os que entram na casa. "Pois, segundo Ele é, também nós somos neste mundo" (1João 4:17). A igreja glorifica a Deus, não saindo do mundo, mas irradiando nele a Sua luz. O céu não é o lu­gar para glorificar a Deus; será o lugar para louvá-Lo. O lugar para glorificá-Lo é aqui.

7
 CAPÍTULO

SEPARAÇÃO

Vimos a Igreja como um espinho para Satanás, pro­vocando-lhe agudo desconforto, e reduzindo sua liberda­de de movimentos. Embora no mundo, a Igreja não só recusa-se a ajudar em sua construção, mas também per­siste em pronunciar julgamento sobre ele. Mas se isto é verdade, se a Igreja sempre é uma fonte de irritação para o mundo, então de igual modo o mundo é uma fonte de constante tristeza para a Igreja. E porque o mundo está sempre se desenvolvendo, o seu poder para afligir o povo de Deus está sempre aumentando; de fato, a Igreja tem hoje que enfrentar uma força no mundo, que jamais en­frentou nos primeiros tempos. Então os filhos de Deus encontravam perseguição aberta, na forma de visível assalto físico a suas pessoas (Atos 12; 2Co 11). Esta­vam sempre colidindo com coisas materiais, tangíveis. ­Agora a principal dificuldade que encontram no mundo é mais sutil, uma força intangível por trás de coisas materiais, que não é santa, mas espiritualmente má. O impacto daquela força espiritual hoje é maior do que foi naqueles tempos. E não é somente maior; há um elemen­to presente atualmente que não estava lá outrora.
Em Apocalipse 9, lemos de uma evolução que, para o autor daquele livro, estava num futuro distante. "O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela caída do céu na terra. E foi-lhe dada a chave do poço do abismo. Ele abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e com a fumaceira saí­da do poço escureceu-se o sol e o ar. Também da fuma­ça saíram gafanhotos para a terra; e foi-lhes dado poder como o que tem os escorpiões da terra, e foi-lhes dito que não causassem dano à erva da terra, nem a qualquer coisa verde, nem a árvore alguma, e tão somente aos ho­mens que não tem o selo de Deus sobre as suas frontes." (vs. 1 a 4). Esta é uma linguagem figurativa, mas a es­trela caindo do céu refere-se obviamente a Satanás, e sa­bemos que o poço do abismo é o seu domínio – seu de­pósito, podemos dizer. Assim, parece que o fim dos tem­pos será marcado por uma liberação especial de suas for­ças e os homens defrontar-se-ão com um poder espiri­tual com o qual não tinham se encontrado anteriormen­te.
Certamente isto está de acordo com as condições de nossos dias. Enquanto é certo que o pecado e a violência serão maiores do que nunca no fim desta era, está evi­dente pela Palavra de Deus que não será especificamente com eles que a Igreja terá de lutar então, mas com o ape­lo espiritual de coisas muito mais cotidianas. "Assim co­mo foi nos dias de Noé, será também nos dias do Filho do homem: comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e destruiu a todos. O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, planta­vam e edificavam; mas no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre, e destruiu a todos" (Lc 17:26 a 29). O ponto levantado por Jesus aqui, não é que essas coisas – comida, casamento, comércio, agricul­tura, engenharia – eram características destacadas dos dias de Ló e Noé, mas que caracterizarão de modo espe­cial os últimos dias. "Assim será no dia em que o Filho do homem se manifestar" (vs. 30): esse é o ponto. Pois estas coisas não são inerentemente pecaminosas; são sim­plesmente coisas do mundo. Você alguma vez prestou tanta atenção à boa vida como agora? Comida e vestuá­rio estão atualmente tornando-se o fardo especial dos fi­lhos de Deus. O que iremos comer? O que iremos beber? Com o que nos vestiremos? Para muitos, estes são quase os únicos tópicos de conversação. Há um poder que os força a considerar estes assuntos; a sua própria existência requer sua atenção para eles.
Contudo, a Escritura adverte-nos que "o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça" e assim por diante. Ordena em primeiro lugar que busquemos o reino de Deus e sua justiça, e assegura-nos que quando o faze­mos, todas essas coisas nos serão acrescentadas. Orde­na-nos a estar despreocupados com relação a assuntos de comida e vestuário, pois se Deus cuida das flores do cam­po e dos pássaros, não irá muito mais cuidar de nós, que somos Seus? No entanto, a julgar por nossas ansiedades, parece que eles recebem cuidados, mas não nós!
Agora chegamos ao ponto que necessita de ênfase especial. Esse estado de coisas não é normal. A atenção indevida dada ao comer e beber, quer seja nos extremos de subsistência ou na luxúria, que caracteriza tantos cris­tãos hoje em dia, está longe de ser normal; é sobrenatu­ral. Pois não é só uma questão de comida e bebida que encontramos aqui; o que temos são demônios. Satanás concebeu e agora controla a ordem mundial, e está pre­parado para usar o poder demoníaco através das coisas do mundo, para atrair-nos para o mundo. O presente es­tado de coisas não pode ser considerado separadamente disso. Oh, que os filhos de Deus possam despertar para esse fato. No passado os santos de Deus encontraram toda sorte de dificuldades; contudo, em meio às dificul­dades, podiam olhar para cima e confiar em Deus. Nas pressões de hoje, todavia, estão tão confusos e desnortea­dos que parecem incapazes de confiar Nele. Oh vamos compreender a origem satânica de todas essas pressões e confusão.
O mesmo se aplica com relação aos assuntos matri­moniais. Nunca enfrentamos tantos problemas nessa área como hoje em dia. A confusão se estabelece quando os jovens quebram as velhas tradições, mas não tem novas orientações para substituí-las. Este fato não deve ser considerado de modo natural, mas sobrenatural. Casar-se e dar-se em casamento é sadio e normal em qualquer época, mas hoje há um elemento introduzindo-se nessas coisas, que não é natural.
Assim também ocorre com estabelecer e construir, comprar e vender. Todas essas coisas podem ser perfei­tamente legítimas e benéficas, mas hoje o poder por de­trás delas pressiona os homens, até que eles fiquem des­norteados e percam o controle. A força maligna que dá energia ao sistema mundial precipitou uma condição hoje, na qual vemos dois extremos: um, o extremo da to­tal incapacidade para viver de acordo com sua renda, e o outro, o extremo da extraordinária oportunidade para acumular riquezas. Por um lado, muitos cristãos encon­tram-se em dificuldades econômicas sem precedentes; por outro lado, muitos se deparam com não menos inau­ditas oportunidades para enriquecer. Ambas as condições são anormais.
Entre em qualquer lar de nossos dias, e preste aten­ção à conversa. Você ouvirá observações como estas: "A semana passada comprei isso e aquilo a tal e tal preço, e, portanto economizei tanto". "Felizmente comprei aqui­lo há um ano, pois do contrário, teria perdido mui­to". "Se você quer vender, venda agora, que o mercado está bom". Você notou o modo pelo qual as pessoas es­tão correndo de cá para lá, realizando febrilmente transa­ções comerciais? Os médicos estão estocando farinha, os tecelões estão vendendo papel, homens e mulheres que jamais tocaram tais coisas antes estão abismados pela corrente de especulação. São apanhados em um redemoi­nho de compra e venda que os estão rodopiando louca­mente ao redor. Você não percebe que este estado de coisas não é natural? Não vê que há uma força aqui que está cativando os homens? As pessoas não estão agindo sensatamente; estão fora de si. A folia de comprar e ven­der de hoje não é só uma questão de ganhar um pouco de dinheiro – ou de perdê-lo. É uma questão de entrar em contato com um sistema satânico. Estamos vivendo no fim dos tempos, uma época em que um poder espe­cial foi liberado e está impelindo os homens para fren­te, quer queiram quer não.
Assim, a questão hoje não é tanto de pecaminosida­de, mas de mundanismo. Quem ousaria dizer que você erra por comer ou beber? Quem ousaria desaprovar o ca­sar-se ou dar em casamento? Quem questionaria o seu di­reito de comprar ou vender? Estas coisas não estão erra­das em si mesmas; o erro está na força espiritual atrás delas, pela sua mediação, pressiona-nos implacavelmente. Oh, que possamos acordar para a realidade de que em­bora essas coisas sejam tão simples e comuns, contudo es­tão sendo usadas por Satanás para aprisionar os filhos de Deus na grande rede de sua ordem mundial.
"Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que os vossos corações fiquem sobrecarregados com as conseqüências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo, e para que aquele dia não venha sobre vós repentinamente, como um laço" (Lc 21:34). Note o termo "vida" nas palavras de Jesus. No Novo Testamento grego geralmente são usadas três palavras para significar vida: zoe, vida espiritual; psuche, vida psicológica; e bios, vida biológica. Está última é a palavra usada aqui, aparecendo em sua forma adjetiva, biotikos: "desta vida". O Senhor está nos advertindo para que tomemos cuidado a fim de que não sejamos excessivamente pressionados pelos cuidados desta vida, ou seja, com ansiedades referentes a assuntos bem comuns, tais como alimento e vestuário, os quais pertencem à nossa presente existência sobre a terra. Foi justamente com uma coisa assim simples que Adão e Eva caíram, e será por causa de tais assuntos corriqueiros que alguns cristãos poderão negligenciar a chamada de Deus para o céu. Pois é sempre uma questão de onde está o coração. Somos exortados a não deixar nossos corações serem "sobrecarregados" ou "carregados" com essas coisas, para nosso prejuízo. Isto quer dizer, não devemos carregar um fardo com relação a estes assuntos, que nos abateria. Temos que ser na verdade separados em espírito de nos­sos bens, na casa ou no campo (Lc 17:31).
Pois então, vamos tomar pleno conhecimento de quem somos! Somos a Igreja, a luz do mundo brilhando em meio às trevas. Como tal vamos viver nossas vidas aqui.
Houve um tempo em que a Igreja rejeitou os cami­nhos do mundo. Agora, ela não só os usa, ela abusa deles. Naturalmente, devemos usar o mundo, porque precisa­mos dele; mas não vamos ter necessidade dele, não va­mos desejá-lo. E Jesus continua: "Vigiai, pois, a todo o tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que tem de suceder, e estar (literalmente "ser pos­tos") em pé na presença do Filho do homem". (Lc 21:36). Iria Deus instar-nos a vigiar e orar, se não houvesse uma força espiritual contra a qual devemos guardar-nos?
Não ousamos tomar nosso destino como fato lógico, mas devemos estar constantemente alertas para que estejamos verdadeiramente desligados em espírito dos elementos deste mundo. Há coisas que são do mundo e que são essenciais à nossa própria existência. Estar preocupados com elas é legítimo, mas estarmos oprimidos por elas é ilegítimo, e poderá causar a perda do melhor que Deus tem para nós.
O livro de Apocalipse sugere que Satanás estabelecerá seu reino do anticristo no mundo político (Ap 13), religioso (Ap 17) e comercial (Ap 18). Sobre esta base tríplice de política, religião e comércio, seu reino encontrará sua última expressão violenta. Nos dois últimos ca­pítulos mencionados, esse reino surge sob a figura da Ba­bilônia, o instrumento especial de Satanás, Babilônia pa­rece representar o cristianismo corrupto – Roma talvez, porém maior e mais insidiosa do que Babilônia – e é por causa do seu comércio que ela é julgada. Todo o registro do capítulo 18 gira em torno de mercadores e mercado­ria. Aqueles que lamentam a queda da grande cidade, do rei ao timoneiro do navio, todos deploram a idéia de que o seu florescente comércio cessou repentinamente. Evi­dentemente não é nem a religião, nem a política que fa­zem com que o espírito da Babilônia floresça novamen­te, mas o comércio, e isso é lamentado em sua queda. Não ousamos afirmar enfaticamente que o simples comércio está errado, mas afirmamos com base na própria Palavra de Deus que o seu princípio está ligado a Satanás (Ez 28) e o seu fim à Babilônia (Ap 18). E a isto acrescentamos, por dura experiência própria, que o comércio é o campo em que mais do que em qualquer outro, "a corrupção está no mundo através da concupis­cência" persegue incansavelmente até mesmo o cristão de princípios mais elevados e distanciando da graça de Deus, facilmente o surpreenderá para sua ruína.
Será que nós somos sensíveis à Babilônia? Os merca­dores choraram, mas os céus gritaram "Aleluia" (19:1). Nestes versículos (1 a 6) estão os únicos Aleluias registra­dos no Novo Testamento. Acaso fazemos eco a eles?
Pois estamos em um campo perigoso quando entra­mos em contato com o comércio. Se devido à nossa profissão empenhamo-nos no comércio simples, e se o faze­mos com temor e tremor, podemos com o auxílio de Deus escapar à cilada do diabo. Mas se estivermos dema­siadamente confiantes, então não há esperança de esca­parmos do inescrupuloso egoísmo que tal comércio pro­duz. Dessa forma, o problema que se nos apresenta hoje não é como abster-se de comprar e vender, comer e be­ber, casar e dar em casamento; o problema agora é evitar o poder que está por trás dessas coisas, pois não nos arriscamos a deixar que esse poder triunfe sobre nós.
Qual é, então, o segredo de conservarmos nossas coisas materiais dentro da vontade de Deus? Certamente conservá-las para Deus, isto é, saber que não estamos ar­mazenando valores inúteis, ou acumulando vastos depó­sitos bancários, mas economizando tesouros para Sua conta. Eu e você devemos estar perfeitamente desejosos de apartar-nos de qualquer coisa a qualquer momento. Não importa se deixo dois mil reais ou simplesmente dois reais. O que importa é se eu posso deixar o que quer que possua, sem qualquer pesar.
Não estou com isto sugerindo que devemos tentar dispor de todas as coisas; não é esse o ponto. O ponto é que, como filhos de Deus, você e eu não podemos acu­mular coisas para nós mesmos. Se conservo alguma coisa, é porque Deus falou ao meu coração; se me separo dela, é pela mesma razão. Conservo-me dentro da vontade de Deus, e não tenho receio de dar, se Deus assim o pedir. Não é porque a ame que conservo alguma coisa, e a deixo sem pesar quando vem o chamado para deixá-la para trás. Isto é o que significa ser desprendido, livre, separado para Deus.
  

