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Divulgador das palavras do Ministério através dos escritos dos irmãos W. Nee e W. Lee aos buscadores pela verdade da Bíblia

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A REVELAÇÃO BÁSICA NAS ESCRITURAS SAGRADAS


 
 
 
A REVELAÇÃO BÁSICA NAS ESCRITURAS SAGRADAS
 
 
  
Witness Lee
 
  
 
Traduzido e publicado com a devida autorização do Living Stream Ministry
 

 
ÍNDICE
 
Prefácio
 
1          O Plano de Deus
 
2          A Redenção de Cristo
 
3          A Aplicação do Espírito
 
4         Os Crentes
 
5          A Igreja
 
6         O Reino (1)
 
7          O Reino (2)
 
8         A Nova Jerusalém — a Consumação Final e Máxima (1)
 
9         A Nova Jerusalém — a Consumação Final e Máxima (2)
 
10       A Nova Jerusalém — a Consumação Final e Máxima (3)
 
11        A Nova Jerusalém — a Consumação Final e Máxima (4)
 
 
                                                           PREFÁCIO
 
Os capítulos neste livro são extraídos de mensagens dadas por Witness Lee em Irving, Texas, no outono de 1983. Eles cobrem a revelação básica e fundamental contida na Palavra de Deus. A Bíblia como a completa revelação divina é profunda, e embora revele muitas verdades, sua revelação essencial abrange sete verdades. São elas: O plano de Deus, a redenção de Cristo, a aplicação do Espírito, os crentes, a igreja, o reino e a Nova Jerusalém.
O plano de Deus inclui Seu bom prazer, Seu propósito, e Sua economia divina com Sua eleição, predestinação e criação do homem. Tudo o que Deus planejou foi cumprido por meio da redenção de Cristo. Para o cumprimento da redenção, Cristo deu quatro passos principais — encarnação, crucificação, ressurreição e ascensão. O Espírito todo-inclusivo que dá vida aplica tudo o que o Pai planejou e tudo o que o Filho cumpriu aos crentes, que são os componentes da igreja, a qual é o objetivo de Deus. O reino é a esfera ou o domínio onde Deus leva a cabo o Seu propósito, cumpre Sua vontade, exerce Sua justiça, exibe Sua multiforme sabedoria e governa em Sua vida. A Nova Jerusalém é a conclusão da revelação completa de Deus em Sua economia. Ela é a consumação final e máxima da obra de edificação de Deus ao longo de todas as gerações.
Aqueles de nós que estávamos nas reuniões quando estas mensagens foram dadas nunca poderemos esquecer a profundidade da revelação que fluiu. Muitos de nós sentimos que, pela primeira vez, vimos verdadeiramente a essência da revelação divina. A visão concernente a todas estas verdades preciosas foi profundamente trabalhada para dentro de nós enquanto a Palavra estava sendo aberta. Esta é uma palavra que todos os filhos do Senhor necessitam ouvir, e oramos para que o conteúdo deste livro seja uma palavra oportuna para muitos. Adoramos ao Senhor, pois Ele nos tem falado tal palavra todo-abrangente por intermédio de nosso irmão; e que ela possa tornar-se disponível a todos neste momento. Precisamos orar e ter comunhão sobre todos os versículos e assuntos contidos nos capítulos seguintes, confiando no Se­nhor a fim de que nos conceda uma visão clara sobre a revelação básica nas Escrituras Sagradas. Que o Senhor con­ceda a cada um de nós um espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento de todas essas verdades e que possamos experiencialmente entrar na realidade de cada uma delas. Oramos também para que essas mensagens produzam muitos frutos em toda parte da terra.
 
Dezembro de 1984                                                                                                                        Benson Phillips
Irving, Texas
 
 
Capítulo Um
O PLANO DE DEUS
 


Leitura Bíblia: Ef 1:4, 5, 9-11; 3:2, 8, 9, 11; Cl 1:25; 1 Co 9:17; 1 Pe 1:1,2; Rm 8:30; Gn 1:26a, 27; 2:7; Zc 12:1
 
A revelação divina nos sessenta e seis livros da Bíblia é extremamente profunda. Existem sete pontos básicos nesta revelação profunda. Os primeiros três pontos são o plano de Deus, a redenção de Cristo e a aplicação do Espírito. Esses três pontos envolvem a Trindade divina — Deus, Cristo e o Espírito. O que Deus planejou, Ele cumpriu pela redenção de Cristo. O que Ele cumpriu em Cristo, Ele aplica a nós por meio do Espírito. Os últimos quatro pontos são os crentes, a igreja, o reino e a consumação final e máxima, a Nova Jerusalém. Neste capítulo cobriremos o primeiro item da revelação básica na Bíblia — o plano de Deus.
 
O BOM PRAZER DE DEUS - O DESEJO DO SEU CORAÇÃO
A Bíblia revela claramente o plano de Deus. A maioria dos cristãos valorizam dois livros entre os escritos de Paulo — Romanos e Efésios. Romanos começa com a nossa condição como pecadores, gênero humano caído, mas Efésios inicia levando-nos para dentro do coração de Deus. Em Romanos 1 podemos ver a nossa condição de pecadores, mas em Efésios podemos ver que há alguma coisa no coração de Deus. A palavra beneplácito é usada duas vezes neste capítulo (vs. 5 e 9). Deus tem um beneplácito, e esse bom prazer é o desejo do Seu coração. Na eternidade passada Deus estava só. Não podemos imaginar como era a eternidade passada, mas Efésios 1 nos diz que antes da criação do universo Deus tinha um desejo no coração. Ele tinha um bom prazer. O que Ele queria pode ser expresso pela simples palavra "filiação" (1:5). Filiação é o desejo do coração de Deus.
Depois de Deus ter feito Adão, Ele disse que não era bom que o homem estivesse só (Gn 2:18). Esta palavra pode ser também aplicada a Deus na eternidade passada. Não era bom que Deus estivesse só. Ele tinha um desejo de gerar muitos filhos. Efésios 1 nos diz que Deus nos predestinou para a filiação. Muitos cristãos podem pensar que a predestinação de Deus é para a salvação; mas de acordo com Efésios, na eternidade passada o primeiro pensamento no coração de Deus não era salvação. Seu pensamento principal era a filiação. Deus preconhecia que Sua criação cairia. Por causa da queda, houve o plano de salvação, de modo que a salvação foi proposta para a filiação. O desejo de Deus é gerar muitos filhos.
Recentemente numa reunião de oração em Irving, Texas, vi três jovens. Ao olhar para a face deles, pude ver que eles eram os filhos de um certo irmão. Todos os três possuem uma forte semelhança com o pai; eles são a sua própria expressão.
Quanto mais filhos um pai tem, mais expressão ele tem. Romanos 8:29 nos diz que o Filho unigênito de Deus tornou-se o primogênito entre muitos irmãos. O Filho unigênito de Deus em João 1:18 e 3:16 tornou-se, por meio da ressurreição (At 13:33), o Filho primogênito. Primogênito implica que outros filhos vieram depois. Agora Deus não so­mente tem um Filho, mas muitos. O Filho primogênito de Deus, Cristo, tem milhões de irmãos. Ao longo destes vinte séculos muitos têm sido regenerados e, assim, têm-se tornado filhos de Deus. Todos esses filhos são os irmãos do primogênito Filho de Deus (Jo 20:17; Hb 2:10-12). Que filiação enorme!
Quando jovem, estive com alguns santos que conheciam muito bem a Bíblia. Eles enfatizavam a predestinação de Deus, mas nunca os ouvi dizer qual é o alvo da predestinação de Deus. Depois de muitos anos de estudo da Bíblia, vi que nós fomos predestinados para filiação. Subconscientemente eu pensava que éramos predestinados para salvação. Alguns diriam que fomos predestinados para os céus. Não é nem salvação nem os céus o alvo da predestinação de Deus; é a filiação (Ef 1:5).
A versão de João Ferreira de Almeida traduz essa pala­vra por "adoção de filhos", mas a palavra na língua original significa filiação. Ela não quer dizer filhos adotados por um pai, mas filhos nascidos diretamente de um pai gerador. O desejo do coração de Deus, então, é ter uma grande multidão de filhos que O expressem, não somente nesta era mas também pela eternidade.
 
O PROPÓSITO DE DEUS - SEU PLANO
Baseado no desejo do Seu coração, Deus estabeleceu um propósito (Ef 3:11). O propósito de Deus foi estabelecido de acordo com Seu bom prazer. Efésios 1:9 diz que Deus propôs Seu bom prazer. Isso significa que, de acordo com o que Ele desejava, Ele fez um plano. Desde que Deus tinha tal bom prazer, Ele fez um plano. Em Efésios 3:11 Paulo nos diz novamente que Deus fez um plano em Cristo, um plano eterno, um propósito eterno.
 
A ECONOMIA DE DEUS -SEU ARRANJO ADMINISTRATIVO
Economia é uma palavra aportuguesada do grego oikonomia. Ela significa a lei de uma casa, ou administração familiar. Em 1 Timóteo 1:4 essa palavra é usada para arranjo, plano, administração ou gerenciamento. No Velho Testamen­to a casa de Faraó necessitava de alguma administração familiar ou arranjo, e José foi colocado ali para tomar conta daquela administração. O que ele fazia era principalmente distribuir o rico alimento aos famintos (Gn 41:33-41, 54-57); e aquela distribuição era um dispensar. A administração da casa de Faraó foi uma economia levada a cabo para dispensar as riquezas ao povo. No Novo Testamento essa palavra é principalmente usada por Paulo. Mas a mesma palavra é usada pelo Senhor Jesus em Lucas 16:2-4, referindo-se ao mordomado de um despenseiro. José podia ser considerado como o despenseiro de Faraó, e sua responsabilidade, como sua economia. Aquela atribuição, seu mordomado, era para dispensar a rica comida que Faraó possuía para alimentar os famintos.
Sua Dispensação
Em Efésios, Paulo nos diz que ele foi designado por Deus como um despenseiro, e que, com isso, Deus deu-lhe a responsabilidade, o dever, o qual é chamado mordomado (3:2). A palavra grega para mordomado é a mesma palavra para dispensação. Quer seja ela traduzida por mordomado quer por dispensação, isso depende do contexto. Em Efésios 3:2, Paulo diz que Deus deu-lhe o mordomado da Sua graça. Então, a mesma palavra grega, oikonomia, é encontrada em 1:10 e 3:9, onde parece melhor traduzi-la por dispensação. Esta palavra "economia" denota principalmente um plano, uma administração, um gerenciamento, para dispensar as ri­quezas de uns para outros.
Paulo considerava que Deus tinha uma grande família para suprir com Suas riquezas. Em Efésios 3:8 ele diz que Deus o designou para pregar, ministrar, distribuir ou dispen­sar as riquezas insondáveis de Cristo. Essas riquezas estão na casa de Deus. Existe um depósito das riquezas insondáveis de Cristo, e Deus designou os apóstolos (Pedro, João, Tiago e Paulo) para serem despenseiros a fim de dispensar essas ri­quezas a todo o povo escolhido de Deus.
Mordomado é o mesmo que dispensar. José cumpriu seu mordomado dispensando comida. Sua responsabilidade, seu ofício, seu dever era distribuir a rica comida aos necessitados. Aquela distribuição era um dispensar.
Alguns mestres da Bíblia têm ensinado que existem sete dispensações na Bíblia. No Velho Testamento há as dispensações da inocência, consciência, governo humano, promessa e lei. Então, no Novo Testamento há a dispensação da graça nesta era e a dispensação do reino na era vindoura. Nessas sete dispensações, dizem eles, Deus trata com o homem de sete maneiras diferentes.
Isso pode estar correto, mas não se esqueçam que as dispensações são a administração familiar de Deus. Deus tem uma grande família, e nesta família Ele necessita de uma administração, um plano, um gerenciamento, para dispensar a Si mesmo para dentro de Sua família. O pensamento prin­cipal de Deus, desde a eternidade passada, era ter um arranjo ao longo das eras para dispensar-se para dentro de Seu povo escolhido e predestinado. A esses Ele faria Seus filhos infundindo-se para dentro deles para que pudessem ter a vida divina pelo novo nascimento.
Nas catorze epístolas de Paulo podemos ver que Deus tinha um bom prazer, de acordo com o qual Ele fez um plano, um propósito. Ele criou o homem à Sua própria ima­gem, e na plenitude dos tempos infundiu-se para dentro de todos aqueles criados e escolhidos para que eles pudessem tornar-se Seus filhos, expressando-O. Este é o plano de Deus e esta é a dispensação de Deus para o Seu dispensar.
Em português, as palavras dispensação e dispensar são ambas formas do verbo dispensar. Quando uso a palavra dispensação, quero dizer economia, arranjo ou gerenciamen­to. Mas, quando uso a palavra dispensar, quero dizer o distribuir das riquezas divinas para dentro do povo de Deus. Dispensação denota o arranjo, o gerenciamento, o plano, a economia. Dispensar refere-se ao distribuir do próprio Deus como vida e suprimento de vida para dentro de Seu povo es­colhido em Cristo.
 
Seu Dispensar
Em Efésios 1:10 e 3:9, a palavra oikonomia é usada para administração familiar, a qual é o plano de Deus para dispen­sar-se para dentro de Seu povo escolhido. Em Efésios 3:2, Colossenses 1:25 e 1 Coríntios 9:17 a mesma palavra refere-se ao mordomado de Paulo. A palavra mordomado é usada no sentido de dispensar. O mordomado de Paulo era o dis­pensar das riquezas insondáveis de Cristo para dentro do povo escolhido de Deus. Com Paulo, a palavra mordomado refere-se ao dispensar divino.
A palavra despenseiro é usada em 1 Pedro 4:10, que diz que todos nós precisamos ser bons despenseiros da multi-forme graça de Deus. A multiforme graça do rico Deus necessita de muitos despenseiros para dispensá-la; este dis­pensar é o mordomado deles.
O que estou fazendo neste ministério é dispensar as ri­quezas de Cristo. Se você me disser que sou um bom mestre da Bíblia, aprecio sua palavra, mas não gosto de ouvi-la. Não me considere um mestre! Sou um despenseiro! Não estou meramente ensinando a Bíblia; estou dispensando. Certa vez fui tomar uma injeção contra gripe. Havia uma longa fila de pessoas, e todos tínhamos de oferecer nosso braço de modo que pudéssemos tomar a injeção. Em meu ministério quero dar às pessoas uma injeção das riquezas de Cristo! Tenho a plena certeza de que quem quer que venha a este ministério, obterá tal injeção!
Nosso mordomado hoje é o mesmo de Paulo. O mor­domado de Paulo era simplesmente aplicar uma injeção nas pessoas, isto é, distribuir, dispensar as riquezas insondáveis de Cristo para dentro do povo escolhido de Deus. Esta é a economia de Deus, Seu plano, Sua administração.
           