8
 CAPÍTULO


O REFRIGÉRIO MÚTUO

No evangelho de João está registrado um aconteci­mento que somente ele preservou para nós. É um aconte­cimento cheio de significado divino, e que ajuda muito a nos esclarecer este problema de viver no mundo. Refiro-­me ao incidente do capítulo 13, no qual nosso Senhor Jesus cinge-se com uma toalha, e tomando de uma bacia, lava os pés de Seus discípulos. Esse feito de Jesus tem li­ções para nos ensinar, as quais não me proponho a anali­sar totalmente aqui. Ao invés disso, desejo que contem­plemos particularmente o Seu mandamento que acompa­nha o feito. "Ora, se eu, sendo o Senhor e Mestre, vos la­vei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também... Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes" (vs. 14-17). O que é esse mútuo lavar de pés? O que significa o fato de que devo lavar os pés de meu irmão e que meus pés devem ser lavados por ele?
O aspecto da verdade especialmente enfatizado aqui é o refrigério. Como veremos em breve, significa muito para o Senhor que nós, como Seus filhos, aprendamos a ministrar refrigério a nossos irmãos, e que eles por sua vez sejam um meio de refrigério para nossos espíritos.
Digo de imediato que esta passagem não se refere a pecados. Quer eu ande descalço, ou com sandálias, ou até mesmo de sapatos, a poeira que se acumula em meus pés é algo inevitável. Não posso esquivar-me a ela. Mas se eu cair, e caindo rolar na poeira de modo que esta grude em minha roupa e corpo, isso não é inevitável; é inteira­mente errado! Tenho de caminhar de um lugar para o outro, mas é totalmente desnecessário que eu role pela rua para chegar lá. Posso fazê-lo sem chafurdar na lama!
Igualmente na vida cristã, tropeçar e cair e então chafurdar na poeira é pecado, sem dúvida requer arre­pendimento, e necessita do perdão de Deus. Pois não é necessário que eu caminhe com o Senhor desse modo, es­condendo-me atrás da desculpa de que "preciso cair de vez em quando; é inevitável" isso, todos nós concorda­mos, está errado.
Mas o ponto principal quanto à poeira em nossos pés é que, caminhando pelo mundo, não importando quem somos ou quão cuidadosos possamos ser, é inevitá­vel que nossos pés recolham alguma coisa. Naturalmente, se não tocamos a terra certamente não pegamos poeira, mas para conseguir isso, teríamos de ser carregados. Se tocamos o solo e quem, sinceramente, espera não faze-­lo? – é certo que o que lá está se apegará a nós. Até mesmo o nosso Senhor Jesus censurou seu anfitrião com as palavras: "Não me deste água para os pés" (Lc 7:44). Assim sendo, por favor, lembrem-se de que o refrigério mútuo de João 13 não está relacionado com pecados co­metidos, para os quais há sempre perdão através do San­gue, mas dos quais, Deus, de qualquer forma tenciona que sejamos libertos. Não, antes está relacionado ao nos­so caminhar diário pelo mundo, durante o qual é inevitá­vel que algo se apegue a nós. "Vós estais limpos", diz Je­sus. O precioso Sangue providencia isso. "Quem já se banhou não necessita..." e no que diz respeito ao pecado, a sentença poderia terminar aqui. Mas nos movimentamos no reino de Satanás, e algo com certeza se apegará a nós. Tal como uma película fica entre nós e o nosso Senhor. Não pode ser evitado, simplesmente porque estamos to­cando as coisas do mundo todo o tempo, seu comércio e prazeres, sua escala de valores corrupta e toda a sua aparência pecaminosa. Essa é a razão das palavras com que Jesus conclui: “... de lavar senão os pés".
Vamos agora ao resultado prático de tudo isso. Alguns de vocês, irmãos e irmãs em Cristo tem que sair pa­ra trabalhar em escritórios ou lojas, por digamos, sete ou oito horas diárias. Não está errado que o façam. Não é pecado trabalhar em uma loja ou fábrica. Mas quando você volta de seu emprego para casa, não se sente cansa­do, desanimado e desafinado com as coisas? Você encon­tra um irmão, mas não pode passar fácil e diretamente a conversa com ele sobre coisas divinas. É como se houves­se uma capa ou algo contaminando. Repito: não é ne­cessariamente pecado; é só que o seu contato com o mundo depositou sobre você aquela película de sujeira. Você não pode deixar de senti-la, pois parece haver uma incapacidade de elevar-se de imediato até o Senhor. O contato luminoso que você teve pela manhã com Ele pa­rece ter escurecido; seu frescor desapareceu de você. Todos nós conhecemos essa experiência.
Ou, por outro lado, algumas de nossas irmãs têm que atender aos deveres domésticos. Vamos supor que uma jovem mãe está preparando o jantar, e tem algo co­zinhando no fogão. Ao mesmo tempo, o bebê chora, a campainha da porta toca, e o leite ferve – tudo desaba sobre ela a um só tempo. Ela corre para atender um, e falha para com o outro! Finalmente, depois que tudo está ajeitado, ela senta-se, e parece como se precisasse de uma força para elevá-la novamente à presença de Deus. Ela está consciente de que há algo ali – não pecado, mas como se houvesse um depósito de poeira sobre todas as coisas. Adere como uma película, ficando entre ela e o Senhor, e ela sente-se suja, manchada. Não há aquele caminho claro que a conduz a Deus de imediato. Isto penso eu, nos ilustra a necessidade do lavar dos pés.
Muitas vezes estamos cansados e fatigados por nos­sos deveres seculares. Quando nos ajoelhamos para orar, descobrimos que temos que esperar por algum tempo. Parece que levamos dez ou vinte minutos para voltar àquele lugar onde podemos realmente chegar à presença de Deus. Ou, se nos sentamos para ler a Palavra, descobrimos que é preciso um esforço determinado para res­taurar novamente aquela receptividade do Seu falar. Mas como é bom quando no caminho para casa, encontramos um irmão com um coração transbordante, saído recente­mente da comunhão com Deus! Sem qualquer intenção, ele apenas aperta nossa mão espontaneamente e diz, "Ir­mão, louvado seja o Senhor!" Ele pode não saber, mas é como se tivesse chegado com um espanador, e limpado tudo. Imediatamente sentimos que nosso contato com Deus foi restaurado.
Às vezes, você pode chegar a uma reunião de oração com o espírito pesado, por causa do efeito de seu trabalho durante o dia. Alguém ora, e você ainda se sente da mesma maneira; e outra pessoa ora, e não há diferença. Mas então outro irmão ou irmã ora, e de algum mo­do você imediatamente sente um poder que eleva. Você está refrigerado; seus pés foram lavados. O que, então, significa a lavagem? Significa restaurar o frescor original. Significa trazer as coisas de volta a um ponto de tal clare­za, que é uma vez mais como se viessem da imediata pre­sença de Deus, saídas recentemente de Suas mãos.
Não sei quantas vezes eu pessoalmente senti-me oprimido dessa forma, quando o problema não era exa­tamente o pecado, mas a consciência de uma camada de poeira do mundo; e então encontrei um irmão e irmã, al­guém que podia não saber nada de minha condição, mas que fez uma observação que clareou tudo. Quando isto acontece, você simplesmente sente que toda escuridão se foi, a película foi retirada. Louvado seja Deus, você está revigorado, e de volta imediatamente à condição na qual pode diretamente gozar comunhão com Ele novamente. Isso é o lavar dos pés – dar refrigério a meus irmãos em Cristo; trazê-lo novamente ao lugar de onde ele tenha saído há pouco da própria presença de Deus. É este ministério de um para o outro que o Senhor dese­ja ver entre Seus filhos.
Se estamos andando com Deus, não há um só dia em que possamos, se assim desejarmos, ser refrigério para nossos irmãos. Este é um dos maiores ministérios. Pode não ser mais do que um aperto de mãos. Pode ser uma palavra de encorajamento dita como que casualmente. Pode ser só a luz dos céus em nossa face. Mas se estamos dentro da vontade de Deus, e estamos em condições em que não haja nuvens entre nós e Ele, descobriremos que estamos sendo mansamente usados. Pode ser que não o saibamos, pois é melhor não procurar sabê-lo – na ver­dade pode ser melhor nunca saber. Mas quer o saibamos quer não, estamos constantemente sendo usados para refrigério de nosso irmão. Quando ele está abatido e nas trevas, quando tem um peso no coração ou uma película diante dos olhos, quando está sujo e manchado, então ele virá a nós. Pode ser que não fique por muito tempo, talvez só por alguns minutos. Procure por esse ministério. Descubra a graça de Deus para ajudar seu irmão. Freqüentemente pensamos que seria bom se pudéssemos pregar longos sermões que tenham grande audiência, mas poucos têm esse dom, e muitos não são alcançados por aqueles poucos que o tem. Refrigerar o coração dos san­tos é o tipo de ministério que todos podem preencher e que pode alcançar todos os lugares. Na avaliação de Deus, não tem preço.
Mas para servirmos a outros desse modo, precisamos preencher as condições. Se estivermos realmente andando com Deus, naturalmente não há dúvida de que seremos usados, pois com Ele não há limitações. Se estivermos limpos, com os corações transbordantes com Sua alegria e paz, haverá com certeza um derramamento. Assim sen­do, a questão simples que lhes apresento é: existe algum ponto de controvérsia entre você e Deus? Refiro-me, é claro, a questões reais e conhecidas. Se não há nada espe­cial, então não há necessidade de procurar para descobrir algo; o próprio Senhor sempre o descobrirá. Quando Ele quer trazer à luz algo que você está negligenciando, sempre colocará Seu dedo ali, e você saberá. Não há necessi­dade de voltar-se para dentro de si, e através da verifica­ção e análise de cada sentimento, tentar escavar a controvérsia. Apenas louve a Deus! É o Senhor e não você quem deve brilhar em seu coração e mostrar quando vo­cê está afastado Dele.
Mas uma coisa é certa, se você tiver uma controvérsia com Deus, só poderá contaminar aos outros. Jamais poderá lavar os seus pés. Quando estiverem abatidos, vo­cê os abaterá ainda mais. Quando se sentirem oprimidos, você fará com que se sintam ainda mais oprimidos. Ao invés de refrigerá-los e restaurá-los às coisas novas que vêm de Deus, você só poderá lançá-los em trevas mais profundas. Estar em disputa com Deus é o caminho cer­to para ser um dreno na vida de Sua Igreja, enquanto que a maior manifestação de poder é, creio eu, ser constante­mente capaz de renovar outros. É algo inestimável, aque­le toque dos céus que eleva, limpa, renova.
"Também vós deveis lavar os pés uns dos outros". De todos os mandamentos dados aos Seus discípulos este é – e uso a expressão em seu sentido real – o mais dramático. Para imprimir neles a sua importância, Ele pró­prio o realizou diante deles. Foi uma expressão do Seu amor pelos "seus que estavam no mundo" (vs. 1). Ele próprio se colocou no lugar de servo, para mostrar a Seus discípulos o que entendia por ministério. Não é trabalho de palco. É servir uns aos outros com uma bacia e uma toalha. Sempre haverá necessidade de restaurar pessoas que caíram, ou trazer de volta ao arrependimento os fracos que pecaram; mas a maior necessidade dos santos ho­je em dia é de refrigério, e quero dizer com isso, chamá-los de novo ao que é original e de Deus. Isso é poder. O próprio Jesus "viera de Deus" (vs. 3) para fazer isso. Não sei como esse fato afeta você, mas penso que não há maior poder para Deus do que estar recém-saído de Sua presença, perante o mundo. Você não acha que esta é a maior manifestação do poder da vida divina? Num siste­ma mundial obscurecido com a fumaça do abismo como nos regozijamos por encontrar santos que estão recém-chegados do ar limpo dos céus. Tal frescor traz de novo a você e a mim o sopro divino da vida.
Agradeço a Deus porque em minha juventude eu tive o privilégio de conhecer um dos mais extraordinários dos santos. Conheci-a por muitos anos, e descobri que ela tinha muitas qualidades espirituais; mas creio que a que me impressionou mais foi a sensação da presença de Deus que ela transmitia. Você não podia ficar algum tempo em sua presença, ou até mesmo entrar em seu quarto e apertar sua mão, sem sentir uma sensação da presença de Deus vindo sobre você. Não sabia explicar, mas você a sentia. Eu não fui o único a sentir isso. Todos os que tiveram contato com ela deram o mesmo testemu­nho. Tenho que confessar que naqueles dias muitas vezes sentia-me desanimado, e parecia como se tudo saísse errado. Entrava em seu quarto, e imediatamente sentia-­me repreendido. Sentia prontamente que estava face a face com Deus, estava refrigerado.
Porque aconteceria isso, essa imediata restauração? Certamente não é por ser o ministério de alguns poucos privilegiados. O Senhor gostaria que cada um de nós fosse assim, comunicasse aquele poder para iluminar nossos irmãos e irmãs quando estivessem contaminados. Por favor, lembrem-se – atrevo-me a dizer isso? – que às vezes o fato de estar contaminado faz mais para prejudicar o impacto da vida cristã sobre o mundo do que os seus pecados reais e conscientes. De vez em quando nós pecamos, qualquer um de nós, mas porque somos sensíveis a isso, sabemos de imediato que o fizemos, e assim buscaremos e encontra-remos perdão. Mas muitas vezes so­mos manchados durante horas com a contaminação do mundo, e porque não é pecado real, permanecemos des­preocupados. É então que o impacto que exercemos a favor de Deus sobre o mundo torna-se embotado. Como é bom, em tais circunstâncias, ter por perto um irmão ou irmã através de quem somos elevados novamente a uma renovada comunhão com Deus!
Quais, então, são as regras? São duas. Primeira, como vimos, não deve existir nenhuma discórdia conhecida entre mim e meu Senhor, que não seja de imediato esclarecida; pois se existir, isso de fato coloca-me totalmente fora desse ministério. Qualquer que seja o assunto deve ser acertado imediatamente, ou fico inutilizado. Longe de ser um recurso para a Igreja de Deus, tornar-me-ei apenas um fardo. Não posso contribuir; posso apenas adicionar à coluna de débito da vida de Seus filhos. Para ser um contribuinte, precisa haver uma transparente cla­reza entre mim e Deus em cada questão consciente. En­tão, livre de tal desarmonia, eu também posso ser o meio de elevar meus irmãos de volta a seu lugar de poder con­tra o mundo.
Em segundo lugar – e para evitar mal-entendidos, is­to precisa ser francamente declarado: lembre-se de que este refrigério é mútuo. "Lavar os pés uns dos outros", disse Jesus. O que refrigera deve esperar ser também refrigerado pelos outros. Muitas vezes o Senhor po­derá usá-lo, mas igualmente, muitas vezes Ele poderá usar alguém para refrigerá-lo. Não existem alguns poucos escolhidos separados para uma tarefa espiritual como "renovadores", assim como nenhum de nós está absolvi­do de caminhar pelo mundo e, portanto necessitar de re­novação. Como Pedro, nenhum de nós pode dizer de si próprio: "Já passei por esse estágio. Estou agora com tal comunhão com Deus, que estou acima de contaminação, e posso orar ou pregar sem a necessidade de tal ministé­rio. Tu jamais lavará meus pés!”
Não existe na Igreja uma classe superior de irmãos que não tem necessidade de refrigério. É algo de que ca­da servo de Deus depende. Trabalhando em uma oficina ou em uma cozinha o dia todo, você bem precisa ser renovado; mas alguns de nós trabalhamos o dia todo em igre­jas, e nós também precisamos ser renovados! Nossa necessidade de renovação é com freqüência da mesma in­tensidade, embora possamos bem ser iludidos a negligen­ciar esse fato. Quer trabalhemos em qualquer esfera obviamente secular, ou estejamos empenhados em coisas assim chamadas espirituais, o mundo está ao nosso redor, envolvendo-nos. Portanto, de quando em quando preci­samos de auxílio de algum irmão ou irmã para elevar-nos de novo àquele recente contato com Deus, aquela reno­vação de poder divino.
Assim, o princípio do Corpo é simplesmente, refri­gerar e ser refrigerado. Quanto mais nós caminhamos com o Senhor, mais necessitamos dos irmãos. Pois neste ministério, nenhum de nós é insignificante, e nenhum de nós alcança o estágio onde não tem necessidade de ser ministrado por outro. Minha oração por mim mesmo é que Deus possa de vez em quando me usar para refrigerar o espírito de alguém quando estiver cansado, e que da mesma forma Ele possa de quando em quando usar al­guém para tocar meu espírito abatido e refrigerar-me. Se através daquele irmão, a contaminação do mundo for tirada de mim, de modo que chegando cansado eu saia renovado, então o ministério desse irmão foi um ministério de Cristo para mim.
O que procurei descrever em termos simples, forma uma frente unida contra o mundo. Isto não é algo sem importância. Se crermos o suficiente para praticar, possui, estou certo, poder para fazer as mais poderosas for­talezas de Satanás tremerem. Nas palavras de Jesus: "Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticar­des”.