A ESCOLHA DE DEUS
Deus tem um bom prazer, e segundo o Seu bom prazer Ele fez um plano. Por conseguinte, Ele arranjou uma administração universal de Sua casa para dispensar Suas ri­quezas para dentro de Seu povo escolhido. Então nos selecionou, não somente antes de sermos criados, mas também antes da fundação do mundo (Ef 1:4; 1 Pe 1:1, 2). Nada de Sua criação tinha vindo ainda à existência quando Ele nos selecionou.
E difícil comprar coisas em um shopping center porque existem muitas coisas para escolher. As pessoas não compram cegamente; elas consideram e escolhem cuidadosamente o que comprarão. Na eternidade passada, antes de Sua criação, Deus me viu e disse: "Eu gosto deste." Sem ter sido escolhido, não creio que me teria tornado um cristão. Mesmo tendo nascido no cristianismo, eu não era um cristão até os dezenove anos. Fui educado dentro do cristianismo, mas ain­da não cria. Entretanto, um dia Deus me tocou e disse: "Eu quero você." Naquele dia fui capturado. E quanto a vocês? Atrás do cenário há uma mão poderosa e eterna dirigindo todas as coisas. Nossa seleção é uma coisa maravilhosa.
Nosso Pai celestial fica alegre quando nos vê. Somos o desejo de Seu coração, Seu bom prazer. O prazer de Deus não está na lua, no sol, no céu ou na terra. Ele nos diz clara­mente em Sua Palavra que Ele não fica satisfeito apenas com a terra e o céu. O que O satisfaz é Seu povo escolhido. Somos Seu bom prazer, e Seu plano foi feito para nós.
 
SUA PREDESTINAÇÃO
Seguindo Sua escolha, Deus nos predestinou (Ef 1:5; Rm 8:30). A Nova Tradução Bíblica de Darby* traduz esta palavra "predestinados" em Efésios 1:5 como "marcados de antemão." Você já havia percebido que antes da fundação do mundo fora marcado? Você não pode escapar da mão de Deus. Tentei um bom número de vezes, mas nunca consegui! Quanto mais tentava, mais forte Ele me agarrava. Aonde você irá para escapar de Deus? Aonde quer que você vá, ali está Ele (SI 139:7-10). Algumas vezes pode ser que você tenha se aborrecido por vir às reuniões da igreja e decidiu ir a algum outro lugar. Quando chegou lá, o Senhor Jesus estava lhe esperando! Isso mostra que você foi marcado.
 
A CRIAÇÃO DE DEUS
Após o bom prazer de Deus, após o Seu plano (arranjo, administração, economia), após Sua escolha e Sua predestinação, Ele veio à Sua criação. O registro da criação do homem por Deus é muito breve. Há somente dois versículos. Gênesis 1:26 é a própria palavra de Deus, e o versículo  seguinte  é  o  registro de  Moisés.   Nesses  dois versículos estão três pontos cruciais.
 
O Conselho da Trindade Divina
Primeiro, o versículo 26 indica a Trindade divina. A palavra Elohim (Deus) é plural, e na Sua própria fala Deus usa as palavras "Façamos" e "nossa": "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança." Os pronomes referentes a Deus estão no plural. É fácil perceber que isso implica na Trindade divina.
Alguns mestres têm salientado que quando Deus disse: "Façamos o homem...", isso era uma conversa em uma reunião. A Trindade divina teve uma reunião para considerar a criação do homem. Ao criar outras coisas, não houve tal conversa registrada. A criação do homem, então, deve ter sido crucial. Criar o céu e a terra não foi tão importante como a criação do homem. O homem é o centro do propósito de Deus na criação.
A Criação do Homem à Imagem de Deus, Conforme a Sua Semelhança
O segundo ponto é que somente o homem foi feito à imagem de Deus e conforme a Sua semelhança. O tigre não foi feito à imagem de Deus, nem o elefante foi feito con­forme à Sua semelhança. Gênesis 1:26 diz: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança."
Imagem refere-se ao ser interior; semelhança refere-se à expressão exterior. Você pode referir-se a Colossenses 1:15, que fala de Cristo como a "imagem do Deus invisível." Como pode um Deus invisível ter uma semelhança exterior? Não posso explicar isso. Isso é um mistério. É como em João 1:14, que diz que Deus como a Palavra tornou-se carne. Em Gênesis 18, entretanto, Ele apareceu a Abraão como um homem. Abraão lavou Seus pés e preparou uma refeição para Ele (vs. 4-8). Ele apareceu novamente em Juizes 13, dessa vez à mãe de Sansão. Ela viu esse Homem, que, após falar-lhe e a seu marido, ascendeu (v. 20). Eis aqui uma ascensão antes de Atos 1! Como podemos conciliar essas porções do Velho Testamento com o Novo? Não podemos.
É igualmente uma maravilha, um mistério, que Deus tenha criado o homem à Sua imagem. Em 2 Coríntios 3:18 diz que estamos sendo transformados à Sua imagem. Em Romanos 12:2 diz que somos "transformados pela renovação da mente." Esses versículos indicam que a imagem é algo in­terior, composta da mente, emoção e vontade. O órgão que pensa, o órgão que ama e o órgão que decide compõem o ser interior. O homem é feito de modo maravilhoso. Mesmo depois da queda, o homem ainda é maravilhoso (SI 139:14). Somos seres maravilhosos porque fomos criados por Deus desta forma.
 
Para a Expressão de Deus
O terceiro ponto é que o homem foi feito para expressar Deus. Tanto imagem como semelhança denotam expressão. Quando Deus criou o homem à Sua imagem e à Sua semelhança, Ele não colocou a vida divina dentro dele. A vida divina não foi infundida ao homem criado até que Jesus por nós veio, morreu e foi ressuscitado. Agora, quem quer que creia Nele tem a vida eterna (Jo 3:16). Se temos o Filho, temos esta vida divina. Se não temos o Filho, não temos esta vida (1 Jo 5:12). A vida de Deus não entrou no homem criado até o cumprimento da plena redenção de Cristo.
 
De Três Partes
Deus criou o homem com a intenção de um dia entrar nele e de que o homem fosse capaz de recebê-Lo. Romanos 9 revela que o homem criado por Deus é um vaso com o propósito de conter algo. Assim como um copo é um recipiente para conter água, também o homem foi feito um recipiente para conter Deus.
Gênesis 2:7 nos diz como Deus fez o homem. Primeiro, Ele fez o corpo do homem do pó da terra. Em seguida, Ele soprou o fôlego de vida para dentro das narinas desse corpo de barro, e o homem tornou-se uma alma vivente. Aqui neste versículo há o corpo, a alma e o fôlego de vida. A palavra em hebraico para fôlego em Gênesis é traduzida por "espírito" em Provérbios 20:27, o qual diz: "O espírito do homem é a lâmpada do Senhor." Isso indica que o próprio fôlego de vida soprado para dentro de Adão era o espírito humano. Dois materiais, então, foram usados para formar o homem: o pó e o fôlego de vida. O pó tornou-se o corpo, e o fôlego de vida tornou-se o espírito. Quando estas duas coisas juntaram-se um subproduto surgiu: a alma. Assim, Paulo nos diz em 1 Tessalonicenses 5:23 que o ser humano é de três partes: espírito, alma e corpo.
Gênesis 1 nos diz que Deus criou o homem à Sua própria imagem e semelhança; foi assim para que ele pudesse conter Deus. Um recipiente deve ser do mesmo formato da coisa que ele conterá. Se algo é quadrado, você não faria um recipiente redondo para ele. Se algo é redondo, você não faria um recipiente quadrado para ele. O formato do recipiente é feito de acordo com o formato do conteúdo. O homem foi feito à imagem e semelhança de Deus.
Gênesis 1 nos diz que todas as coisas criadas produziram frutos segundo a sua espécie (vs. 11, 12, 21, 24, 25). A macieira produz frutos segundo a sua espécie, e o tigre segundo a sua espécie. O homem foi feito segundo a espécie de Deus. Se duas árvores estão enxertadas juntas, elas devem ser da mesma espécie; do contrário, o enxerto não funcionará. Aleluia! O homem é da mesma espécie de Deus! Porque fomos criados segundo a espécie de Deus, com a intenção de que fôssemos enxertados juntos com Deus, esse "enxerto" funcionará e podemos tornar-nos um com Deus.
 
A Parte Crucial — O Espírito do Homem
Deus criou o homem com um espírito, embora na época da criação ele não tivesse a vida de Deus. Assim, a Bíblia nos diz: "Há um espírito no homem" (Jó 32:8). Vinte e dois anos atrás, quando comecei a ministrar neste país, dei mensagem após mensagem sobre o espírito humano. Muitos santos me disseram que eles nunca haviam escutado isso antes. Tanto Andrew Murray como a senhora Jesse Penn-Lewis en­fatizaram o espírito. Deus nos criou não somente com uma boca e um estômago para receber alimento; Ele também nos criou com um espírito para recebê-Lo.
Dentro de um rádio existe um receptor. Sem o receptor, nenhuma das ondas radiofônicas que estão no ar poderia ser recebida pelo rádio. O nosso receptor para receber Deus é o nosso espírito. O Senhor Jesus disse em João 4:24: "Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade." Somente espírito pode adorar Espírito. Porque o próprio Deus é Espírito, Ele criou-nos com um espírito com um propósito definido para que pudéssemos adorá-Lo. Adorá-Lo inclui contatá-Lo, conver­sar com Ele e recebê-Lo. Ele vem para dentro de nós por entrar no nosso espírito.
Romanos 8:16 diz que o Espírito e o nosso espírito tes­tificam juntos. Isso quer dizer que o Espírito de Deus, ao crermos no Senhor Jesus, entra no nosso espírito. Em 1 Coríntios 6:17 diz: "Aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele." No começo da Bíblia Deus preparou um homem à Sua imagem, conforme à Sua semelhança, e com um espírito para recebê-Lo, contê-Lo e expressá-Lo. Entretanto, na época da criação o homem não recebeu Deus, o Espírito divino, para dentro de seu espírito.
Todo ser humano tem a imagem de Deus, a semelhança de Deus e um espírito humano. Quando o evangelho nos alcançou, ele nos tocou a consciência, que é uma parte do espírito (Rm 8:16; 9:1). Por causa daquele toque nosso espírito foi estimulado e nos arrependemos. Abrimos nosso ser interior para arrepender-nos, crer e receber o Senhor Jesus; Ele veio para dentro de nós e fomos salvos. Muitos pregadores do evangelho perguntam: "Você quer se abrir e convidar Jesus para entrar em seu coração?" Não há nada de errado com isso, mas para experimentar Cristo como nossa vida depois de sermos salvos, precisamos saber que Ele está agora em nosso espírito (2 Tm 4:22).
O propósito de Deus é a filiação, e a filiação é cumprida pelo dispensar do que Deus é para dentro de nós como nossa vida. Esse dispensar está em nosso espírito. João 3:6 diz: "O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito." Aqui estão novamente os dois espíritos. Não fomos regenerados na mente, nem no corpo. Nicodemos pensou que nascer de novo fosse tornar a nascer no corpo físico, mas o Senhor Jesus o corrigiu. Nascer de novo é nas­cer de Deus o Espírito, em nosso espírito, não de nossos pais. Mesmo se pudéssemos voltar ao ventre de nossa mãe e nas­cer fisicamente cem vezes, nós ainda seríamos carne. Temos de nascer no nosso espírito do Espírito divino.
Zacarias 12:1 nos diz que existem três coisas cruciais na criação de Deus: o céu, a terra e o espírito do homem. Ali diz que Jeová é Aquele que "estendeu os céus, fundou a terra e formou o espírito do homem dentro nele." Quão grande é o nosso espírito! O céu é para a terra. Sem o céu, a terra não poderia ter nada orgânico. A terra é para o homem, e o homem é para Deus. Para o homem ser para Deus, ele precisa de um receptor. Esse receptor é nosso espírito humano. Louvado seja o Senhor por estarmos aqui sob o plano de Deus e em Seu plano; por termos sido feitos por Ele à Sua imagem e semelhança; por termos um espírito para recebê-Lo; e por Ele, como o Espírito divino, ter entrado em nosso espírito humano, fazendo-nos Seus filhos para Sua expressão! Este é Seu plano.


Capítulo Dois
A REDENÇÃO DE CRISTO
 
Leitura da Bíblia: Jo 1:14; Hb 2:14; Rm 8:3; 2 Co 5:21; Jo 3:14; 1 Pe 2:24; 1 Co 15:3; Hb 9:28; Rm 6:6; Gl 2:20; Ef 2:15; Jo 12:24, 31; 19:34; 7:39; Lc 24:26; At 13:33; Rm 8:29; Hb 2:11, 12; 1 Pe 1:3; Ef 2:6; 1 Co 15:45; 2 Co 3:17,18; Jo 20:22; Ef 1:20, 21; At 2:36; Ef 1:22, 23; At 2:33
 

Deus criou o céu e a terra com o homem como o cabeça e o centro. Então o homem caiu. Aos olhos de Deus, a queda do homem envolveu toda a criação. Para redimir essa criação caída, Deus veio no Filho.
Redenção não foi um pensamento posterior. Ela foi preordenada por Deus. Em 1 Pedro 1:19, 20 nos diz que o Redentor, Cristo, era preconhecido por Deus antes da fundação do mundo. Neste versículo, "mundo" refere-se a todo o universo. Antes da fundação do universo, Deus sabia que o homem cairia. Assim, Deus preordenou o Filho, Cristo, para ser o Redentor. Podemos ver nisso que a redenção de Deus não foi acidental.
Mais adiante, Apocalipse 13:8 diz que o Cordeiro, isto é, o Redentor, Cristo, foi imolado "desde a fundação do mundo." Desde o tempo em que a criação veio à existência, aos olhos de Deus, Cristo, como o Cordeiro ordenado por Deus, foi imolado. Aos nossos olhos, Cristo foi crucificado a menos de dois mil anos atrás. Mas, à vista de Deus, Ele foi imolado desde o dia em que a criação veio à existência, por­que Deus preconhecia que Sua criação cairia.
Esses versículos mostram que a redenção de Deus não era um pensamento posterior, mas algo ordenado, planejado, e preparado por Deus na eternidade passada. Como devemos valorizar este fato acerca da redenção que desfrutamos em Cristo!
 
DEUS ENCARNADO
O primeiro passo no cumprimento da redenção de Deus foi a encarnação. Foi certamente uma coisa maravilhosa para Deus vir para dentro do homem e nascer da humanidade por meio de uma virgem. O nosso Deus tornou-se um homem! Na criação, Ele era o Criador. Mas embora tivesse criado todas as coisas, Ele não entrou em nenhuma das coisas que Ele criara. Mesmo ao criar o homem, Ele somente soprou o fôlego de vida para dentro dele (Gn 2:7). Ele ainda estava fora do homem. Seu sopro, de acordo com Jó 33:4, deu vida ao homem; entretanto, Ele próprio não veio para dentro do homem. Até a encarnação, Ele estava separado do homem. Mas com a encarnação, Ele pessoalmente entrou no homem. Ele foi concebido e então permaneceu no ventre da virgem por nove meses, após o que Ele nasceu.
 
A Palavra Tornando-se Carne
De acordo com João 1:14, Ele tornou-se não somente um homem; Ele tornou-se carne. A carne nesse versículo refere-se ao homem depois da queda. O homem em Gênesis 1 e 2 não havia caído, mas depois, em Gênesis 3, ele caiu. A palavra carne, referindo-se ao homem depois da queda, sempre possui uma conotação negativa. Nenhuma carne pode ser justificada perante Deus por obras (Rm 3:20). Carne refere-se ao homem caído, e Cristo, como o Filho de Deus, tornou-se um homem. Ele tornou-se carne.
Na Semelhança da Carne do Pecado
Eu não quero dizer que Ele tornou-se um pecador. A Bíblia é muito cuidadosa sobre esse assunto. Se a Bíblia con­tivesse somente João 1:14, poderíamos pensar que Ele se tornou uma pessoa pecaminosa. Mas a Bíblia também contém Romanos 8:3, que diz que Deus enviou Seu Filho "na semelhança da carne do pecado". Cristo tornou-se carne, mas Ele estava somente na semelhança da carne do pecado. Não havia pecado em Sua carne. Ele tinha somente a semelhança, não a natureza pecaminosa, da carne. Paulo compôs esta frase com três palavras: semelhança, carne e pecado. Dizer somente carne do pecado indicaria carne pecaminosa. Louvado seja o Senhor que a Escritura acrescenta "em semelhança", indicando que na natureza humana de Cristo não havia pecado, mesmo que aquela natureza possuísse a semelhança, a aparência da carne do pecado. Mais ainda, Paulo não diz que Deus enviou Seu Filho na semelhança da carne e parou aí. Ele acrescenta "do pecado". Semelhança denota fortemente que a humanidade de Cristo não tinha pecado, mas que Sua humanidade ainda estava de alguma maneira relacionada ao pecado.
Em outro versículo, em 2 Coríntios 5:21, Paulo diz que Cristo "não conheceu pecado". Isso quer dizer que Ele não tinha pecado. Todavia, em 2 Coríntios 5:21 também diz que Aquele que não tinha pecado foi feito pecado por Deus. A nossa mente não pode entender isso. Se as Escrituras não fossem escritas desta forma, pareceria herético dizer que Cristo foi feito pecado; mas Cristo foi feito pecado por nós como nosso substituto total. Se isso não tivesse acontecido, não poderíamos ter sido salvos. "Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós." Aquele a quem Deus fez pecado, não conheceu pecado.
Esse problema está retratado no Velho Testamento no tipo da serpente de bronze, descrito em Números 21. Quan­do os filhos de Israel pecaram contra Deus, eles foram picados por serpentes e morreram. Moisés buscou a Deus por eles, e Deus disse a ele para fazer uma serpente de bronze e erguê-la numa haste. Quem quer que olhasse para a serpente de bronze viveria, e muitos olharam (vs. 6-9).
Então em João 3, o Senhor Jesus falou a Nicodemos acerca da regeneração. Nicodemos era um mestre da Bíblia (v. 10) e ensinava o Velho Testamento, especialmente o Pentateuco. "Nicodemos disse: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?" (v. 4). O Senhor quis dizer que, se ele pudesse voltar ao ventre materno e tornar a nascer, ainda seria carne: "O que é nascido da carne, é carne" (v. 6). Nas­cer de novo não é nascer uma segunda vez da carne, mas nascer do Espírito. "O que é nascido do Espírito, é espírito" (v.6).
Nicodemos queria saber como seriam essas coisas. Então o Senhor Jesus disse a ele em um tom de repreensão: "Tu és mestre em Israel, e não compreendes estas coisas?" (v. 10). Ele, em seguida, citou a Nicodemos a passagem de Números 21: "E do modo por que Moisés levantou a ser­pente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna" (vs. 14,15).
Esse retrato indica claramente que a serpente de bronze possui somente a aparência, a semelhança da serpente, mas não a sua natureza venenosa. Isso corresponde à palavra de Paulo "na semelhança da carne do pecado".
Quando Cristo morreu na cruz, Ele não somente era um Cordeiro aos olhos de Deus, mas também uma serpente. Esses aspectos de Cristo estão, ambos, em João. Em João 1:29 há referência ao Cordeiro de Deus, e 3:14, ao Filho do homem, Cristo, erguido como a serpente de bronze no deser­to. Quando Cristo, nosso Redentor, estava sobre a cruz, por um lado, Ele era o Cordeiro de Deus para levar embora o nosso pecado; por outro lado, Ele era uma serpente. A Pala­vra Santa nos diz que quando Cristo morreu na cruz, aos olhos de Deus Ele era como uma serpente de bronze. En­fatizo isso porque precisamos conhecer que tipo de redenção o Senhor Jesus cumpriu por nós.
A fim de cumprir uma redenção plena, Ele como c Filho de Deus tornou-se carne. A Palavra encarnou-se. João, porém, não disse que a Palavra tornou-se um homem; ele disse: "A Palavra se fez carne". No tempo na encarnação, "carne" era um termo negativo. Mas devemos ser cuidadosos ao dizer isso. A serpente certamente é negativa, mas esta ser­pente é uma serpente de bronze. Ela possui somente a aparência de uma serpente; ela não tem a sua natureza. Você acha que, quando Cristo foi feito pecado, Ele tinha natureza pecaminosa? Absolutamente não!  É por isso que Paulo modifica sua palavra dizendo: "aquele que não conheceu pecado ". Mesmo que Ele tenha sido feito pecado por Deus, Ele não tinha pecado Nele e não conheceu pecado. O nosso Senhor é um Redentor maravilhoso. A Bíblia nos diz que Deus tornou-se um homem na semelhança da carne caída e pecaminosa.
 
Participando da Carne e Sangue do Homem
Encarnação também tem um lado positivo. Ela trouxe Deus para dentro do homem. Ela fez Deus e o homem um. Aproximadamente dois mil anos atrás, houve um Homem nesta terra que era uma combinação de Deus e homem. Jesus Cristo era somente homem? Ele era somente Deus? Ele era tanto Deus como homem. Muitos mestres da Bíblia chamam-No o homem-Deus. Ele não era meramente um homem de Deus, mas um homem-Deus. Ele era o Deus completo e um Homem perfeito.
De acordo com a revelação genuína da Bíblia, em tal encarnação, nem a natureza de Deus nem a natureza do homem foram perdidas e nem uma terceira natureza foi produzida. Cristo é um homem-Deus tanto com a natureza divina como com a natureza humana existindo Nele distinta­mente.
O nosso Redentor é um homem-Deus. Pela Sua encarnação para o cumprimento da redenção, Ele, como o próprio Deus, tomou a iniciativa de fazer-se um com o homem. Ele participou da carne e sangue do homem. Hebreus 2:14 nos diz: "Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também Ele, igualmente, participou." Se Ele não tivesse o sangue do homem, como Ele poderia ter derramado Seu sangue pelos pecados do homem? Sem derramamento de sangue não há perdão de pecados (Hb 9:22). Como seres humanos, precisamos do sangue humano para lavar os nossos pecados. Porque nosso Redentor participou do sangue do homem, Ele pôde derramar Seu sangue por nossos pecados.
 
Ainda com o Pai
Quando o Filho de Deus encarnou-se, Ele não deixou o Pai nos céus. Embora eu pensasse assim há mais de cinqüenta anos, gradualmente descobri, por estudar a Palavra, que o Filho e o Pai não podem ser separados. Eles são distintos, mas não separados. O próprio Filho nos diz claramente que Ele veio em nome do Pai (Jo 5:43) e que o Pai estava com Ele todo o tempo (Jo 16:32). Ele e o Pai são um (Jo 10:30; 17:22).
Como cristãos, cremos que há somente um Deus. Crer no triteísmo, que há três Deuses, é uma grande heresia. Temos somente um Deus, todavia nosso Deus é triúno. Ele é três em Sua Divindade: o Pai, o Filho, e o Espírito. Todavia Ele é um Deus. Não temos como conciliar isso. Entretanto, conhecemos o fato manifestado de que Deus é triúno, que Ele é três-um.
O plano de Deus é principalmente a obra do Pai, Sua redenção é principalmente a obra do Filho e Sua aplicação é principalmente a obra do Espírito. O Pai planejou, o Filho redimiu e o Espírito aplica.
Os três são distintos mas não separados. Quando o Filho veio, o Pai veio com Ele. Quando o Espírito veio, o Filho e o Pai vieram (Jo 14:17, 23). Não cremos no modalismo, uma heresia que diz que quando o Filho veio, o Pai deixou de exis­tir, e então quando o Espírito veio, o Filho deixou de existir. Cremos que Deus é três-um, o Pai, o Filho e o Espírito como um Deus coexistindo e coinerindo de eternidade a eter­nidade.
 
CRUCIFICADO
A encarnação foi maravilhosa e a crucificação é maravi­lhosa. Não temos palavras para explicar a encarnação na totalidade, nem podemos explicar totalmente o fato da morte de Cristo.
 
Carregando os Nossos Pecados
Na cruz, Cristo carregou os nossos pecados. Três versículos são muito claros a este respeito: 1 Pedro 2:24, 1 Coríntios 15:3 e Hebreus 9:28. Todos estes versículos dizem que Cristo carregou os nossos pecados. De acordo com Isaías 53:6, quando Cristo estava na cruz, Deus tomou todos os nos­sos pecados e os colocou sobre este Cordeiro de Deus.
Se ler nos quatro Evangelhos a respeito da morte de Cristo, você verá que Ele foi crucificado das nove horas da manhã, a hora terceira (Mc 15:25), até às três horas da tarde, a hora nona (Mc 15:33; Mt 27:46). Entre estas seis horas houve o meio-dia, a hora sexta (Mc 15:33). O meio-dia dividiu estas seis horas em dois períodos de três horas cada. A perseguição humana ocorreu nas três primeiras horas. O homem pregou-O na cruz, escarneceu Dele e afligiu-O de toda maneira possível. Então, nas últimas três horas, Deus veio para julgá-Lo (Is 53:10). Isso é demonstrado pela escuridão que veio sobre toda a terra ao meio-dia. Deus colocou todos os pecados da humanidade sobre Ele.
 
Feito Pecado por Nós
Nas últimas três horas, aos olhos de Deus, Cristo foi feito pecado. Foi, então, na cruz que Deus condenou o pecado na carne de Cristo. Romanos 8:3 diz que Deus, man­dando Seu próprio Filho na semelhança da carne do pecado (como a serpente de bronze na forma de uma serpente — Jo 3:14), condenou o pecado na carne. O pecado foi condenado. O pecado foi julgado na cruz. Cristo não somente carregou os nossos pecados, como foi feito pecado por nós (2 Co 5:21) e foi julgado por Deus uma vez por todas.
 
Com o Nosso Velho Homem e Toda a Velha Criação
Ainda mais, quando Cristo foi crucificado, todos Seus crentes foram crucificados com Ele (Gl 2:20). Quando Ele se encarnou, Ele tomou-nos sobre Si. Ele vestiu sangue e carne.
Portanto, quando Ele foi crucificado, fomos crucificados com Ele. Do ponto de vista de Deus, antes de nascermos, já estávamos crucificados em Cristo. Quando Cristo foi crucificado, não somente os nossos pecados foram tratados e nem somente o nosso pecado foi tratado; nós mesmos fomos crucificados. Assim, Romanos 6:6 diz: "Foi crucificado com Ele o nosso velho homem".
Além disso, toda criação também foi crucificada ali. Quando Cristo morreu, o véu do templo rasgou-se de alto a baixo (Mt 27:51). De alto a baixo indica que isso não foi um feito do homem, mas um feito de Deus, do alto. Deus rasgou aquele véu em duas partes. No véu havia querubins bordados (Ex 26:31). De acordo com Ezequiel 1:5, 10 e 10:14, 15, querubins eram seres viventes. Os querubins no véu, então, indicavam os seres viventes. Sobre a humanidade de Cristo estavam todas as criaturas. Quando o véu foi rasgado, todas as criaturas foram crucificadas. Por isso podemos ver que a morte de Cristo foi todo-inclusiva. Ela tratou os nossos pecados, o nosso pecado, o nosso eu, o nosso velho homem e toda a velha criação. Pecados, pecado, homem c toda a criação foram tratados na cruz.
 
Abolindo a Lei dos Mandamentos na Forma de Ordenanças
Em Efésios 2:15 Paulo nos diz que por Sua morte na cruz, Cristo aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças. No Velho Testamento havia muitas ordenanças. A principal era a circuncisão, que dividia os judeus dos gen­tios. Os judeus até usavam o termo "incircuncisão" ao referir-se aos gentios, enquanto consideravam-se a circuncisão. Circuncisão, portanto, era uma marca de separação. Os judeus também guardavam o sétimo dia, outra ordenança que os fazia diferentes dos gentios. Ambas ordenanças Cristo aboliu na cruz (Cl 2:14, 16).
Outras ordenanças dos judeus eram os regulamentos de dieta. Em Atos 10, entretanto, enquanto Pedro estava orando no eirado, uma visão veio a ele (vs. 9-16). O Senhor disse a
Pedro para comer os animais que ele considerava comuns e imundos. Assim, circuncisão, o sábado e os regulamentos de dieta foram totalmente abolidos. Essas ordenanças tinham sido uma parede de separação forte e alta entre os judeus e os gentios, mas agora ela foi derrubada. Não há mais ne­nhuma separação. Os judeus e os gentios podem ser edifícados juntos como o Corpo de Cristo.
As ordenanças foram abolidas, mas e quanto às diferenças entre as raças, tais como entre negros e brancos? Na redenção completa de Cristo todas essas diferenças também foram abolidas. Ele pôs de lado toda a inimizade. Muitos ainda não vivem de acordo com isso. Os judeus ainda guardam a circuncisão, o sábado e os regulamentos de dieta. Até mesmo muitos cristãos ainda têm inimizade.
Por meio de Sua morte única, Cristo levou embora todos os nossos pecados e o pecado; Ele crucificou o velho homem, terminou a velha criação e aboliu as diferenças entre as raças. Agora não estamos em nós mesmos — estamos em Cristo. Nele não há pecados. Nele não há o pecado. Nele não existe o velho homem e nem a velha criação. A igreja é simples­mente Cristo (1 Co 12:12). O próprio conteúdo, o constituinte da igreja é Cristo (Cl 3:10, 11). No novo homem não há grego nem judeu, nem posição social, nem distinção de raças, nem diferenças de nacionalidades; Cristo é tudo e em todos (Cl 3:11). Em Cristo, os pecados, o pecado, o velho homem, a velha criação e todas as ordenanças são anulados.
Destruindo Satanás e Julgando o Mundo
A carne foi crucificada com Cristo. Porque a carne está relacionada a Satanás, ao crucificar a carne Cristo destruiu Satanás. É por isso que Hebreus 2:14 diz que pela Sua morte Ele destruiu o diabo. Por João 12:31 sabemos que quando Cristo foi crucificado, Ele expulsou Satanás, o governador do mundo, e julgou o mundo.
Por volta de 1935 ouvi uma mensagem dada pelo irmão Watchman Nee em Xangai. Ele disse que, se fosse a um crente jovem e perguntasse a ele quem morreu na cruz, ele diria que seu Redentor tinha morrido na cruz tanto pelos seus pecados como pelo seu pecado. Se fosse a outro mais avançado e perguntasse a ele quem havia morrido na cruz, ele diria que Cristo morreu lá, carregando seus pecados, o pecado e ele próprio (Gl 2:20). Alguém ainda mais avançado na vida cristã lhe diria que Cristo morreu na cruz pelos seus pecados, pelo pecado e por ele próprio com toda a criação. Uma quinta categoria de cristãos diria que Cristo morreu na cruz não somente pelos seus pecados, pelo pecado e por eles próprios com toda a criação, mas também para destruir Satanás e julgar o mundo.
Mais tarde comecei a ver que havia a necessidade de um avanço posterior em perceber a morte de Cristo, isto é, a abolição das ordenanças. Todas as ordenanças — os hábitos, costumes, tradições e práticas entre a raça humana — foram abolidas na cruz. A crucificação de Cristo foi a terminação universal de todas as coisas negativas. Aleluia por tal terminação!
 