9
 CAPÍTULO

  MINHAS LEIS EM SEUS CORAÇÕES


Nos capítulos anteriores, estivemos pintando um quadro deste mundo, não só como local, nem como uma raça de pessoas, nem na verdade como algo meramente material, mas antes como um sistema espiritual, em cuja direção está o inimigo de Deus. "O mundo" é a obra-pri­ma de Satanás, e o encaramos como aquele que está em­pregando toda sua força e engenhosidade para fazê-lo prosperar. Com que finalidade? Certamente para conse­guir a submissão dos homens e arrastá-los para si. Ele tem um objetivo: estabelecer seu próprio domínio nos corações humanos em todo o mundo. Mesmo que ele es­teja consciente de que esse domínio pode durar somente por um breve período, é, sem dúvida, seu objetivo. E co­mo o fim dos tempos aproxima-se e os seus esforços au­mentam, da mesma forma as aflições do povo de Deus intensificam-se. Pois como estrangeiros e peregrinos, sua posição estando no mundo, e, contudo não pertencendo a ele, não é confortável. Eles de bom grado buscariam alívio para a tensão espiritual na distância física. Como seria bom escapar completamente deste mundo e estar para sempre com o Senhor!
Mas evidentemente essa não é a Sua vontade. Como vimos, Ele orou ao Pai não para que tirasse os Seus do mundo, mas para que os guardasse do mal no mundo. E Paulo adota uma posição semelhante. Tendo em uma ocasião específica exortado aos crentes coríntios a não terem comunhão com uma certa classe de pecadores, ele de imediato toma providências contra possíveis mal-entendidos. Não devem isolar-se. Não devem cortar rela­ções com todos os pecadores do mundo, nem mesmo com aqueles da categoria descrita, pois fazê-lo implicaria em que saíssem completamente do mundo. "Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros; refi­ro-me com isto não propriamente (isto é, não em todos os sentidos) aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois nesse caso teríeis de sair do mundo” (1Co 5:9, 10).
Portanto, está claro pelas palavras de Paulo que nós podemos e realmente devemos, associar-nos com o mun­do até certo ponto, pois não é o mundo que Deus tanto amou? Mas aqui entra a pergunta: até que ponto? Até que distância podemos ir? Todos nós concordamos que em alguns casos somos obrigados a tocar as coisas do mundo. Mas presumivelmente há um limite em algum lu­gar. Conservemo-nos dentro desse limite, e estaremos seguros; ultrapassemos, e nos arriscarmos a ficar compro­metidos com Satanás.
Não creio que possamos estar exagerando o proble­ma, pois é grave, e os perigos são reais. Se acontecesse de você estar gravemente enfermo e com muitas dores, e o médico receitasse heroína ou morfina, você de imediato estaria cônscio quanto ao perigo de ficar viciado na dro­ga. Você obedeceria ao médico e faria o tratamento, mas o faria com temor e oração, pois sabe que há um poder nele, e sabe que pode ser dominado por ele. Seria assim, especialmente se o tratamento tivesse que ser prolongado.
Cada vez que você e eu tocamos o mundo, através das coisas do mundo – e precisamos fazê-lo constante­mente, deveríamos sentir-nos do modo como nos sentirí­amos com relação a tomar morfina, pois há demônios por trás de tudo o que pertence ao mundo. Assim como, se estiver seriamente doente, posso ter que tomar ópio como remédio, da mesma forma, porque eu ainda estou no mundo, tenho que negociar com ele, exercer algum ofício ou profissão, ganhar meu sustento. Mas até que ponto posso, com segurança, tomar drogas perigosas como remédio, sem tornar-me vítima do vício, eu não sei; e quantas coisas posso comprar, quanto dinheiro posso ganhar, ou a que ponto podem chegar meus negó­cios e associações profissionais, sem ficar preso, eu tam­bém não sei. Tudo o que sei é que há um poder satânico atrás de cada coisa mundana. Como é vital, portanto, que cada cristão tenha uma revelação clara do espírito do mundo, a fim de poder avaliar como é real o perigo ao qual está continuamente exposto!
Talvez você não pense que estou indo longe demais. Talvez você diga: oh, sim, essa pode ser uma boa ilustração para uma mensagem, mas acho difícil não sentir que você está exagerando o caso. Mas quando tiver conhecimento, então dirá com relação ao mundo, como diz do ópio, que há um poder sinistro por trás dele, um poder desti­nado a seduzir e cativar os homens. Aqueles cujos olhos foram realmente abertos para o caráter real deste mun­do, descobrem que devem tocar tudo nele com temor e tremor, olhando continuamente para o Senhor. Sabem que a qualquer momento podem ser apanhados nas redes de Satanás. Assim como a droga que, em primeiro lugar, é recebida para aliviar a doença, pode no final tornar-se uma causa de doença, igualmente as coisas do mundo que podemos legitimamente usar sob a autoridade do Senhor, podem, se formos negligentes, transformarem-se na causa de nossa queda. Somente os tolos podem ser descuidados em tais circunstâncias.
Não é de admirar que olhemos com inveja para João Batista! Como seria fácil, pensamos, se como ele pudés­semos simplesmente retirar-nos para um lugar seguro se­parado! Mas não somos como ele. Nosso Senhor enviou-nos para o mundo em Suas próprias pegadas, "comendo e bebendo". Desde que Deus amou desse modo, o Seu mandamento para nós é ir "por todo o mundo" e procla­mar Suas boas novas; e certamente esse "todo" inclui o indivíduo com o qual nós nos encontramos diariamente!
Assim, encontramos aqui um problema sério. Como dissemos, presumivelmente deve haver um limite. Pos­sivelmente Deus traçou em algum lugar uma linha de demarcação. Se ficarmos dentro dos limites dessa linha, estaremos seguros; se a cruzarmos, grave perigo nos ame­aça. Mas, onde fica essa linha? Temos que comer e beber, casar e criar filhos, comerciar e trabalhar. Como fazer isso e, contudo permanecer incontaminados? Como mis­turar-nos livremente aos homens e mulheres os quais Deus tanto amou a ponto de dar Seu Filho por eles, e ainda conservar-nos sem manchas do mundo?
Se nosso Senhor tivesse limitado nosso comprar e vender a uma certa quantia mensal, como seria simples! As regras seriam claras, para qualquer um seguir. Todos os que gastassem mais do que uma certa quantia por mês seriam cristãos mundanos, e todos os que gastassem me­nos não seriam apegados às coisas do mundo.
Mas desde que o Senhor não estipulou números, somos incessantemente lançados sobre Ele. Para que? Creio que a resposta é maravilhosa. Para não sermos presos por regras, mas para que possamos permanecer todo o tempo dentro de limites de outro tipo: os limites da Sua vida. Se nosso Senhor tivesse nos dado um conjunto de regras e regulamentos para observar, então deveríamos tomar muito cuidado para permanecermos nelas. Contudo, na verdade nossa tarefa é algo muito mais simples e direto, isto é, permanecermos no próprio Senhor. Então podemos guardar a lei. Assim sendo, precisamos somente conservar a comunhão com Ele. E a alegria está em que, desde que estejamos bem próximos a Deus, o Seu Espírito Santo em nossos corações sempre nos dirá quando alcançarmos o limite!
Falamos anteriormente do reino do anticristo, a ser revelado em breve. João, em sua epístola, escrevendo aos seus "filhinhos" sobre o mundo e as coisas do mundo (1 João 2:15), prossegue advertindo-os: "E, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos anticristos têm surgido" (vs. 18). Face  disto, e ao ainda mais insi­dioso "espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e presentemente já está no mundo" (4:3), o que devem eles fazer? Como irão eles em sua simplicidade discernir o que é verdadeiro e o que é falso? Como poderão saber qual é o solo que é traiçoeiro para caminhar e qual é seguro?