Liberando a Vida Divina
A morte de Cristo não somente foi uma morte terminadora, mas também liberadora. Sua morte liberou a vida divina escondida dentro Dele (Jo 1:4). Em João 12:24 diz que um grão de trigo permanece só a menos que seja plantado na terra. Se ele é plantado na terra, ele morre e então cresce para tornar-se muitos grãos. Isso ilustra a morte liberadora de Cristo. Sua morte não somente termina todas as coisas negativas; ela também libera vida divina — a única coisa positiva em todo o universo.
Quando Cristo morreu, um soldado traspassou Seu lado e saiu sangue e água (Jo 19:34). Estes são símbolos. Sangue significa redenção, e água significa vida. Sangue e água são símbolos dos dois aspectos da morte de Cristo. O aspecto negativo é a redenção, e o aspecto positivo é o liberar da vida divina. Ele morreu, e a vida dentro Dele foi liberada. Por Sua morte não somente o sangue redentor fluiu; a vida divina também fluiu Dele. Hoje, quando cremos Nele, recebemos o sangue e obtemos a água viva, a vida divina. Recebemos redenção e obtemos vida eterna.
 
RESSURRETO
No terceiro dia depois de Sua morte, Cristo ressuscitou. Algumas coisas maravilhosas foram executadas por meio de Sua ressurreição.
 
Glorificado na Vida Divina
Primeiramente, em Sua ressurreição Cristo foi glorificado. Quando uma semente de cravo é plantada, ela morre sob a terra, e então cresce. Quando floresce, aquele florescer é sua glorificação. Jesus foi a única semente da vida divina. Antes de Sua morte, a vida divina estava oculta dentro Dele. Sua humanidade era a casca. Quando Sua humanidade foi quebrada na cruz, a vida divina saiu de dentro Dele, e Ele foi glorificado naquela vida (Jo 7:39; Lc 24:26). A entrada de Cristo na ressurreição foi como o florescer da semente de cravo: Ele foi glorificado.
 
Tornando-se o Filho Primogênito de Deus com Muitos Irmãos
Em segundo lugar, em ressurreição Cristo nasceu como o Filho primogênito de Deus. Poucos cristãos percebem que para Jesus Cristo a ressurreição foi um nascimento. Encarnação foi Seu nascimento como um homem, mas ressurreição foi Seu nascimento em Sua humanidade como o Filho primogênito de Deus (At 13:33).
Cristo, como o Filho de Deus, tem dois aspectos. Antes da Sua ressurreição Ele era o Filho unigênito (Jo 1:14; 3:16); então, em ressurreição Ele nasceu de Deus como o Filho primogênito. Quando Cristo se encarnou, Ele vestiu a humanidade; entretanto, Sua humanidade não era divina. Foi por meio de Sua morte e ressurreição que Sua humanidade foi levada para dentro da divindade. Assim, Atos 13:33 nos diz que em Sua ressurreição Ele nasceu. O Filho unigênito tornou-se o Filho primogênito (Rrn 8:29).
Em Efésios 2:6 nos diz que na ressurreição de Cristo nós, Seus crentes, também fomos ressuscitados. Quando Ele foi crucificado, nós fomos crucificados. Quando Ele foi res­suscitado, nós fomos ressuscitados. Em Sua ressurreição Ele nasceu como o Filho primogênito de Deus, e nós também nascemos como os muitos filhos de Deus. Ele tornou-se o Primogênito, e nós nos tornamos Seus muitos irmãos (Jo 20:17; Hb 2:11,12).
A Bíblia deixa claro que, antes de nascermos, nós fomos crucificados com Cristo e ressuscitados com Ele. Na ressurreição Ele nasceu como o Filho primogênito de Deus, e em Sua ressurreição nós também nascemos como os muitos Filhos de Deus (1 Pe 1:3). Ele tornou-se o Primogênito entre nós, Seus muitos irmãos.
 
Tornando-se o Espírito que Dá Vida
Em ressurreição Cristo também tornou-se Espírito que dá vida (1 Co 15:45). Este versículo em 1 Coríntios é um dos versículos mais negligenciados na Bíblia. Na ressurreição, o tema de 1 Coríntios 15, Cristo como o último Adão, por meio de Sua morte e ressurreição, tornou-se Espírito que dá vida. Muitos cristãos consideram Cristo como seu Redentor, mas poucos consideram-No como um Espírito que dá vida. Mas nosso Redentor é o Espírito que dá vida na ressurreição. Pela Sua morte Ele nos redimiu; na Sua ressurreição Ele infunde-se para dentro de nós como vida.
Depois de Sua ressurreição e na Sua ressurreição, Ele tornou-se o Cristo pneumático. O Cristo pneumático é idên­tico ao Espírito. É por isso que em 2 Coríntios 3:17 diz: "O Senhor é o Espírito". Hoje, em ressurreição, o próprio Cris­to, nosso Redentor, é idêntico ao Espírito que dá vida a nós.
 
Soprando para dentro de Seus Crentes
João 20 revela que depois de Sua morte e em Suaressurreição, Cristo voltou. Ele retornou de uma forma maravilhosa. Os discípulos estavam numa casa com as portas fechadas com medo dos judeus (v. 19). Repentinamente, Jesus estava ali dizendo a eles: "Paz seja convosco". Ele não os ensinou e não lhes deu nenhum sermão como fez no monte. Ele simplesmente soprou para dentro deles e disse-lhes: "Recebei o Espírito Santo" (v. 22), o Sopro Santo, o Pneuma Santo.
Cristo apareceu sem bater na porta porque em ressurreição Ele é o Espírito. Ele tinha um corpo ressurreto, que é chamado corpo espiritual (1 Co 15:44; Jo 20:27). Não podemos explicar isso, mas isso é um fato revelado na Bíblia. Desde o tempo de Sua ressurreição, Cristo nunca deixou os crentes. Aqui e ali Ele aparecia a eles, mas estava sempre com eles.
Considere, então, o que está incluído em Sua ressurreição: Ele foi glorificado, tornou-se o Filho primogênito de Deus, fazendo de todos nós Seus irmãos, e Ele tornou-se o Espírito que dá vida soprado para dentro de nós para estar conosco para sempre (Jo 14:16-20).
 
EXALTADO
Após Sua ressurreição, em Sua ascensão Cristo foi gran­demente exaltado (Ef 1:20, 21). Ele foi feito Senhor e Cristo (At 2:36), e a Ele foi dado ser Cabeça sobre todas as coisas para a igreja, a qual é o Seu Corpo (Ef 1:22, 23). O nosso Cabeça, Cristo, não é somente nossa Cabeça, mas é Cabeça sobre todas as coisas para nós.
Em Sua ascensão Cristo derramou o Espírito Santo sobre Seus crentes (At 2:33). Este foi o batismo genuíno do Espírito que formou o Corpo de Cristo (1 Co 12:13). Em Sua ressurreição Ele soprou o Espírito Santo para dentro de Seus discípulos; então, em Sua ascensão, Ele derramou Seu Espírito sobre Seus crentes. Isso quer dizer que, dentro dos discípulos e sobre eles havia somente o Espírito. Dentro es­tava o Espírito e fora estava o Espírito. Dentro estava o Espírito que enche interiormente, e fora estava o Espírito derramado. Isso foi cumprido uma vez por todas e é um fato eterno do qual participamos.
Encarnação é um fato, e crucificação é um fato, incluin­do todas as realizações do Senhor na cruz. Ressurreição também é um fato. Em Sua ressurreição, Cristo tornou-se o Primogênito, fazendo-nos todos Seus irmãos, e Ele também tornou-se o Espírito que dá vida soprado para dentro de nós. Ainda mais, a ascensão é um fato. Em Sua ascensão Cristo foi feito Cabeça sobre todas as coisas, Ele foi feito Senhor e Cristo, e Ele derramou-se como o Espírito sobre todos nós. Agora estamos Nele. Ele está nos céus, e assim também nós (Ef 2:6). Ele está dentro de nós e sobre nós, e nós estamos Nele. Esta é a redenção completa de Cristo.
 
Capítulo Três
A APLICAÇÃO DO ESPÍRITO
 
Leitura da Bíblia: Gn 1:2; Jz 3:10; Lc 1:35; Jo 7:39; At 16:6, 7; Rm 8:2, 9; Fp 1:19; 1 Co 15:45; 2 Co 3:6, 17, 18; Ap 1:4; 4:5; 5:6; 2:7; 14:13; 22:17; Jo 14:17; 15:26; 16:13-15; 1 Jo 5:7; Jo 3:5, 6; 2 Co 1:21, 22; Ef 1:13; 4:30; 1 Pe 1:2; Rm 15:16; 1 Co 12:13
 
Oração: "Senhor, como Te agradecemos pela Tua pala­vra. Agradecemos-Te por esta reunião. Cremos que é de Tua soberania. Senhor, podemos vir a Ti em torno de Tua palavra. Que misericórdia e graça! Confiamos em Ti para entender a Tua palavra. Admitimos nossa insuficiência. Somos limitados — limitados no entendimento, limitados na elocução, até mesmo limitados no ouvir. Unge nosso ouvido e nossa mente. Unge a boca que fala. Que Tu possas falar em nosso falar. Gostamos de praticar ser um espírito Contigo, especialmente nesta hora de falar a Tua palavra. Senhor, purifica-nos com o Teu precioso sangue. Como Te louvamos porque, onde o Teu sangue está, ali está a rica unção. Confiamos em Tua unção. Buscamos a Ti desesperadamente por tal palavra misteriosa hoje a noite. Senhor, derrota o inimigo e afugenta todas as trevas deste salão. Visita cada ouvinte. Nós pedimos em Teu poderoso nome. Amém."
Já tratamos dos dois primeiros itens da revelação básica nas Escrituras Sagradas — o plano de Deus e a redenção de Cristo. Neste capítulo chegamos ao terceiro item — a aplicação do Espírito. Este é o item mais misterioso na revelação divina.
Podemos usar a impressão como uma ilustração da aplicação do Espírito. Na impressão existe primeiro o rascu­nho, o manuscrito. Este manuscrito é então datilografado numa página, da qual se faz uma matriz. Em seguida, a impressora, usando a matriz, produz quantas cópias desejarmos. Este último estágio, a produção de cópias, ilustra a aplicação do Espírito.
Cristo fez uma grande obra de "datilografia" do que Deus propôs em Seu plano. Ele encarnou-se e viveu na terra por trinta e três anos e meio. Então morreu na cruz, ressus­citou e ascendeu aos céus. Por meio de tal processo longo, da encarnação à ascensão, o Senhor Jesus fez a maravilhosa obra de "datilografia". Essa obra produziu uma "matriz". Agora o Espírito vem e aplica a nós o que Cristo fez. O Pai planejou, o Filho cumpriu e o Espírito veio para aplicar o que Cristo cumpriu de acordo com o plano do Pai.
Para que seja nítida a impressão, deve ser usado papel limpo. É por isso que a primeira coisa que o Espírito aplica a nós é o purificar do sangue precioso do Senhor Jesus (Hb 9:14). O Espírito nos purifica com o sangue redentor de Cris­to. Por meio do precioso sangue, fomos lavados e purificados. Agora somos papel puro, limpo, bom para essa impressão espiritual.
 
O ESPÍRITO POR TODA A ESCRITURA
Para entender a obra do Espírito em aplicar as realizações de Cristo, consideremos como o Espírito é gradualmente revelado por toda a Escritura.
 
O Espírito de Deus
A primeira vez que o Espírito de Deus é mencionado é em Gênesis 1:2. Este é Deus Espírito em Sua criação. O Espírito de Deus pairou por sobre as águas mortas para a criação de Deus.
 
O Espírito de Jeová
Depois de criar o homem, Deus permaneceu intima­mente envolvido com ele. Em seu relacionamento com o homem, o título de Deus é Jeová. É por isso que no Velho Testamento o Espírito de Deus é freqüentemente chamado de Espírito de Jeová. O Espírito de Jeová vinha sobre certas pessoas. Isso indica que o Espírito de Jeová tem a ver com Deus alcançando o homem (Jz 3:10; Ez 11:5). Os principais títulos usados para o Espírito de Deus no Velho Testamento são o Espírito de Deus e o Espírito de Jeová.
 
O Espírito Santo
Na encarnação, o Espírito de Deus foi chamado o Espírito Santo (Mt 1:18, 20; Lc 1:35). Andrew Murray, em sua obra prima O Espírito de Cristo, salienta que o título divino, "o Espírito Santo" não é usado no Velho Testamento. Em Salmos 51:11 e em Isaías 63:10,11 "Espírito Santo" deveria ser traduzido para "Espírito de santidade". Quando chegou o tempo de preparar o caminho para a vinda de Cristo e de preparar um corpo humano para Ele iniciar a dispensação do Novo Testamento, é que o termo "Espírito Santo" começou a ser usado (Lc 1:15, 35).
 
O Espírito Ainda Não Sendo
Agora chegamos a um ponto muito difícil. Em João 7:37, 38 o Senhor Jesus exclamou: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva." Em seguida, no versículo 39, João explica que o Senhor falou isto "com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito ainda não era (lit.), porque Jesus não havia sido ainda glorificado." João não diz o Espírito de Deus, o Espírito de Jeová, ou o Espírito Santo, mas "o Espírito". Ele diz mais adiante que quando Jesus estava ex­clamando ao povo, "o Espírito ainda não era". A versão J. E de Almeida diz, "o Espírito ainda não fora dado" (VRC), mas a palavra "dado" foi inserida; ela não está no texto grego. O Espírito de Deus estava em Gênesis 1, e o Espírito de Jeová vinha sobre os profetas no Velho Testamento. Por que, então, em João 7 o Espírito "ainda não era"?
Andrew Murray em seu livro O Espírito de Cristo indica que, antes da glorificação de Cristo, isto é, antes da Sua ressurreição (Lc 24:26), o Espírito de Deus tinha somente divindade. Mas quando Cristo foi ressuscitado , o Espírito de Deus tornou-se o Espírito do Jesus glorificado. Se Ele ainda fosse somente o Espírito de Deus, teria somente o elemento divino. A palavra de Murray quer dizer que o Espírito, ao tornar-se o Espírito de Jesus glorificado que veio após a ressurreição de Cristo, tem agora o elemento de huma­nidade.
 
O Espírito Composto
Quando jovem, fui ensinado que em Êxodo 30:22-30, o óleo da unção é um tipo do Espírito Santo. Mas depois de ter recebido esclarecimento pelo livro de Andrew Murray, voltei a estudar Êxodo 30. Esse óleo é composto de azeite de oliveira combinado com 4 especiarias: mirra, cinamomo, cálamo e cássia. O azeite de oliveira é um tipo do Espírito Santo, mas que são as quatro especiarias? Sabe-se que a mirra refere-se à morte de Cristo. Cinamomo deve indicar a doce eficácia daquela morte. Cálamo é um junco que cresce no pântano e projeta-se alto, no ar. Isso indica ressurreição. Cássia era usada nos tempos antigos como um repelente de insetos e especialmente de serpentes. Isso indica o poder da ressurreição de Cristo que prevalece contra Satanás.
Essas quatro especiarias são de três unidades. Mirra, quinhentos siclos. Cinamomo e cálamo, duzentos e cinqüenta siclos cada, e cássia, quinhentos siclos. Se o cordeiro é um tipo de Cristo e se o azeite de oliveira é um tipo do Espírito Santo, certamente essas quatro especiarias são também tipos a respeito de Cristo. As três unidades de quinhentos siclos cada devem referir-se à Trindade. A quantidade total de cinamomo e cálamo, sendo dividida em duas unidades de duzentos e cinqüenta cada, tipifica o segundo da Trindade "dividido" na cruz, assim como o véu foi rasgado de alto a baixo.
O número "um" do um him de azeite de oliveira significa o Deus único. O número quatro das quatro especiarias significa a criatura. Em Ezequiel e em Apocalipse há quatro seres viventes, referindo-se à criação de Deus (Ez 1:5, 10; Ap 4:6-9).
Por meio disso podemos perceber que esse óleo com­posto deve ser um tipo todo-inclusivo do Espírito composto referido em João 7:39. Isso quer dizer que o Espírito de Deus, como o elemento básico, foi combinado com a deidade, humanidade, morte e ressurreição de Cristo como as especiarias. Neste Espírito composto estão o Deus único, a Trindade, o homem, a criatura, a morte de Cristo, a doçura e eficácia de Sua morte, a ressurreição de Cristo e o poder de Sua ressurreição.
O Espírito era primeiramente o Espírito de Deus, pos­suindo somente a essência divina. Mas depois que Deus, no Filho, tornou-se um homem e morreu na cruz, passando pela morte e ressurreição, e entrando na ascensão, o Espírito tor­nou-se o Espírito de Jesus Cristo (Fp 1:19), composto da essência de Deus e da humanidade de Jesus em Sua morte e ressurreição. O Espírito não tem mais somente a essência divina, mas tem agora, em acréscimo, a humanidade de Jesus com a morte de Cristo, a eficácia de Sua morte, a ressurreição e o poder de Sua ressurreição.
Dos escritos sobre a vida interior, recebi ajuda em saber que fui crucificado antes de eu ter nascido (Gl 2:19b, 20). Aos olhos de Deus fomos crucificados antes de termos nas­cido. Como escolhidos de Deus, nascemos crucificados. A senhora Jesse Penn Lewis disse que todo cristão deve morrer para viver (Jo 12:24; 1 Co 15:31; 2 Co 4:11). Mas minha experiência foi que, quanto mais eu tentava morrer, mais vivo ficava. Um hino escrito por A. B. Simpson diz que existe uma pequena palavra que o Senhor deu: considerar. De acordo com Romanos 6:11, devemos considerar-nos mortos. Prati­quei o considerar-me, mas não funcionou. Quanto mais me considerava morto, mais vivo parecia! No livro de Watchman Nee, A Vida Cristã Normal, existe um capítulo que enfatiza o considerar. Esse livro é uma compilação de mensagens que o irmão Nee deu antes de 1939. Depois de 1939 ele começou a dizer às pessoas que não podemos experimentar a morte de Cristo revelada em Romanos 6 até que tenhamos a experiência do Espírito de Cristo em Romanos 8. A morte de Cristo em Romanos 6 pode ser experimentada somente por meio de Seu Espírito em Romanos 8. Em outras palavras, se não estamos no Espírito, considerar que estamos mortos não funciona.
Cristo é Cristo, e você é você; e a morte Dele não é sua morte a menos que você esteja ligado a Ele organicamente por meio do Espírito. No Espírito composto existem os elementos da morte de Cristo e de sua eficácia, prefigurados pela mirra e cinamomo. Quando estamos no Espírito, o Espírito composto, não necessitamos considerar-nos mortos, porque no Espírito existe o elemento da morte de Cristo.
Alguns medicamentos têm elementos que matam ger­mes. Se você tentar matar os germes por si mesmo, fracassará. Mas se toma um medicamento prescrito, um elemento naquele medicamento matará os germes por você. O Espírito composto hoje é uma dose todo-inclusiva. Um médico lhe dirá que a melhor dose é aquela que mata os ger­mes e nutre o paciente. Isso pode ser usado como uma ilustração do Espírito composto. No Espírito composto exis­tem a morte de Cristo, que é o poder que mata, e a ressurreição de Cristo, que é a fonte de nutrição da vida divina. Esses elementos que matam e que nutrem estão com­binados juntamente neste Espírito.
 
O Espírito de Jesus
O Espírito Santo é chamado de Espírito de Jesus em Atos 16:6, 7. Jesus era um homem que sofria perseguição. Como um evangelista, Paulo saía para pregar, e ele também sofria. Naquele sofrimento ele precisava do Espírito de Jesus porque no Espírito de Jesus há o elemento do sofrimento. Se vai a um país pagão para pregar o evangelho, você precisa do Espírito de Jesus para enfrentar a oposição e perseguição. A força do sofrimento para resistir à perseguição está no Espírito de Jesus.
 
O Espírito de Cristo
Em Atos 16, por causa da perseguição, Paulo precisou do Espírito de Jesus, mas em Romanos 8 em ressurreição há o Espírito de Cristo. Em Romanos 8:9,10 temos três títulos: o Espírito de Deus, o Espírito de Cristo, e Cristo. Estes três títulos são usados permutavelmente. Isso indica que o Espírito de Deus é o Espírito de Cristo, e o Espírito de Cristo é simplesmente o próprio Cristo. Estes três títulos são sinônimos. O Espírito Santo de Deus é não somente o Espírito de Deus, mas também o Espírito de Jesus que sofreu e o Espírito do Cristo ressurreto. Contanto que tenhamos tal Espírito, temos o poder do sofrimento para enfrentar a perseguição e o poder de ressurreição para viver uma vida ressurreta sobre o pecado e a morte (Rm 8:2).
 
O Espírito de Jesus Cristo
Em Filipenses 1:19 Paulo refere-se à "provisão do Espírito de Jesus Cristo". O suprimento abundante está com o Espírito de Jesus Cristo. Este Espírito guiou Jesus pela encarnação e por meio do viver humano na terra por trinta e três anos e meio. O Senhor Jesus viveu uma vida santa e sem pecado por muitos anos por meio do Espírito dentro Dele. O mesmo Espírito guiou Jesus por meio da morte e para dentro da ressurreição. Então o Espírito de Deus tornou-se o Espírito de Jesus Cristo. Por tal longo processo, os elementos da humanidade, do sofrimento e do viver humano, da crucificação de Cristo, de Sua ressurreição e mesmo de Sua ascensão foram totalmente combinados com este Espírito.
O Espírito que recebemos não é meramente o Espírito de Deus, possuindo somente o elemento divino. O Espírito que nós, cristãos, recebemos é o Espírito composto de divin­dade, humanidade, viver humano, sofrimento, crucificação, ressurreição e ascensão. Deus está no Espírito. A humanidade elevada de Jesus e Seu sofrer e viver humano também estão no Espírito. A morte, ressurreição e ascensão de Cristo estão todos neste Espírito. Deste modo, com este
Espírito está o suprimento abundante. Paulo pôde suportar perseguição e aprisionamento por causa do suprimento abundante do Espírito de Jesus Cristo. Esta provisão tornou-se sua salvação diária e pessoal. Mesmo acorrentado e em prisão ele ainda engrandecia Cristo e vivia Cristo (Fp 1:19-21a). Ele engrandecia Cristo, não por sua energia ou por sua própria força, mas pelo suprimento abundante do Espírito de Jesus Cristo.
 
O Espírito do Senhor
"O Espírito do Senhor" (2 Co 3:17) indica que a ascensão de Cristo está incluída no Espírito. "O Senhor" neste versículo refere-se ao Cristo crucificado, ressurreto e ascendido. Na Sua exaltação Ele foi feito Senhor (At 2:36).
Em 2 Coríntios 3:17 diz: "O Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade." Primeiramente, ele nos mostra que os dois são um, e, em segundo lugar, mostra que os dois ainda são dois. Da mesma forma, em João 1:1 diz: "No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus" (lit.). A palavra e Deus são um, todavia a Palavra estava com Deus, o que indica que Eles são dois.
 
O Espírito Idêntico ao Senhor
O Espírito é idêntico ao Senhor. No passado, o termo Cristo pneumático era usado em Cristologia. O Cristo pneumáíico indica que o próprio Cristo é o Espírito. Entretanto, não pensem que quando a Bíblia diz que o Se­nhor é o Espírito ela anula a distinção entre o Filho e o Espírito. Eles são um, todavia ainda dois. Eles são um, todavia ainda distintos.
Toda verdade na Bíblia tem dois lados. Com respeito ao Deus Triúno, se vocês permanecem no extremo do lado de um, vocês são modalistas. Se permanecem no extremo do lado de três, vocês são triteístas. Nós permanecemos na Palavra, desse modo não somos nem triteístas nem modalistas. Cremos na Trindade genuína, que Deus é três-um. Deus é unicamente um, todavia Sua deidade é da Trindade. A palavra triúno vem do latim. Tri significa três; uno significa um. Assim, triúno quer dizer três-um.
Em João 14:23 o Senhor Jesus nos diz que quem quer que O ame, Ele e o Pai virão a este e farão nele morada. Também, em João 14:17 o Senhor Jesus nos diz que o Espírito como o Espírito da realidade virá para habitar nos crentes. Assim, no mesmo capítulo nos é dito que o Pai e o Filho farão morada com aquele que O ama e que o Espírito habita naquele que O ama. Isso nos mostra que os três estão nos crentes simultaneamente. O Deus Triúno está em nós. Isso é um mistério, mas pela nossa experiência sabemos que isso é assim.
Em Mateus 28:19 o Senhor Jesus diz: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as para dentro do nome (singular) do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (lit.). A mesma preposição grega "para dentro" é usada em Romanos 6:3. Quando fomos batizados para dentro de Cris­to, fomos batizados para dentro de Sua morte. Mateus 28:19 nos incumbe batizar os novos crentes para dentro do nome do Deus Triúno. M. R. Vincent diz: "Batizar para dentro do nome da Trindade Santa implica numa união espiritual e mística com ele." Ele mais tarde diz que o nome "é equivalente a sua pessoa". Ser batizado para dentro do nome divino é ser imerso na Pessoa divina.
Uma nota na Bíblia Anotada de Scofield diz : "Pai, Filho e Espírito Santo é o nome final do Deus único e verdadeiro." Algumas traduções não têm "do" três vezes, somente o nome do Pai e Filho e Espírito Santo. O nosso Deus é Triúno: o Pai o Filho e o Espírito. Entretanto, tal título, tal nome só foi revelado depois da ressurreição de Jesus. Mateus 28:19 foi falado depois da ressurreição do Jesus glorificado. Isso foi revelado depois que o processo de nosso Salvador desde a encarnação até a ressurreição foi completado.
Antes da ressurreição de Cristo, tal Espírito, o Espírito composto, ainda não era (Jo 7:39). Mas depois de Sua ressurreição o Espírito de Deus foi composto, e Ele é agora o
Espírito composto, processado, todo-inclusivo. Este Espírito composto, que é idêntico ao Senhor, é, como revelado em 2 Coríntios 3, o Espírito que dá vida, que libera e que transfor­ma, que nos dá a vida divina (v. 6), liberta-nos da escravidão da lei (v. 17), e nos transforma à imagem de Cristo de glória em glória (v. 18).
 
O Espírito que Dá Vida
Paulo diz que o último Adão, por meio de Sua ressurreição e em Sua ressurreição, tornou-se Espírito que dá vida (1 Co 15:45 - lit.). Ele tornou-se não somente Espírito, mas especificamente Espírito que dá vida. "Que dá vida" mostra que tipo de Espírito Ele é. Em 2 Coríntios 3:6 Paulo diz que o Espírito dá vida. João 6:63 diz: "O Espírito é o que vivifica". A Nova Tradução de Darby* tem um parêntese do versículo 7 ao versículo 16 de 2 Coríntios 3. Se considerarmos esta seção parentética, o versículo 17 continua o versículo 6. O Espírito dá vida (v. 6) e o Senhor é o Espírito (v. 17).
Muitos escritores concordam que nas Epístolas de Paulo o Cristo ressurreto é idêntico ao Espírito. Entretanto, isso não anula a distinção entre Cristo e o Espírito. Existe sempre dois lados para a verdade. Em 2 Coríntios 3:17 o Senhor e o Espírito são um. Em 2 Coríntios 13:13 temos a graça de Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo. Pode-se ver aqui que Cristo e o Espírito são distintos.
 
 
O Espírito Da Vida
A Primeira Epístola aos Coríntios 15:45 refere-se a Cris­to como o Espírito que dá vida. Certamente não pode haver dois Espíritos que dão vida. Cristo, o Espírito que dá vida, é também o Espírito da vida. Este termo é revelado em Romanos 8:2. Romanos 8 fala do Espírito da vida (v. 2), o Espírito de Deus (v. 9) e o Espírito de Cristo (v. 9) que é o próprio Cristo (v. 10). Fala-se no mesmo capítulo do Espírito como as primícias (v. 23).
 
Os Sete Espíritos de Deus
No último livro da Bíblia, os sete Espíritos de Deus são revelados (Ap 1:4; 4:5; 5:6). O Credo de Nicéia não men­ciona os sete Espíritos. Em 325 d.C, quando o Credo de Nicéia foi feito, o livro de Apocalipse não era reconhecido como parte da Bíblia. O reconhecimento final dos livros a serem incluídos na Bíblia ocorreu em 397 d.C. no Concilio de Cartago.
Também, em Apocalipse 1, a seqüência da Trindade é mudada. Mateus 28 nos mostra o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Em Apocalipse 1:4,5, entretanto, o Pai como o Eterno é o primeiro, os sete Espíritos são o segundo e o Filho é o terceiro.
Mais além, Apocalipse 5:6 diz que os sete Espíritos são os sete olhos do Cordeiro. Isso quer dizer que o terceiro da Trindade é os olhos do segundo.
Todos esses pontos indicam que no último livro da revelação divina o Espírito de Deus, para a edificação das igrejas numa era de trevas, torna-se o Espírito sete vezes in­tensificado, que executa a administração universal de Deus para o cumprimento do Seu eterno propósito, e expressa ple­namente a Cristo como o Administrador universal de Deus, para introduzir o reino de Deus no milênio (Ap 20:4, 6) e para levar o reino à sua consumação final e máxima como a nova Jerusalém no novo céu e nova terra (Ap 21:1, 2).
 