A resposta que João lhes dá é tão simples, que hoje temos medo de acreditar nela. "E vós possuis a unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento... A unção que Dele recebestes permanece em vós, e não tendes ne­cessidade de que alguém vos ensine; mas como a sua un­ção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei Nele, como também ela vos en­sinou" (2:20, 27). Esta é certamente uma alusão ao Es­pírito da verdade, que, Jesus prometeu aos seus discípu­los, iria convencer o mundo e guiá-los em toda a verdade (João 16:8, 13).
Em qualquer ocasião que se apresente, deve haver li­mites seguros conhecidos por Deus, além dos quais de­veríamos passar. Não estão marcados no chão para que os vejamos, mas uma coisa é certa: Aquele que é o Con­solador certamente os conhecerá, mesmo se talvez Sata­nás os conheça também. Não podemos confiar Nele? Se em alguns pontos estamos prestes a ultrapassá-los, não podemos depender Dele imediatamente, para fazer-nos interiormente cônscios do fato?
Em 1Co 7, o apóstolo Paulo oferece-nos orienta­ção adicional sobre o mesmo tema. "Isto, porém, vos di­go, irmãos: o tempo se abrevia; o que resta é que não só os casados sejam como se não o fossem; mas também os que choram, como se não chorassem; e os que se alegram, como se não se alegrassem; e os que compram, como se nada possuíssem; e os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem; porque a aparência deste mundo passa. O que realmente eu quero é que estejais livres de preocupações”. (vs. 29 a 32). Aqui diversos assuntos são mencionados um após o outro, mas o fator dominan­te em todos eles é claramente o fato de que "O tempo se abrevia" ou, segundo alguns tradutores, "está limitado". Estamos vivendo, diz o apóstolo, em dias de pressão pe­culiar, e o princípio que deve guiar-nos em tais dias é: "aqueles que têm... sejam como se não tivessem".
Será que Paulo, pensamos, está se contradizendo? Em Efésios 5, ele ordena que os maridos amem suas es­posas com amor tão perfeito quanto aquele com que Cristo amou a Igreja – não menos. E, contudo, aqui ele lhes diz para viverem como se não tivessem esposas! Será que ele exclamamos com espanto, espera hones­tamente que reconciliemos a um só tempo opostos tão completos?
Aqui devemos dizer de imediato que ninguém, a não ser os cristãos, pode viver uma vida tão paradoxal. Talvez a expressão "como se não tivessem" nos dê um indício. Revela que o assunto é interior, uma questão de lealda­de de coração. Em Cristo há uma libertação interior para Deus, não meramente uma mudança de conduta externa. Eles têm, e tendo, regozijam-se em Efésios 5; mas não são presos pelo que possuem, de forma que não tendo, igualmente regozijam-se em 1Co 7. Não obstante tudo o que tem são tão verdadeiramente libertos em espírito da possessão do mundo, que podem viver como "se não tivessem".
O homem natural vive num ou noutro extremo – ou tendo, e sendo inteiramente absorvido pelo que tem, ou, se é religioso, colocando de lado o que tem, de modo que não mais o possui, e assim não se preocupando mais com isso. Mas o modo cristão é completamente diferente do modo natural. O modo cristão para resolver o proble­ma não é tirar o objeto, mas sim livrar o coração do seu domínio. A esposa não é retirada, nem a afeição pela es­posa, mas ambos, marido e esposa, são libertos do domí­nio vão daquele afeto. Assim, também, o problema que causava lágrimas não é removido, mas a vida não é mais controlada por ele. O motivo de alegria ainda permane­ce, mas há um controle interior contra o abandono inútil aquilo que a provoca. O comprar e vender continuam como antes, mas uma libertação interior liberou o domí­nio pessoal sobre eles. Nós os temos a todos, mas os te­mos como "se não tivéssemos".
Falamos às vezes sobre o nosso desejo de manter, como João, o testemunho de Jesus sobre a terra. Lembremo-nos que esse testemunho é baseado não no que nós podemos dizer sobre isto ou aquilo, mas no que Sa­tanás pode dizer a nosso respeito. Deus nos colocou no mundo, e muitas vezes localiza-nos em alguns lugares es­pecialmente difíceis, onde somos tentados a sentir que os mundanos têm muito mais facilidades do que os cris­tãos. Isso é porque os cristãos são realmente forasteiros, vivendo aqui em um elemento que não é naturalmente o seu. Um mergulhador pode aprofundar-se no mar, mas sem roupas especiais e um tubo de ar da atmosfera que é sua, ele não pode permanecer lá. A pressão é muito gran­de e ele precisa respirar o ar do mundo ao qual pertence. Fica lá no fundo até que haja tarefas a cumprir, e desde que lhe seja suprido poder para vencer o elemento ao seu redor, mas não pertence ao elemento, e este não tem parte nele.
Assim, o problema de nosso contato com o mundo não é resolvido por qualquer mudança de atitude externa. Alguns pensam que estes dias em que estamos vivendo, é um sinal de espiritualidade, é tolice. O que fazemos com a provisão que acumulamos é uma questão que iremos considerar em nosso capítulo final, mas a Palavra de Deus deixa claro que temos que usar o mun­do. Temos que comer e beber, negociar mercadorias e cultivar plantações, alegrar-nos, sim, e se necessário cho­rar, e contudo não usarmos quaisquer destas coisas in­teiramente. Tomamos conhecimento do que está em jo­go em todo o nosso relacionamento com o mundo. Por­tanto não é de admirar que também tenhamos aprendido a comerciar cautelosamente, sempre atentos à gentil repressão do Consolador.
Jesus veio "de cima". Ele podia clamar sem receio de ser desafiado: "aí vem o príncipe do mundo; e ele nada tem em mim". A linha de demarcação estava traça­da, não sobre o solo a Seus pés, mas em Seu coração. Mas é tão verdadeiro quanto isso o fato de que tudo nes­te mundo que é “de cima" está tão seguro quanto Ele. Deus está do outro lado do tubo de ar, fazendo funcio­nar as bombas, podemos dizer. Uma vida que é de cima está sendo sustentada e provida aqui em baixo por Ele. Assim é que se algo é espiritual e "de Deus", não preci­samos preocupar-nos nem lutar por sua preservação. "Meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim". Eles não têm necessidade de fazê-lo.
Deus não se preocupa conosco, simplesmente por­que Ele não tem ansiedade quanto ao Seu Espírito San­to. Há um sentido em que a vida espiritual de má qualidade é impossível, porque a vida espiritual é a vida de Deus; e da mesma forma é verdade que a vida espiritual só pode ser subjugada se o próprio Deus puder ser subjugado. Deus não discute quanto a esse fato. Ele contenta-se em deixar que o Confortador o torne real em nós. "Filhinhos, vós sois de Deus, e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo” (1João 4:4).
Novamente, o mesmo versículo que nos diz que o mundo todo jaz no regaço do maligno – sim, o mesmo versículo – assegura-nos uma vez mais que "somos de Deus" (1João 5:19). Nós somos de Deus! Poderíamos descobrir uma realidade mais abençoada do que essa para contrabalancear aquela outra realidade feia e ultrapassá-la? Aqueles que crêem no nome de Jesus "não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:13). E louvado seja Deus, porque somos nascidos Dele, o maligno não pode tocar-nos (João 5:18).
Expondo o fato simplesmente, o poder de Satanás no mundo está em toda parte. Contudo, onde quer que homens e mulheres caminhem no Espírito, sensíveis a unção que têm de Deus, esse poder que ele tem evapora­-se. Há uma linha traçada por Deus, um limite onde por virtude de Sua própria presença, o mandato de Satanás não funciona. Deixe Deus ocupar todo o espaço para Si, e que lugar sobrará para o maligno?
Pertencemos a Deus assim, de forma total? Poderá Satanás testemunhar a seu e a meu respeito: "Não posso ludibriar esse homem!”



10
 CAPÍTULO


OS PODERES DO MUNDO VINDOURO

O que quer dizer o escritor de Hebreus quando afir­ma que os cristãos "provaram... os poderes do mundo vindouro" (Hb 6:5)? Todos nós concordaríamos de imediato que há uma esplêndida época futura pela qual esperamos. Nela o reino que está agora "sobre vós" em termos dos poderosos atos do Espírito de Deus (Mt 12:28), tornar-se-á então universalmente visível e indubi­tável. O reino do mundo transformar-se-á no reino de nosso Deus e do Seu Cristo (Ap 11:15). Mas o que, imaginamos, são esses "poderes" que agora somente pro­vamos, mas não podemos ainda banquetear-nos com eles? São claramente para serem recebidos e gozados, pois a pala­vra "provar" implica não só em uma doutrina para ser pensada e analisada, mas também em algo subjetivamen­te experimentado. Esses poderes são os pre­liminares de um banquete do qual há muito mais por vir, contudo comemos somente um pouco.
Poderíamos fazer uma lista das coisas que a Escritu­ra relata. Há uma salvação a ser revelada no último tem­po (1Pe 1:5). Há um novo aspecto da vida eterna no mundo vindouro (Lc 18:30). Há um repouso para o povo de Deus (Heb. 4:9). Haverá a ressurreição e renova­ção de nossos corpos mortais (Rm 8:23; 1Co 15:14). Haverá um dia no qual tudo o que faz os homens trope­çarem será removido (Jr 31:9; Is 57:14; 62:10). Have­rá um tempo em que todos conhecerão ao Senhor do menor ao maior (Jr 31:34; Hb 8:11) e quando verdadeiramente a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar (Isaías 11:9; Hc 2:14). De todas essas coisas temos agora um real antegozo em Cristo, mas não as vemos em sua totalidade.
As considerações seguintes são mais diretamente relacionadas a este nosso estudo. A epístola aos Hebreus aplica a nosso Senhor Jesus as palavras do Salmo 8: "To­das as coisas sujeitastes debaixo do seus pés", e então continua muito francamente, para expressar o que a ex­periência geralmente nos compele a admitir, ou seja, que "ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas" (Hb 2:8). Mas ao lado destas duas afirmações contrastantes; devemos colocar também aquela de Jesus em Lucas 10:19, onde Ele já concede a Seus discípulos "autoridade... sobre todo o poder do inimigo". Certamente isto nos promete em antegozo atual daquele dia futuro que ainda não vemos.
Novamente no mesmo capítulo do evangelho está registrado que Jesus disse: "Eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago" (10:18). Este acontecimento em Ap 12:9, parece ser colocado por João em um futuro distante. Contudo, claramente Jesus deixa implícito que, do ponto de vista da Igreja que testemunha, isso já é em certo sentido um fato presente. Além disso, em capítulo posterior de Apocalipse, é mostrado a João um dia em que Satanás será preso com uma corrente por mil anos (20:1-4). Contudo, Jesus fala do valente como já preso, de modo que podemos já agora entrar em sua casa e roubá-la (Mt 12:29).
São afirmações significativas, pois é certo que se possuímos salvação e vida eterna no presente, como cer­tamente possuímos, então também deveríamos estar ex­perimentando hoje alguns antegozos desses "poderes" futuros. Pois embora ainda não manifestos universalmen­te, é claro que são frutos da cruz e ressurreição de Cristo que devem ser, pelo menos em princípio, atual possessão da Igreja.
O propósito eterno de Deus está ligado ao homem. "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança", disse Ele, "e tenha ele domínio". Deus pre­tendia que o homem exercesse poder, para reinar e go­vernar, controlar as demais coisas criadas. Não podemos dizer que a redenção era desígnio de Deus – ou mesmo parte dele – pois o homem jamais foi criado para cair, menos ainda para perecer. Gênesis 3 representa a história do homem, não o propósito de Deus para com ele. Um trabalhador pode cair do quinto andar de um edifício em construção, mas esse nunca foi o plano do arquiteto! Não, o plano de Deus está relacionado ao domínio do homem, e é bom notar a esfera especial desse domí­nio, isto é, "toda a terra" (Gn. 1:26). Não há problema com o céu; o problema está na terra. É dito ao homem para sujeitá-la (vs. 28) e perguntamo-nos por que. Se não houvesse forças para sujeitar, por que esta necessida­de? Além disso, nos é contado que o Senhor Deus tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden para cultivá-lo e "o guardar" (2:15). Isto significa mais do que a palavra costumeiramente usada no hebraico para "guardar". Adão vai “proteger" o Paraíso de Deus, e de novo isto implica na proximidade de um inimigo para ser mantido em xeque.
É interessante notar as expressões em Gênesis 1:26. O homem deverá ter domínio "sobre toda a terra", e a cláusula é ampliada para cobrir, entre outras coisas, "to­dos os répteis da terra". Mas no caso, a primeira coisa que o homem falhou em controlar foi um animal raste­jante, uma serpente. E pelo fracasso do homem Satanás obteve, de uma nova maneira no próprio homem, direi­tos legais sobre a terra. É verdade que o pó da terra foi a esfera inferior destinada a ele. "Rastejarás sobre o teu ventre, e comerás pó todos os dias de tua vida" (3:14). Mas o que é o pó? É a substância da qual foi feito Adão! Assim, o homem na carne está agora moralmente subme­tido a Satanás. O inimigo de Deus assegurou um direito claro de posse sobre tudo o que por nascimento natural o homem tem e é. A vida humana natural é a base da ati­vidade de Satanás sobre a terra. O mundo de Satanás sal­ta e encontra sua força nos seus direitos sobre o homem, e até mesmo Deus não disputa esses direitos. Ele adqui­riu, pela falha de Adão, um direito de posse total sobre tudo o que é da velha criação.
Se Satanás tiver que cessar de agir em nós, então sua propriedade em nós deve ser tomada dele. Deus trata assim dessa situação na redenção, não negociando direta­mente com Satanás, mas, como vimos, tirando tudo da velha criação fora do caminho – o próprio homem, seu mundo, tudo – e assim tirando de Satanás sua plataforma legal. A ruína de Satanás é alcançada não por um gol­pe direto contra ele, mas indiretamente, afastando dele na morte de Cristo tudo o que lhe dá direito moral de controle. "Sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos" (Rm 6:6).
Louvado seja Deus, Satanás, portanto não tem mais nenhum direito sobre nós. Mas esse é meramente um fa­to negativo. Há também um fato positivo. Deus não só removeu tudo o que estava no caminho do seu propósi­to eterno, removendo a velha criação; Ele também asse­gurou tudo o que é necessário para realizar esse propó­sito, trazendo em cena o Seu novo Homem. "Sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele" (vs. 9). O propósito revelado em Gênesis 1 e perdido em Gênesis 3 não está perdido para sempre. O que Deus não pode assegurar no primeiro homem, Ele obteve no segundo; e esse segundo Homem está no trono. Não é de se admirar que o escritor do Novo Testamento ouse repli­car as palavras do salmista: "Que é o homem, que dele te lembres? Ou o filho do homem, que o visites?... De gló­ria e de honra o coroaste". Assim ele cita o salmo, e en­tão exclama: "Vemos, todavia... Jesus... coroado!" (Sal­mo 8:4-6; Heb. 2:6-9). Se a criação da humanidade devia preencher a necessidade de Deus, essa necessidade foi agora finalmente preenchida. Deus conseguiu o Seu Ho­mem.