O Espírito
Esse Espírito maravilhoso finalmente torna-se tão simples no título: o Espírito (Ap 2:7, 11, 17, 29; 3:6, 13, 22; 14:13; 22:17). Em Apocalipse temos os sete Espíritos e o Espírito. Nas sete epístolas às igrejas em Apocalipse, o início de cada epístola refere-se ao Senhor Jesus como Aquele que escreve para a igreja em certo lugar. Então, no final de cada uma nos é dito para ouvir "o que o Espírito diz". Apocalipse 22:17 diz: "O Espírito e a noiva dizem: Vem".
O Espírito é composto, processado e todo-inclusivo. Ele é a consumação do Deus Triúno alcançando Seu povo esco­lhido. De acordo com João 4:24, nosso Deus é Espírito. Não somente o Espírito da Trindade é Espírito, mas o Deus com­pleto — o Pai, o Filho e o Espírito — é Espírito. Deus é Espírito, e esse Deus inclui o Pai, Filho e Espírito.
João nos diz que quando o Filho veio, Ele veio em nome do Pai (Jo 5:43). Então o Pai mandou o Espírito no nome do Filho (14:26). O Filho veio no nome do Pai; isso quer dizer que Ele veio como o Pai. Então o Espírito veio no nome do Filho; isso quer dizer que o Espírito veio como o Filho. O Filho enviou o Espírito a nós de e com o Pai, e o Espírito veio a nós de e com o Pai (Jo 15:26 - lit.). Quando o Espírito veio, o Filho estava lá e o Pai também estava. O Filho estava no Pai, e o Pai estava no Filho (14:10). Quando o Filho es­tava lá, o Pai estava lá. Todos os três estavam lá porque Eles são um único Deus. Você não pode separá-Los; todavia, Eles são distintos como o Pai, o Filho e o Espírito.
 
A FUNÇÃO DO ESPÍRITO
O Espírito é a realidade de Cristo (Jo 14:17; 15:26; 1 Jo 5:7). Quando invocamos o nome do Senhor Jesus, recebemos o Espírito como a realidade de Cristo (Jo 14:17), e esse Cristo, o Filho de Deus, é a própria corporificação do Pai (Cl 2:9). O Pai é corporifícado no Filho, e o Filho é plenamente per­cebido como o Espírito. Colossences 2:9 diz que a plenitude da deidade (divindade) habita em Cristo corporalmente. Cris­to, então, é a corporificação de Deus, plenamente percebido como o Espírito. Isto é revelado em João 16:13-15.
O Espírito dá vida aos crentes (1 Co 15:45 ; 2 Co 3:6) e os regenera em seu espírito (Jo 3:5, 6). Ele unge os crentes (2 Co 1:21), os sela (Ef 1:13; 4:30; 2 Co 1:22a), e Ele próprio é o penhor de Deus dado a eles (2 Co 1:22b). Por meio deste ungir, que traz o elemento divino para dentro dos crentes, Ele os preenche. O selar modela o elemento numa certa forma como uma impressão e torna-se uma marca. O penhor significa que Ele é a garantia de que Deus é a nossa herança. Por um lado, selar prova que nós somos a herança de Deus; por outro lado, Deus como nossa herança para nosso desfrute é também garantido por meio do Espírito que habita interiormente como o penhor.
Ele é também o suprimento abundante para os crentes (Fp 1:19 ). Ele nos santifica, não só posicionalmente, mas disposicionalmente (1 Pe 1:2; Rm 15:16) e experimentalmente também. Ele transforma os crentes (2 Co 3:18).
Todos os crentes foram batizados neste único Espírito para dentro de um único Corpo (1 Co 12:13). No dia de Pentecoste, e na casa de Cornélio, quando Cristo, o Filho, o ascendido, derramou o Espírito sobre os crentes, aquilo foi o batizar do Seu Corpo para dentro do Espírito. Em 1 Coríntios 12:13 diz que fomos todos batizados em um Espírito para dentro de um Corpo. Cristo completou esse batismo assim como completou Sua crucificação. Todos os que crêem foram crucificados (Gl 2:19b, 20). No mesmo princípio, todos nós fomos batizados no dia de Pentecoste. Fomos batizados e nos foi dado a beber desse único Espírito (1 Co 12:13). Agora estamos bebendo deste Espírito. Ser batizado é exterior; beber é interior. Exteriormente fomos batizados; inte­riormente estamos bebendo do único Espírito.
Com a ascensão do Senhor aos céus e o derramar do Espírito, toda a operação do Deus Triuno foi completada. O Pai planejou com o Filho e o Espírito, e o Filho veio com o Pai e o Espírito para cumprir o que Deus havia planejado. Finalmente, o Espírito veio com o Pai e o Filho para aplicar o que o Pai havia planejado e o que o Filho havia cumprido. Este Espírito que aplica é a consumação do Deus Triuno. Ele não é somente por Si mesmo como um Espírito separado, nada tendo a ver com o Pai e não relacionado ao Filho; Ele é a consumação do Deus Triuno, a consumação da Trindade divina, para nos alcançar.
O alcançar do Espírito a nós tem dois aspectos: o aspec­to interior e exterior. O interior foi cumprido no dia da ressurreição. Naquele dia o Senhor ressurreto voltou para os
Seus discípulos e soprou-se para dentro deles (Jo 20:22). Isso foi totalmente para vida, a vida interior.
Cinqüenta dias mais tarde, no Pentecoste, Ele derramou o Espirito sobre os discípulos como um vento poderoso (At 2:1, 2). Sopro é para vida, mas vento é para poder. No Pen­tecoste, os discípulos foram revestidos com poder do alto (Lc 24:49). O revestir do Espírito é como o vestir de um uniforme. O uniforme dá, a quem o veste, poder, autoridade. Um policial com um uniforme tem autoridade para nos parar. Se ele não tivesse um uniforme, não o ouviríamos. O Espírito como nossa vida, o Espírito que dá vida, a saber, o Espírito da vida, é também o Espírito fora de nós, derramado sobre nós como o Espírito de poder do alto. Tudo isso já foi cumprido.
 
A CONSUMAÇÃO DO DEUS TRIÚNO
Este Espírito composto, processado, todo-inclusivo é a consumação do Deus Triúno. Tudo o que Ele planejou, tudo o que Ele realizou, tudo o que Ele irá aplicar a nós está total­mente envolvido neste Espírito composto. A divindade está envolvida Nele; a humanidade de Cristo também está envol­vida Nele. A Sua morte — Sua morte redentora e infusora de vida — está envolvida Nele. A Sua ressurreição e Sua ascensão estão envolvidas nesse único Espírito composto que nos alcança. Interiormente Ele é nossa luz e vida; exterior­mente Ele é nosso poder.
 
O ESPÍRITO E A PALAVRA
Deus nos deu dois grandes dons — o Espírito e a Pala­vra. O Espírito composto é a totalidade do Deus Triúno e de todos os Seus feitos. É por isso que digo que esse Espírito composto, incluindo Sua Palavra, é a consumação final e máxima do Deus Triúno alcançando-nos. A Pessoa divina e a Palavra divina estão envolvidas neste único Espírito compos­to. Todas as bênçãos , todas as heranças do Novo Testamento foram legadas aos filhos de Deus. Estes legados estão também envolvidos neste único Espírito composto.
Dois versículos no Novo Testamento indicam que o Espírito e a Palavra são um. Em João 6:63 o Senhor diz : "As palavras que eu vos tenho dito, são espírito". Também, Efésios 6:17 refere-se à espada do Espírito, cujo Espírito é a palavra de Deus. Não somente a palavra do Senhor é o Espírito; o Espírito também é a Palavra.
É por isso que em Romanos 10 Paulo diz que quando você ouve a pregação do evangelho, a palavra está perto de você, em sua boca e em seu coração (v. 8). Por muitos anos não podia entender o que Paulo queria dizer. Como poderia a palavra estar em minha boca e em meu coração? Final­mente o Senhor me mostrou que sempre que o Novo Testamento é ensinado, pregado, lido, ou estudado por alguém com um coração sincero, o Espírito trabalha com a Palavra. Por meio do Espírito a Palavra entra em sua boca. Por meio do Espírito a Palavra entra em seu coração. Sem o Espírito, a palavra impressa não poderia entrar em sua boca e em seu coração. Quando exercita seu espírito para orar sobre um versículo da Bíblia, aquele versículo entra em sua boca e em seu coração. Você não deveria ler a Bíblia sem orar. Você tem de ler a Bíblia, a Palavra santa, devotadamente. Não deveria meramente exercitar sua mente para estudar a Pala­vra. Você deve ir à Palavra com oração. Não precisa usar sua próprias palavras; ore a Palavra.
Todos nós sabemos que quando oramos dessa maneira, a palavra na página entra em nossa boca e em nosso coração. Somos regados, recebemos iluminação, nutrição, for­talecimento, conforto e suprimento de vida. Também o Espírito é aplicado a nós como a consumação do Deus Triúno.
O Espírito e a Palavra trabalham juntos. Devemos sempre tocar a Bíblia por tocar o Espírito. Devemos orar lendo, e ler orando. Então desfrutaremos o Deus Triúno. O nosso encargo não é discutir ou debater, mas apresentar a verdade básica ao povo de Deus para que ele possa conhecer que nosso Deus é na realidade o Deus Triúno, não para en­tendermos, mas para desfrutarmos. Estamos apresentando a verdade para ajudar os santos a conhecer que nosso Deus é Triúno para participarmos Dele, desfrutá-Lo e experimentá-Lo.
 
O ESPÍRITO HUMANO
Também enfatizamos o espírito humano (Zc 12:1; Pv 20:27; Rm 8:16; 2 Tm 4:22). Assim como para o nosso alimento temos uma boca e um estômago, temos também um espírito humano, que é nossa boca espiritual e estômago espiritual. Em um rádio, o receptor é crucial. Podemos ter um rádio bem feito e bonito, mas se ele não tiver um recep­tor, ele é vazio. Somos um "rádio" para receber as riquezas divinas para dentro do "receptor" em nosso interior — nosso espírito humano.
Enfatizamos fortemente esses dois espíritos, o Espírito composto da Trindade e o espírito humano dentro de nós, porque o Espírito composto é a consumação do Deus Triúno alcançando-nos para nosso desfrute, e o espírito humano é o único meio para recebermos tal rico Espírito composto, para que possamos desfrutar as riquezas do Deus Triúno e experimentá-Lo diariamente, até mesmo em toda hora. Es­tamos aqui como um testemunho para que todo o povo de Deus hoje possa ter uma visão clara concernente à Trindade divina e para que nós mesmos possamos participar Dele e desfrutá-Lo o dia inteiro.

 
Capítulo Quatro
OS CRENTES
 
Leitura da Bíblia: Jo 3:6; Mt 28:19; Gl 3:27; Rm 6:3; 1 Co 12:13; Rm 8:9, 11, 4; Gl 5:16, 15; 1 Co 3:6, 7; Ef 4:16; 2:21, 22; 1 Pe 2:5; 2 Co 3:18; Rm 12:2; 1 Ts 5:23; Fp 3:21; Rm 8:29,30; 10:8,9,12
 
O tema deste capítulo, os crentes, é aparentemente simples, mas na realidade é misterioso. Um estudante de medicina logo aprende que o corpo humano não é simples. O ser psicológico de uma pessoa é ainda mais misterioso. Como seres vivos, temos dois corações , um físico e um psicológico. Podemos localizar o nosso coração físico, mas onde está o coração psicológico? Onde estão nossa mente, emoção, von­tade e consciência? Onde está o nosso espírito? Onde está a nossa alma? Nós, crentes em Cristo, somos seres espirituais, e como tais somos um mistério.
 
DESCENDENTES DO ADÃO CAÍDO
Nós, os crentes, somos descendentes do Adão caído. Somos todos caídos. Estávamos mortos em pecado sob a condenação de Deus (Ef 2:1, 5; Rm 3:19; 5:12; Jo 3:18). En­quanto estávamos mortos em pecado, Deus proporcio­nou-nos uma mudança. Ouvimos o evangelho e cremos no Senhor Jesus Cristo para receber a vida eterna (Jo 3:16 ).
 
SALVOS
Atos 16 : 31 nos diz que, quando cremos no Senhor Jesus Cristo, somos salvos. Uma salvação completa inicial tem seis aspectos: perdão de pecados, o lavar das nossas máculas, separação para Deus posicionalmente, justificação, reconciliação e regeneração.
 
Perdoados
Depois de crermos, a primeira coisa que recebemos, o primeiro legado de acordo com o testamento divino, é o perdão de nossos pecados (At 10:43).
 
Lavados
Fomos não somente perdoados, mas também lavados. Ser perdoado põe em ordem o nosso caso perante Deus. Ser lavado leva embora a mancha, a mácula, de nossos pecados. Por exemplo, se uma criança sujasse a camisa e depois se ar­rependesse, a mãe o perdoaria; mas a camisa ainda precisaria ser lavada. Perdoar a criança do seu mau procedimento é uma coisa. Lavar a mancha da camisa é outra coisa. Deus, ao crermos no Senhor Jesus, não somente perdoou-nos mas também lavou-nos. Aleluia! Fomos perdoados e lavados pelo sangue de Cristo!
 
Santificados Posicionalmente
Como parte de nossa salvação inicial, fomos posicional­mente santificados, isto é, separados por Deus do mundo para Ele mesmo. Em 1 Coríntios 6:11 indica que somos primeiro santificados e então justificados. Santificação posicionai precede a justificação; santificação disposicional segue a justificação.
 
Justificados
A morte de Cristo cumpriu e satisfez completamente as exigências justas de Deus, para que possamos ser justificados por Deus por meio de Sua morte (Rm 3:24). Somos "jus­tificados de todas as coisas" das quais não poderíamos "ser justificados por meio da lei de Moisés" (At 13:39).
 
Reconciliados com Deus
Nós precisávamos ser reconcilados com Deus porque quando éramos pecadores, éramos inimigos de Deus (Rm 5:10). Fomos reconciliados com Deus por meio da morte do Seu Filho.
 
Regenerados
Ao crermos no Senhor Jesus e invocarmos o Seu nome, fomos regenerados, isto é, o próprio Espírito de Cristo entrou em nosso espírito e nos deu vida (Jo 3:6; Ef 2:5). A regeneração nos fez filhos de Deus (Jo 1:12, 13; Rm 8:16), membros da família de Deus (Ef 2:19). Ela também nos fez membros de Cristo, membros do Corpo de Cristo (Ef 5:30; 1 Co 12:27). Nós que fomos regenerados, somos membros do Corpo de Cristo e também filhos de Deus.
A regeneração ocorreu em nosso espírito, não em nosso corpo ou em nossa mente. Isso quer dizer que o Deus Triúno está agora em nosso espírito (Ef 4:6; 2 Co 13:5; Rm 8:9). Que tesouro temos dentro de nós (2 Co 4:7)! O Deus Triúno veio para dentro de nosso espírito para ficar (Jo 4:24; 2 Tm 4:22; Rm 8:16). É aqui em nosso espírito que estão as riquezas insondáveis de Cristo.
Para desfrutar essas riquezas devemos invocar o nome do Senhor Jesus (Rm 10:12). Se queremos ser nutridos, podemos invocar "Ó, Senhor Jesus!" Quando estamos em casa e também no trabalho, podemos invocar o nome do Se­nhor. Quando O invocamos, tocamos o Espírito (1 Co 12:3). Muitos de nós oramos freqüentemente, mas não recebemos nutrição de nossa oração. Isso não deveria ser assim. Não es­tamos orando para um ídolo; estamos orando para o Deus vivo. Ele é o próprio Deus que está agora em nosso espírito. Quando falamos com Ele, Ele responde em nosso espírito. Quando exercitamos o espírito, percebemo-Lo em nosso espírito. Se meramente exercitamos a mente e oramos só com a boca, o Deus Triúno dentro de nós não tem caminho. Ele não está  em nossa mente,  mas em nosso espírito.
Devemos exercitar o nosso espírito (1 Tm 4:7). Dessa maneira podemos experimentar este Deus verdadeiro, real e vivo que está agora em nosso espírito. Em nosso espírito regenerado habita o Deus Triúno como o Espírito que dá vida.
 