Gênesis 1, Salmo 8 e Hebreus 2 estão assim singularmente ligados. O Salmo 8 naturalmente é poesia, e fala sobre o plano de Deus para a humanidade, mas o fato significativo é que, apesar da queda, o cantor não se des­via. Ele apenas reafirma o plano original de Gênesis 1: "Sob seus pés tudo lhe puseste". Não mudou. Além dis­so, ele não só começa, mas termina seu cântico com a ex­clamação de louvor: "Quão magnífico em toda a terra é o Teu nome!"
O inimigo conseguiu o seu mal; o homem foi preso na armadilha para blasfemar de Deus, e se você ou eu tivéssemos escrito esse salmo, nós certamente teríamos acrescentado ao versículo 8 um grifo de angústia: "Mas, ai de nós, o homem caiu; tudo está perdido!" O salmista não age assim, é como se ele tivesse esquecido completa­mente da queda, pois nem sequer a menciona. Ele salta em pensamento por sobre toda a história da redenção, e grita novamente: "Quão magnífico!" Adão e Eva caíram, mas não puderam alterar o propósito de Deus de que o homem iria finalmente derrotar o poder de Satanás. Seu propósito permanece inalterado, e sua excelência é para ser conhecida – onde? Em toda a terra.
Não é só no Filho do homem que esse propósito é realizado, mas nos filhos dos homens – aqueles "muitos filhos" os quais Deus está trazendo para a glória. O sal­mista esforça-se para sublinhar esse fato. Embora o ini­migo tenha feito o pior, os direitos que conseguiu através da queda não provaram ser intransferíveis. Entre os ho­mens, ainda há os que ele não pode tocar. "Da boca de pequeninos e crianças de peito suscitaste força, por causa dos teus adversários, para fazeres emudecer o inimigo e o vingador" (vs. 2). Deus não depende de grandes líderes militares. Criancinhas, sim, verdadeiros bebês são sufi­cientes para subjugar as hostes de Seus inimigos.
Como vimos, Hebreus 2 tira sua inspiração deste salmo. Contudo vai um passo além. Embora reafirmando o propósito de Deus na criação e o objetivo para o qual aponta, faz muito mais do que isso. Olhando para trás realisticamente, para o decurso da negra história do ho­mem caído, estabelece agora que o propósito de Deus na redenção e recuperação está dirigido para idêntico fim. Em todas as novas circunstâncias que a redenção criou, o plano está ainda inalterado. Deus não abandonou Seu alvo. Longe disso, do ponto de vista do escritor, além do triunfo da cruz ele pode confiantemente reafirmar a confissão de fé do salmista. Assim, longe de estar tudo perdido, é correto afirmar que em Cristo o final foi asse­gurado.
Oh sim, o plano ainda é o mesmo: "Nada deixou fo­ra do seu domínio" (vs. 8). As aparências tendem a ne­gar isto, pois que "ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas". E embora sendo isto verdadeiro, o autor o des­considera, e imediatamente prossegue triunfante: "Ve­mos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido fei­to menor do que os anjos, Jesus, por causa do sofrimen­to da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem" (vs. 9). E então acrescenta, quase que desafiadoramen­te: "para que destruísse... o diabo" (vs. 14).
O que o homem tinha que fazer para Deus na terra, e não fez, nosso Senhor Jesus realizou. Ele "provou a morte por todas as coisas" (como está implícito no origi­nal grego – não apenas "por todo homem"). Isto é, não foi somente para a redenção do homem que Ele morreu, mas para a de toda a criação e, mais ainda, para a recu­peração do propósito do Pai na completa derrubada da ordem mundial satânica.
Assim torna-se claro que hoje a Igreja tem a respon­sabilidade definida perante Deus de registrar a vitória de Cristo no território do diabo. Se tem que haver um teste­munho aos principados e potestades, se o impacto da so­berania de Cristo através da Sua cruz tem que ser regis­trado no campo espiritual, isto poderá ser alcançado so­mente quando a plataforma judicial do "enganador" da raça for encontrada em nossos corações e, pela mesma cruz, removida e repudiada. Pois o alvo de Deus ainda é que o homem "tenha domínio". Nossa obra para Ele não se resume na proclamação de um evangelho que foi de­signado meramente para desfazer o efeito de Gênesis 3, maravilhosa como possa ser essa realização. Deus deseja também conduzir-nos de volta a Gênesis 1. Ele quer que nós em Cristo reconquistemos o domínio moral sobre Seu inimigo que ali estava em vista, e que assim efetiva­mente restauremos a terra para Ele. Certamente é por isso que, como nos diz Paulo, "a ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus" (Rm 8:19).
O Evangelho da Salvação é necessário e vital para preencher a necessidade do homem. Mas se, como servos de Deus, estamos apenas trabalhando por outros, esta­mos perdendo o primeiro alvo de Deus na criação, que era suprir não só a necessidade do homem, mas a Sua própria. Pois como já dissemos antes, a criação do ho­mem deveria preencher a necessidade de Deus. Assim, se hoje vamos satisfazer a necessidade de Deus, precisamos ir um passo além, e lidar com o próprio Satanás. Deve­mos roubar de volta seu poder, expulsá-lo de seu territó­rio, saquear seus bens e libertar seus cativos - para Deus. A questão não é simplesmente: como estamos nós no ga­nhar almas? Mas sim: como estamos nós no campo dos principados e potestades? E por isto há um preço a pa­gar.
Muitas vezes é possível mover os homens quando é totalmente impossível mover Satanás. A verdade é que custa muito mais lidar com Satanás do que ganhar almas. Requer uma totalidade de espírito para com Deus, que em si própria priva Satanás de qualquer propriedade mo­ral em nós da qual ele possa reivindicar possessão. Esta é a parte custosa. Deus, em Seu amor misericordioso pelos perdidos, pode freqüentemente passar por cima e des­considerar em Seus servos o que se poderia, com justiça, considerar como espantosa fraqueza e até mesmo fracas­so. Mas ao passo que Ele pode fazer isso para com o ga­nhador de almas, quando se trata de nosso lidar com o diabo, o caso é outro.
Os espíritos maus podem ver através do testemunho do homem. Podem dizer quando este está comprometido por ser de coração dividido, ou insincero. Eles sabem quando guardamos uma parte do preço. Olhando-nos, eles não têm ilusões quanto a quem podem desafiar ou ignorar com segurança; e, ao contrário, sabem perfeita­mente bem contra quem são impotentes. "Conheço a Je­sus e sei quem é Paulo. Mas vós, quem sois?" (Atos 19:15). Porque crêem, sabem quando temer. E permita-­me dizer: uma vez que nossa tarefa mais importante é a derrota deles, sempre é melhor termos o testemunho das forças do mal do que o louvor dos homens.
Mas o preço desse testemunho dos principados e po­testades é, repito, uma total lealdade para com Deus, que é ilimitado. Nutrir nossas próprias opiniões e desejos, ou preferir nossas próprias escolhas divergentes e contrárias, é simplesmente presentear o inimigo com sua vantagem. É, em resumo, entregar o jogo. Em qualquer outra esfera talvez possa haver – não sei – lugar entre nossas motiva­ções para um pouco de interesse próprio, sem perdas consideráveis. Mas nunca, e eu repito nunca, nesta esfera. Sem tal totalidade para com Deus nada pode ser conseguido, pois sem ela fazemos até Deus impotente contra Seu inimigo.
Assim, digo uma vez mais: a exigência é muito alta. Estamos você e eu aqui na terra, totalmente submissos, totalmente entregues ao próprio Deus? E porque é assim, estamos agora mesmo experimentando os poderes daquela futura época gloriosa? Estamos reclamando território do príncipe deste mundo para Aquele a quem por direito pertence?