BATIZADOS
 
Para Dentro do Nome do Pai do Filho e do Espírito Santo
Depois de Sua ressurreição e antes de Sua ascensão, o Senhor Jesus incumbiu os discípulos de irem e fazer discípulos de todas as nações, "batizando-os para dentro do (lit.) nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28:19); isto é, eles deviam batizar as pessoas para dentro da própria Pessoa do Deus Triúno.
Em Atos e nas Epístolas, entretanto, não há nenhum versículo indicando que os apóstolos batizaram as pessoas para dentro do nome do Pai, do Filho e do Espírito. Antes, aqueles que se arrependiam e criam no Senhor eram batizados para dentro do nome do Senhor Jesus (At 8:16; 19:5). Ser batizado para dentro do nome do Senhor Jesus eqüivale a ser batizado para dentro do nome do Pai, do Filho, e do Espírito. E ser batizado para dentro do nome do Senhor é ser batizado para dentro de Sua Pessoa, o próprio Cristo (Gl 3:27; Rm 6:3). Ser batizado para dentro de Cristo eqüivale a ser batizado para dentro do Deus Triúno porque o próprio Cristo para dentro de quem fomos batizados é a corporificação do Deus Triúno. O Deus Triúno é cor-porificado em Cristo, o Senhor, o Filho de Deus.
Além disso, quando fomos batizados para dentro Dele, fomos batizados para dentro de Sua morte (Rm 6:3). O batis­mo nos une com Ele em Sua morte e em Sua ressurreição. O batismo de água não deve ser o cumprimento de um ritual. Deve significar que estamos colocando aqueles que estão sendo batizados para dentro do Deus Triúno, para dentro de Cristo, e para dentro de Sua morte e ressurreição.
 
No Espírito Para Dentro do Corpo de Cristo
Fomos também batizados para dentro do Corpo, a igreja. "Pois também em um Espírito fomos batizados para dentro de um corpo" (1 Co 12:13).
Fomos batizados, então, para dentro do Deus Triúno, para dentro de Cristo, para dentro da morte e ressurreição de Cristo, e também para dentro do Corpo, a igreja. Na realidade, todos estes "para dentro" são um. Quando somos batizados para dentro de Cristo, somos batizados para dentro de Sua morte e ressureição, e somos também batizados para dentro do Deus Triúno e para dentro do Corpo de Cristo. Isso quer dizer que estamos agora em Cristo, em Sua morte e ressurreição, no Deus Triúno, e no Corpo de Cristo. Quando batizamos as pessoas, devemos mostrar-lhes que eles agora estão em Cristo, em Sua morte e ressurreição, no Deus Triúno, e no Corpo.
Necessitamos da realidade do fato espiritual de que, quando batizamos as pessoas, nós as colocamos para dentro de Cristo. Podemos colocá-las para dentro de Cristo porque Cristo hoje é o próprio Espírito. Quando batizamos as pes­soas, colocamo-nas para dentro do Espírito, que é a realidade de Cristo. É assim que deve ser o batismo. O batismo nos dá a posição de dizer que somos pessoas em Cristo, em Sua morte, em Sua ressurreição, em união orgânica com o Deus Triúno, e também no Corpo vivo do Cristo vivo. Ter essa percepção do batismo faz uma grande diferença em nossa vida.
 
SER HABITAÇÃO DO ESPÍRITO E BEBER DO ESPÍRITO
Depois de crermos e sermos batizados, somos habitação do Espírito (Rm 8:9, 11; 1 Co 6:19). Enquanto Ele habita em nós, estamos bebendo. A fonte para se beber está exata­mente em nosso espírito (Jo 4:14, 24). Devemos voltar-nos ao espírito e beber pelo invocar o nome do Senhor (1 Co 12:3, 13b).
Temos o Espírito como o agregado do Deus Triúno habitando em nós. Em 1936 quando vi que Deus estava vivendo em mim, fiquei fora de mim. Queria sair, subir no te­lhado ou correr para a rua, e gritar para as pessoas: " Não me toquem; tenho Deus em mim!"
O Deus Triúno está em nós. Ele habita em nós e es­tamos bebendo Dele. Ele é a fonte para bebermos; esta fonte não está nos céus mas em nosso espírito.
 
VIVENDO E ANDANDO NO ESPÍRITO MESCLADO
Agora devemos viver e andar no Espírito mesclado. Romanos 8:4 e Gaiatas 5:16, 25 referem-se a este espírito mesclado. J. N. Darby mostra a dificuldade de colocar um E maiúsculo ou minúsculo em espírito em, Romanos 8. Embora ele não use a palavra mesclado, ele certamente transmite o pensamento de que estes dois espíritos são considerados como um.
Em Gaiatas 5:16 a palavra grega para andar é ter nosso ser movendo-se e agindo. Aqui está a incumbência completa do Novo Testamento: viver, ter o nosso ser, andar, mover-nos e agirmos de acordo com o espírito mesclado. Tudo o que fazemos deve ser de acordo com o nosso espírito habitado pelo Espírito composto e mesclado com Ele, não de acordo com ensinamentos éticos ou regulamentos morais. Andar de acordo com o Espírito é muito mais elevado do que andar de acordo com os ensinamentos éticos ou regulamentos morais.
O mover do Epírito é chamado de unção. Em 1 João 2:20, 27 vemos que todos temos recebido uma unção do Santo. Esta unção dentro de nós é verdadeira; ela nos ensina a habitar no Senhor. A unção sobre a qual João fala em 1 João 2 refere-se ao óleo em Êxodo 30. O tabernáculo e todos os seus utensílios eram ungidos com óleo composto (Êx 30:26-29).
O óleo composto hoje, o Espírito, está dentro de nosso espírito ungindo-nos, movendo-se, dentro de nós, todo o dia.
Mesmo quando estamos discutindo ou quando estamos a ponto de discutir, a unção interior move-se em nós para não continuarmos, mas para irmos ao nosso quarto e orar. Um dia uma irmã foi fazer compras, mas sempre que pegava um item pensando em comprá-lo, a unção dizia dentro dela para colocar de volta. Tudo o que pegava, tinha de pôr de volta. Finalmente ela decidiu que era melhor voltar para casa. Assim que obedeceu a unção interior e retornou ao seu carro para voltar para casa, ela sentiu-se animada e alegre. Se não prestamos atenção à unção interior, ofendemos o Espírito. Devemos viver e andar de acordo com esse Espírito que está mesclado com o nosso espírito.
 
CRESCER NA VIDA DIVINA E SER EDIFICADOS
Poucos cristãos prestam atenção ao crescimento em vida (1 Co 3:6, 7) e à edificação (1 Co 3:10-12) como o Corpo de Cristo e como a igreja, a casa de Deus. Espiritualidade provém do crescimento em vida; o objetivo do crescimento em vida é a edificação do Corpo de Cristo e da casa de Deus. Praticamente falando, isso significa a edificação da igreja local. Sem uma vida da igreja apropriada em nossa localidade, como podemos ser edificados com outros? Precisamos estar onde há uma igreja. Assim, naquela igreja podemos ser edificados com os outros para ser a casa espiritual de Deus (Ef 2:21, 22; 1 Pe 2:5). Enquanto estamos sendo edificados como a igreja numa cidade, estamos também sendo edificados como o Corpo de Cristo (Ef 4:16).
 
SER TRANSFORMADO NA ALMA
O nosso espírito foi regenerado, mas e quanto à nossa alma? Precisamos ser transformados (2 Co 3:18) pela renovação de nossa mente (Rm 12:2; Ef 4:23). A mente é a parte liderante de nossa alma (SI 13:2; 139:14; Lm 3:20). Para a transformação da alma, a mente deve ser renovada.
 
SER SANTIFICADO EXPERIMENTALMENTE
A transformação de nossa alma é a santificação de nossa disposição. O Senhor santifica-nos em nosso espírito, alma e corpo (1 Ts 5:23). Todo nosso ser é para ser santifícado, transformado.
 
SER TRANSFIGURADO EM NOSSO CORPO
Quando o Senhor retornar, nosso corpo será trans­figurado (Fp 3:21), completamente redimido (Rm 8:23). Quando cremos, nosso espírito foi regenerado. Durante a nossa vida cristã nesta terra, nossa alma está sendo gradual­mente transformada e santificada. Então, na Sua vinda nosso corpo será transfigurado. Todo o nosso ser será, então, com­pletamente conformado a Cristo.
 
CONFORMADOS A CRISTO
Como os muitos irmãos de Cristo, seremos conformados à Sua imagem e estaremos com Ele em glória (Rm 8:29, 30). Não seremos mais naturais em nenhuma parte de nosso ser. Ainda somos um tanto naturais na alma e corrompidos no corpo; é por isso que, depois da regeneração de nosso espí­rito, precisamos da transformação da alma e da transfigu­ração do corpo. Então seremos completamente conformados ao Filho primogênito de Deus como Seus muitos irmãos.
 
GLORIFICADOS
Finalmente seremos glorificados na vida divina e na natureza divina (Rm 8:30) para possuir a glória de Deus, para Sua expressão na Nova Jerusalém.
 
O CAMINHO PARA DESFRUTAR CRISTO
O livro de Romanos é um esboço da vida cristã ade­quada. No capítulo seis estão todos os fatos cumpridos por
Cristo. Ele morreu, e nós morremos com Ele. Ele foi ressus­citado, e nós também. Em Cristo estas coisas são fatos. Nele estamos unidos à Sua morte e ressurreição (6:4, 5).
Em Romanos 6, entretanto, não temos a experiência da morte e ressurreição de Cristo. Precisamos prosseguir para Romanos 8 para experimentar Cristo em Seus feitos por meio do Espírito. Em Romanos 8 estão as experiências dos fatos revelados no capítulo seis.
Então, no capítulo dez a Palavra entra em nossa boca e em nosso coração. Primeiro cremos na Palavra que nos alcança; segundo, invocamos Seu nome (10:8, 9). O Senhor é rico para com todos os que O invocam (10:12). A palavra in­vocar em grego significa clamar, chamar com a voz. Em Atos, os cristãos eram considerados invocadores do nome de Jesus; sabemos disso porque Saulo de Tarso tinha autoridade para prender todos aqueles que invocavam este nome (At 9:14). Invocar o nome do Senhor Jesus designava os primeiros cristãos. Eles não eram silenciosos; eles clamavam o querido nome do Senhor Jesus.
Se queremos desfrutar Cristo e todas as Suas realizações, precisamos invocá-Lo. O caminho para desfrutar Cristo em todos os Seus feitos é andar de acordo com o espírito mesclado e invocar o Seu querido nome. Então par­ticipamos Dele, O desfrutamos e O experimentamos ao máximo.


 
 
Capítulo Cinco
A IGREJA
 
Leitura da Bíblia: Mt 16:18; 18:17; 1 Tm 3:15; Ef 2:19; 1 Pe 2:5; Ef 1:22, 23; 3:19b; 2:15; 4:24; Cl 3:10, 11; Ef 5:25, 29, 32; Jo 3:29; Ap 19:7; 21:2,9; 22:17; Ef 6:11,12; 1 Co 12:12,13; At 8:1; 13:1; Ap 1:11-13, 20; 1 Co 3:10,11; Ef 2:20
 
A igreja é o objetivo final e máximo de Deus. O objetivo de Deus não é somente ter muitos cristãos individuais. Seu objetivo é ter uma igreja coletiva que possa ser Sua casa e o Corpo de Seu Filho. Esta igreja é a expressão de Deus. A igreja é tanto a família de Deus expressando Deus, o Pai, como o Corpo de Cristo expressando Cristo como Aquele que é a corporificação do Deus Triúno (Cl 2:9). O que iremos tratar neste capítulo é um extrato da revelação divina com respeito à igreja no Novo Testamento.
 
A EKKLESIA
A igreja é primeiramente uma ekklesia. Essa palavra grega denota uma congregação chamada para fora. Nos tem­pos antigos quando uma cidade chamava seus cidadãos para uma reunião, aquela congregação era uma ekklesia. O Novo Testamento, começando com o Senhor Jesus em Mateus 16, usa essa palavra para indicar a igreja (v. 18). A igreja é uma congregação chamada por Deus para Ele. Os Irmãos Unidos preferem usar a palavra assembléia. Creio que esta é uma melhor palavra para se usar, porque a palavra igreja em português tem sido muito danificada.
Na minha infância na China, entendíamos a palavra igreja significando um prédio com uma torre de sino. Para muitos de nós a igreja era um prédio. Hoje, muitas pessoas pensam o mesmo. Elas dizem que estão indo à igreja, referindo-se a um edifício. Esse conceito é absolutamente errado. Devemos abandonar esse pensamento. A igreja não é um edifício sem vida, mas algo orgânico, cheio de vida.
A igreja é uma assembléia de pessoas vivas, não um edifício físico sem vida. Entretanto, considerar a igreja mera­mente como uma congregação chamada para fora, uma assembléia, é ainda superficial. Pode haver uma congregação, uma assembléia, porém sem vida. Hoje existem muitas gran­des congregações em nossa sociedade, as quais estão sem a vida divina.
 
A CASA DE DEUS
A igreja é também a casa de Deus (1 Pe 2:5). Com isso não queremos apenas dizer que a igreja é a habitação de Deus. Esta palavra grega oikos não somente significa a casa, a habitação, mas também o lar. Oikos quer dizer tanto casa como os familiares, a família, que compõe o lar; assim, ela também pode ser traduzida por família (Ef 2:19).
O lugar de habitação de Deus hoje na terra é a igreja, e Deus, como um grande Pai, tem uma família, a qual é a igreja. Para nossa vida familiar temos uma casa e dentro da casa temos a família. Para nós a casa é uma coisa, e família é outra; a casa é o prédio e a família são as pessoas que vivem ali. A casa de Deus é a família de Deus, entretanto, são o mesmo. A casa é a família e a família é a casa.
Nós, como a igreja, somos a casa de Deus, o lugar de habitação de Deus. Ao mesmo tempo, somos a família de Deus. Tanto a casa de Deus como a família de Deus são uma única entidade, isto é, um grupo de regenerados, os chamados, habitados pelo próprio Deus. Estes chamados, que foram regenerados por Deus com Sua vida e que estão sendo habitados por este Deus vivo com tudo o que Ele é, são tanto o lugar de habitação de Deus como a Sua família. Isso é mais do que uma assembléia. Isso é diferente de um grupo de pessoas ou organização de pessoas. Isso é algo orgânico —orgânico na vida divina, orgânico na natureza divina e orgânico no Deus Triúno.
Alguns enfatizaram muito a ekklesia, mas não prestaram muita atenção ao aspecto orgânico da igreja. Eles não dis­seram muito acerca da igreja como a família de Deus. Devemos perceber, porém, que a igreja é orgânica; ela é a casa viva de Deus. Paulo diz que a igreja é a casa do Deus vivo (1 Tm 3:15) e que esta casa cresce (Ef 2:21). A sua casa cresce? As nossas casas não crescem. Elas desvalorizam-se. Mas a casa de Deus cresce! Para que algo cresça ele precisa ser vivo. Qualquer coisa sem vida não pode crescer. Tudo o que cresce é orgânico, com vida. Aleluia! nós estamos cres­cendo!
Em 1964 fui a Plainview, Texas, visitar um pequeno grupo de santos. E, em 1965 fui a Waco, Texas, visitar outro pequeno grupo. Sem fé, eu teria ficado completamente desapontado. Quando as notícias chegaram em Nova Iorque, um amado irmão com quem eu tinha servido por vários anos disse a outro irmão que ele não cria que estes pequenos grupos no Texas durariam. Em 1968 fui para Lubbock. Não vi uma igreja grande; antes, vi algo que precisava de muita fé. Pela Sua misericórdia tive aquela fé. Então os santos no Texas mudaram-se para Houston em 1969, e fui visitá-los. A situação ali era um tanto encorajadora, mas não tanto assim. Minhas visitas a Irving, entretanto, em 1982 e 1983 deixaram-me animado. Houve muito crescimento entre as igrejas no Texas porque a igreja é algo vivo. Ela é a casa viva do Deus vivo. Não é algo de organização, mas de vida; assim, seu cres­cimento é pela vida.
 