       
                                                                                                                                      
11
 CAPÍTULO


ROUBANDO O USURPADOR

"Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecado­res". Desde que o propósito eterno de Deus é o homem (e não qualquer outro ser) que terá o domínio, é natural e certo que nossa compaixão se volte para os pecadores. Não obstante tudo o que foi dito até aqui, podemos bem sentir que neste breve dia da graça, o ganhar almas para o Salvador do mundo é talvez o meio supremo disponível para que roubemos a Satanás sua presa. Certamente que se o "homem" fosse nosso tema, a esta altura daríamos um grande espaço ao assunto de ganhar almas.
Mas, já tratamos do evangelismo em outra ocasião. Ao invés disso, portanto, proponho encerrar estes estu­dos sobre "o mundo", para abordarmos, através de ilustrações práticas da arte de "roubar os bens do valente", outra área mais materialista do domínio de Satanás. Refiro-me ao campo das finanças.
O dinheiro é oposto a Deus. A Palavra de Deus fala dele como "riquezas de origem iníqua" (Lc. 16:9). Uma vez que Jesus diz: "Das riquezas de origem iníqua fazei amigos", é claro que ele não pode estar descreven­do-as como riquezas que você obteve através de negocia­ções injustas. Portanto, Ele está dizendo que as riquezas são injustas em si mesmas. O que está sendo posto à nos­sa frente aqui não são os meios injustos pelos quais o dinheiro é obtido, nem o uso injusto que é feito dele, mas o caráter injusto do dinheiro. O dinheiro em seu caráter essencial é mau. Falamos de "dinheiro limpo" e "di­nheiro sujo", mas à vista de Deus, há apenas dinheiro su­jo. O homem que conhece a Deus conhece o caráter do dinheiro. Ele sabe que o dinheiro é mau em si próprio.
Se quiser testar o caráter de qualquer coisa, você só precisa perguntar se essa coisa o conduz para perto ou para longe de Deus. O dinheiro invariavelmente conduz para longe de Deus. Jesus afirma claramente no versículo 13 o princípio de que é impossível servir a Deus e às ri­quezas, embora eu creio que mesmo sem a Sua afirmação, muitos de nós estaríamos convictos de que é assim mesmo. Pois a experiência nos diz que Deus e as riquezas nunca estão do mesmo lado; as riquezas estão sempre opostas a Deus.
Naturalmente seria possível interpretar as palavras de Jesus mais amplamente, e encarar "riquezas" como representando tudo em geral que se opõe a Deus. Mas o apóstolo Paulo auxilia-nos a definir o dinheiro como o meio que o mundo usa com maior sucesso para afastar­-nos de Deus. "Ora, os que querem ficar ricos", diz ele, "caem em tentação e cilada, e em muitas concupiscên­cias insensatas e perniciosas, as quais lançam os homens na ruína e perdição. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé, e a si mesmos se atormentaram com muitas dores" (1Tm 6:9, 10). Em outras palavras, se existe algo que pode desviar-nos de Deus, é o dinheiro.
A essência do mundo é o dinheiro. Sempre que toca­mos o dinheiro, tocamos o mundo. Surge a questão, co­mo podemos nós tomar algo que sabemos com certeza que pertence ao mundo, e, contudo não ficar envolvidos com o sistema mundial? Como podemos nós lidar e fazer negócios com o dinheiro, o mais mundano das coisas mundanas, e, assim fazendo, não ficar envolvidos com Satanás? Ainda mais objetivamente, uma vez que nada pode ser feito hoje sem que se pague como é possível para nós tomarmos o dinheiro, que é o fator supremo na construção do reino do anticristo, e usá-lo para construir o reino de Cristo?
A viúva que depositou sua oferta no tesouro do tem­plo fez algo tão aceitável ao Senhor que recebeu Dele es­pecial elogio. De fato, o que ela fez foi o seguinte: ela tomou algo do reino de Satanás e contribuiu para com o reino de Deus. E Jesus aprovou. E então como, pergunta-mo-nos, é tal transferência efetuada? Como é possível tomar o dinheiro, cujo caráter é essencialmente injusto, e com ele construir o reino de Deus? Como pode você es­tar certo de que toda ligação entre o dinheiro do seu bol­so e o mundo foi cortada? Você ousa afirmar que nada do dinheiro em seu poder figura nos livros de Satanás?
Sobre cada denário romano havia uma imagem de César. Nas palavras de Jesus, todas essas moedas são de César. Como a ligação entre César e essas moedas pode ser cortada? O dinheiro é algo do mundo. É uma parte essencial do sistema mundial. Como pode então ser tira­do do mundo que o reclama e dedicado a Deus para Seu uso?
Nos tempos do Velho Testamento um princípio rígido foi estabelecido. "No entanto, nada do que alguém dedicar irremissivelmente ao Senhor, de tudo o que tem, seja homem ou animal, ou campo da sua herança, se poderá vender nem resgatar: toda coisa assim consagrada será santíssima ao Senhor" (Lv 27:28). Em outras pala­vras, não há devoção verdadeira sem destruição. Se na­queles dias um cordeiro era dedicado a Deus, não era co­locado diante Dele para ficar vivo e gerar cordeirinhos; era colocado diante de Deus para ser sacrificado. "Será morto" (vs. 29). A sua destruição era o sinal de sua aceitação.
Todo o dinheiro que é verdadeiramente consagrado a Deus, deve ficar sob o princípio da destruição; isto é, deve deixar de existir no que diz respeito ao mundo, e deve também deixar de existir no que me diz respeito. Quando nosso Senhor elogiou a viúva por depositar suas duas moedas no tesouro, Ele observou que ela depositara sua bios, isto é, sua vida. "Ela, porém, da sua pobreza deu tudo o que possuía, todo o seu sustento" (Mc 12:44). Muitas pessoas põem somente dinheiro no tesou­ro do Senhor; ela colocou sua vida junto com seu dinhei­ro. Em outras palavras, quando aquele dinheiro saiu do seu poder, sua vida saiu com ele. Dando suas moedas, ela deu tudo o que era seu.
Se seu dinheiro tiver que sair do mundo, então sua vida terá que sair do mundo. Você não pode conservar-se para trás, e contribuir com algo significativo para Deus.
Você não pode, de modo algum, enviar seu dinheiro para fora do mundo: você pode apenas trazê-lo para fora do mundo!
Sendo assim, não é fácil transferir dinheiro do reino de Satanás para o reino de Deus; é preciso labutar. Con­verter almas de Satanás para Deus é na realidade mais fá­cil do que converter dinheiro de Satanás para Deus. Pela graça de Deus homens e mulheres podem ser ganhos para Ele, quer estejamos ou não totalmente consagrados; mas isso não acontece com o dinheiro. É preciso grande po­der espiritual para converter nossos ciclos, que por natureza são maus, em siclos do santuário. O dinheiro precisa de conversão, assim como os homens; e eu creio que o dinheiro pode ser renovado (embora em sentido um tanto diverso), assim como as almas podem ser reno­vadas. Mas o fato de você trazer uma oferta em dinheiro para o tesouro não irá por si só mudar a natureza do di­nheiro que você oferece. A não ser que sua vida vá junto com o dinheiro, este não pode ser liberto do reino de Sa­tanás e transferido para o reino de Deus. O valor espiri­tual de seu trabalho para Deus dependerá grandemente se o dinheiro que você usa foi ou não liberto do sistema mundial. Pergunto-lhe, foi liberto? Você pode declarar que não há dinheiro em seu poder que pertença ao mun­do? Você pode afirmar agora que seu dinheiro não é mais uma parte do kosmos, pois foi todo convertido? Você está desejoso de dizer a Deus: "Converterei todo o dinheiro que ganho com o meu trabalho, e todo o di­nheiro que me é dado, para que ele possa ser todo Teu?”
Para Paulo, o princípio era simples: queremos você, não o que é seu. Dos santos macedônios, que da sua po­breza contribuíram tão liberalmente, ele disse que "de­ram-se a si mesmos primeiro ao Senhor", e então deram seu dinheiro (2Co 8:5). Paulo recebeu seu treinamen­to no Velho Testamento, onde a consagração de ofertas materiais estava sempre relacionada à consagração daque­les que as traziam. Seu raciocínio pode ter tido raízes nisso. Pode parecer surpreendente, mas é verdade, que Deus tem um suprimento limitado de dinheiro, enquanto que o suprimento de Satanás é ilimitado. Talvez você esteja imaginando como essa afirmação pode ser reconciliada com aquela outra, de que toda a prata e ouro são Seus. Contudo, o próprio Senhor Jesus diz que há o que pertence a Deus e o que pertence a César. No fim das contas, não há dúvida que todas as coisas materiais pertencem a Deus como Criador; mas a quantidade de dinheiro que está hoje no tesouro de Deus está limitada ao número de pessoas que são consagradas a Ele. Se tivesse vivido nos tempos do Velho Testamento, eu poderia ter calculado imediatamente a quantidade de dinheiro no santuário. Teria investigado o número total dos filhos de Israel, e avaliado meio siclo de prata para a redenção de cada um deles (Êxodo 30:11-16). A isso, acrescentaria cinco siclos por cabeça para a redenção de cada um dos primogênitos de Israel que excediam os Levitas (Nm 3:39-51). E então, a essas duas quantias acrescentaria a avaliação, segundo o siclo do santuário, feita de cada indivíduo que por sua livre vontade consagrou-se ao Senhor (Lv  27:1-8). Sim, é o número do povo de Deus que determina a quantidade de dinheiro de Deus. A reserva de riquezas no tesouro de Deus é baseada no número de pessoas consagradas a Ele.
Aqui, então, está a questão vital para cada um de nós responder: o dinheiro que estou tocando hoje representa siclos do santuário ou riquezas da injustiça? Sempre que recebo um Real, ou sempre que ganho um Real, preciso certificar-me de que esse Real é de imediato convertido de moeda do mundo em moeda do santuário. O dinheiro pode ser nossa destruição, mas pode ser também nossa proteção. Não despreze o dinheiro; seu valor é demasiadamente real para isso. Pode ser de grande valia para o Senhor. Se você sair do mundo de corpo e alma, então pode, se Deus assim o desejar, trazer muitas coisas preciosas para fora do mundo com você. Quando os israelitas saíram do Egito, levaram com eles muitos tesouros. Eles saquearam os egípcios, e o saque que levaram com eles foi para a construção do taberná­culo. Uma parte recordamo-nos, foi para construir um bezerro de ouro, e ficou perdida para Deus. Mas quando o povo de Deus deixou o Egito, o tabernáculo, pelo menos quanto a seu material, deixou o Egito com eles. Ouro, prata, cobre, linho egípcio – tudo foi convertido e contribuiu para o santuário de Deus.
Se você pode encontrar essa realidade nos tempos do Velho Testamento, quão mais elevado ainda deve ser o padrão estabelecido no Novo! A chave no Novo Testamento para tudo o que se refere às finanças, é que não guardemos nada para nós mesmos. "Dai, e dar-se-vos-á", estas foram às palavras de nosso Senhor (Lc. 6:38), e não "Economizai, e ficareis ricos"! Isto é, o princípio divino para o aumento é dar, e não guardar. Deus requer de cada um de nós doações proporcionais, e não casuais. Isto quer dizer que Deus deseja doações que não estejam sujeitas meramente ao capricho do momento, mas que sejam fruto de um pacto definido sobre o assunto feito com Ele – e mantido.
É por isso que o segredo real de saquearmos Satanás é, como vimos, consagração pessoal. Sermos redimidos do mundo e não nos oferecermos, como conseqüência, a Deus, é algo totalmente impossível." ... não sois de vós mesmos; porque fostes comprados por preço" (1Co 6:19, 20). Não importa se exercemos uma profissão ou comércio que nos proporciona uma renda do mundo, ou se nos ocupamos unicamente da pregação da Palavra e dependemos, para nosso sustento, das ofertas do povo de Deus, há apenas um caminho diante de nós, não dois. Somos todos igualmente consagrados a Deus e somos todos Suas testemunhas. Simplesmente não é verdade que a pregação do evangelho em si é limpa e os negócios são sujos, de modo que os que se dedicam a estes últimos tornam-se tão manchados que são de menos importância para Deus. O que importa é simplesmente que Deus, não nossos negócios, deve ser o centro de nossas vidas.
"Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mun­do". Você tem a unção do Santo: viva segundo ela! Entregue-se a Deus; viva total e absolutamente para Ele; procure fazer com que, naquilo que pessoalmente lhe diz respeito, as coisas deste mundo sejam riscadas dos livros de Satanás e transferidas para a conta de Deus. Pois "o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eterna­mente".