O CORPO DE CRISTO
A casa de Deus, a família de Deus, é orgânica, mas, num certo sentido, ela não é tão orgânica como o Corpo. A igreja é o Corpo de Cristo. Um grupo de cristãos pode ser uma assembléia, mas pode não ser na realidade a casa de Deus porque eles não vivem no espírito. Eles podem dizer que são o Corpo de Cristo, mas na realidade podem não ser, porque ainda estão vivendo na vida natural. Se vivemos em nossa vida natural, não somos o Corpo de Cristo.
Quando jovem, ouvi sobre dois ou três presbíteros que se reuniram para conversar acerca de alguns assuntos em sua assim chamada igreja. No final, um jogou sua Bíblia e outro levantou-se e saiu. Aquilo era o Corpo? Aquilo não era o Corpo, mas a carne caída.
Que é o Corpo? Olhe para si mesmo. Seu corpo é a maior parte de seu ser. Nada pode ser seu corpo, a não ser você mesmo. Uma prótese dentária não é parte do seu corpo; ela é algo extra, sem nenhuma vida. Os nossos dentes ver­dadeiros estão unidos ao nosso corpo, não por meio de organização, mas por meio de vida. Eles crescem organicamente no corpo. Um membro de seu corpo é orgânico; ele cresce em uma união orgânica com o corpo. O que quer que não esteja em união orgânica com seu corpo é estranho a ele.
Da mesma forma, o Corpo de Cristo é um organismo, não uma organização. Uma plataforma, por exemplo, con­siste em pedaços de madeira organizados e ajustados. O corpo de um homem, por outro lado, não é organizado, mas orgânico, cheio de vida.
A igreja não somente é a família viva de Deus, o Pai, mas muito mais, é um organismo vivo de Cristo, a Cabeça. O cristianismo caiu num estado onde há organização em vez de vida. Há milhões de cristãos na terra. Eles foram perdoados por meio da redenção de Cristo, lavados pelo Seu precioso sangue e regenerados pelo Espírito Santo; eles são filhos de Deus e membros de Cristo. Todavia, na realidade, em sua vida e serviço o que se vê é uma organização, não um or­ganismo. Cristo é orgânico, mas "ismo" não é. Qualquer tipo de "ismo", incluindo cristianismo e até mesmo "igreja-localismo", é uma organização.
A igreja deve ser somente orgânica, um organismo cheio da vida de Cristo. O que quer que você faça tem de ser proveniente da vida interior. Você é vivo. Você tem Cristo como a corporificação do Deus Triúno vivendo em você. Não se mova por si mesmo. Mova-se por Ele. Não aja por você mesmo. Aja por Ele. Um dia, quando pretendi visitar um irmão, fui impedido porque percebi que Cristo não estava indo visitar aquele irmão. Era somente eu, o eu natural, o bom eu, o eu com boas intenções; era totalmente eu mesmo, não Cristo. Então orei, dando ao Senhor minha posição, minha base e tudo pertencente àquela visita. Daí o Senhor começou a ir comigo. Existem muitos que amam o Senhor e são devotados a Ele e, todavia, não percebem que sua vida natural deve ser colocada de lado.
No novo homem, a igreja, "não pode haver grego nem judeu,circuncisão nem incírcuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém, Cristo é tudo e em todos" (Cl 3:10, 11). "Tudo" aqui indica pessoas. Dizer que Cristo é tudo quer dizer que Ele é você, Ele é eu mesmo, e Ele é cada um na igreja. Dizer que Cristo está em todos quer dizer que Ele está em cada um na igreja. O novo homem, a igreja, não é chinês, japonês, francês, inglês, alemão ou americano. O novo homem é Cris­to. Portanto, quando agimos como os chineses, japoneses, filipinos, americanos, ingleses, alemães, franceses ou italianos, já não somos a igreja. No novo homem não há judeu nem grego. Na realidade, no novo homem não pode haver nenhum judeu ou grego. Não pode haver nenhum chinês ou japonês. No novo homem não pode haver nenhum branco ou negro. Se ainda quer ser negro ou branco, você está acabado para o Corpo de Cristo. A igreja é um organis­mo. Portanto, devemos agir em nosso espírito, repudiando totalmente nossa vida natural.
 
A PLENITUDE (EXPRESSÃO) DAQUELE QUE A TUDO ENCHE EM TODAS AS COISAS
Muitos cristãos não entendem o que a palavra plenitude quer dizer em Efésios 1:23 e 3:19. Eles pensam que a palavra plenitude quer dizer riquezas. Efésios 1:23 diz que a igreja "é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas." Gramaticalmente "a plenitude" está em aposição a "seu corpo"; isto quer dizer que o Corpo é a plenitude e a plenitude é o Corpo. Plenitude não quer dizer as riquezas. Em Efésios, as riquezas insondáveis de Cristo são men­cionadas em 3:8. Temos de diferençar entre as riquezas e a plenitude. Os Estados Unidos têm supermercados cheios das riquezas da América. As riquezas da América são seus produtos, mas a plenitude da América é um americano robus­to. Essa plenitude é a expressão.
A plenitude provém das riquezas. Entretanto, se nós não comemos e digerimos as riquezas, podemos tê-las sem ter a plenitude. As riquezas resultam na plenitude pelo comer e digerir. Se não comemos e digerimos as riquezas, per­maneceremos magros e pequenos. Da mesma forma, a igreja não é somente o Corpo de Cristo, mas também a plenitude, a expressão, que resulta do desfrute das riquezas de Cristo.
Essa plenitude é a expressão do próprio Cristo univer­sal, que enche tudo em todas as coisas. Colossenses 3:11 diz que Cristo é tudo e em todos. "Tudo" e "todos" neste versí­culo, referem-se a pessoas. Em Efésios 1:23, entretanto, o "tudo em todas as coisas" que Cristo enche é algo universal. Cristo é ilimitado (Ef 1:23; 3:18). As dimensões do universo são na realidade as dimensões de Cristo. Quão longo é o comprimento? Quão alta é a altura? Quão profunda é a profundidade? Quão larga é a largura? Ninguém pode dizer. As dimensões de Cristo em Efésios 3:18 são insondáveis e ilimitadas. Essas dimensões são a descrição de Cristo.
Cristo enche tudo em todas as coisas, e nós, a igreja, pelo desfrutar de Suas riquezas, finalmente nos tornamos Sua plenitude. Se eu tivesse somente uma cabeça, sem um corpo, não teria plenitude. Esta plenitude é minha expressão. Temos de perceber que a igreja como o Corpo de Cristo é a plenitude de Cristo como Sua expressão.
 
A PLENITUDE (EXPRESSÃO) DE DEUS
Em Efésios 3:19, a Versão IBB Revisada de João Fer­reira de Almeida, diz: "Para que sejais cheios até a inteira plenitude de Deus". Somos enchidos até toda a plenitude de Deus. Somos enchidos, resultando em uma expressão de Deus. Plenitude aqui quer dizer expressão. Paulo disse que ele orou para que o Pai nos fortalecesse com poder mediante Seu Espírito no homem interior para que Cristo pudesse fazer Sua morada em nosso coração, e que pudéssemos conhecer as dimensões de Cristo — a largura, o comprimento, a altura e profundidade — para que pudéssemos ser enchidos até resultar na plenitude de Deus, a expressão de Deus (Ef 3:14-19).
Todo o livro de Efésios trata da igreja. Ela é a casa ou a família de Deus (2:19), ela é o Corpo de Cristo (1:23), e ela é a plenitude como a expressão de Cristo e de Deus (1:23; 3:19). De acordo com o capítulo três, a igreja pode ser tal expressão, não somente de Cristo, mas também de Deus, quando Cristo faz Sua morada em nosso coração para que possamos experimentar as Suas riquezas insondáveis. En­quanto estamos desfrutando Dele de tal forma, somos enchidos com todas as riquezas de Cristo, resultando numa expressão de Deus.
A igreja hoje deve ter tal expressão, resultante do rico desfrute das riquezas insondáveis de Cristo. Temos muito en­cargo pela situação entre os cristãos. Onde há uma expressão de Deus? Espero que entre nós haja tal expressão. Todos precisamos orar por nós mesmos assim como Paulo orou por nós em Efésios 3. Devemos dobrar os joelhos perante o Pai para que Ele nos fortaleça no nosso homem interior, para que Cristo faça Sua morada em nosso coração, estabelecendo-se plenamente em cada "avenida", em cada parte de nosso ser interior. Então podemos desfrutar do Seu amor, e podemos tocar e possuir as Suas dimensões. Seremos enchidos com Ele até a plenitude de Deus, a expressão de Deus. Isso não é somente uma assembléia ou uma congregação de cristãos chamados para fora. Isso é um grupo de pessoas plenamente possuídas por Cristo e desfrutando-O ao máximo, sendo saturadas por Ele e enchidas com Ele a tal ponto que elas tornam-se uma expressão de Deus.
O que quer que comamos, isso expressamos. Quando jovem, às vezes ia visitar meus avós que viviam à beira-mar. Freqüentemente comiam peixe, enquanto que a nossa família raramente comia peixe. Sempre que ia à casa de meus avós, eu não cheirava outra coisa a não ser peixe. Um dia pergun­tei a minha mãe por que todos ali cheiravam a peixe. Ela replicou: "Você não sabe que eles comem peixe todos os dias? É por isso que cheiram a peixe!" O que quer que coma­mos, tornamo-nos e expressamos isso.
Quando comemos Jesus, nós exalamos Seu perfume (2 Co 2:15), O expressamos, e nos tornamos Ele. Que é a igreja? A igreja é a expressão do próprio Cristo a quem comemos. Toda a plenitude da deidade está corporificada neste Cristo, e este mesmo Cristo é nosso pão da vida (Jo 6:48). Ele disse: "Quem de mim se alimenta, por mim viverá" (Jo 6:57). Quando comemos Cristo, vivemos por Ele. Este Cristo é a corporificação do Deus Triúno; quando comemos Cristo, comemos o Deus Triúno. O nosso Salvador, Jesus Cristo, a corporificação do Deus Triúno, é o nosso maná diário, o nosso alimento diário. Nós O comemos, então O ex­pressamos. Essa expressão é a plenitude Daquele que a tudo enche em todas as coisas. Por fim, essa é plenitude do Deus Triúno. Podemos ser tal expressão por comer Jesus. Deixe-O saturar todo o seu ser. Deixe-O estabelecer-se em cada sala, cada avenida, e cada canto de seu interior — em sua mente, sua emoção, sua vontade, sua consciência, sua alma e em seu espírito; em seu amar, suas decisões, sua intenção e sua motivação. O que quer que você faça, deve ser enchido com Cristo.
Comer Jesus é simplesmente tomá-Lo para dentro de nós e deixá-Lo ser assimilado para dentro de nosso ser. Comer significa receber alimento para dentro de nosso ser; comer Jesus significa recebê-Lo para dentro de nosso ser. O resultado do nosso comê-Lo é a plenitude Daquele que a tudo enche em todas as coisas e também do próprio Deus Triúno. Esta plenitude é a igreja. A igreja não é somente uma assembléia, nem é somente a casa de Deus, a família de Deus; ela é também o Corpo, um organismo dessa Pessoa viva, o qual finalmente torna-se Sua plenitude e a plenitude do Deus Triúno.
 
O NOVO HOMEM
Efésios 2:15 diz que Cristo por meio da cruz "aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo um novo homem." Então em Efésios 4:22-24 é-nos dito para despojar-nos do velho homem e revestir-nos do novo homem. Este novo homem é o Corpo de Cristo. Revestir-se do novo homem quer dizer viver uma vida por meio do Corpo. Antes de nossa salvação estávamos vivendo no velho homem, na velha sociedade, mas agora somos membros de Cristo, vivendo em Seu Corpo. Devemos despojar-nos do velho homem com a velha vida social, e devemos revestir-nos do novo homem, a igreja. Neste novo homem não há nada natural, nada judeu, nada grego, nada de posição social; todos estão cheios de Cristo, assim Cristo é tudo e Cristo está em todos (Cl 3:10, 11). Não há nada além de Cristo no novo homem. A nossa vida é Cristo, nosso viver é Cristo, nossa intenção é Cristo, nossa ambição é Cristo, nossa vontade é Cristo, nosso amor é Cristo, e tudo o mais relacionado a nós é Cristo. Ele satura todo o nosso ser.
Esse novo homem, de acordo com Efésios 4:17-32, vive uma vida pela graça e verdade. Esses são os dois fatores prin­cipais no viver de tal novo homem para cumprir o propósito de Deus. Deus necessita de um novo homem nesta terra para cumprir o Seu propósito, para levar a cabo Sua intenção.
 
A NOIVA DE CRISTO
Em Efésios 5 temos a igreja como a noiva de Cristo (vs. 25, 29, 32; ver também Jo 3:29; Ap 19:7; 21:2, 9; 22:17). Cris­to deu-se na cruz não somente por você e por mim individualmente, mas para a igreja. Quando pensamos acerca da morte de Cristo, normalmente consideramos somente a nós mesmos individualmente. Sim, Cristo nos amou e morreu na cruz por cada um de nós, mas Sua morte foi principal­mente para a igreja.
Cristo também alimenta e cuida da igreja com carinho (v. 29). Alimentar é nutrir. Cuidar com carinho é envolver com cuidado amoroso, cheio de calor, como uma mãe segurando seu filho junto ao peito. Cristo trata Sua igreja dessa maneira supridora e carinhosa.
O grande mistério mencionado em 5:32 refere-se a Cris­to e à igreja. O capítulo 5 refere-se ao amor (vs. 2, 25) e à luz (vs. 8, 9, 13). Amor é a fonte da graça e luz é a fonte da ver­dade. Quando a luz brilha, ali está a verdade. Quando o amor é expresso, ali está a graça. No capítulo quatro, a igreja como o novo homem, experimenta graça e verdade, mas no capítulo 5 a noiva que satisfaz Cristo experimenta algo mais profundo e mais elevado, isto é, amor e luz. Como o novo homem, a igreja cumpre o propósito de Deus. Como a noiva, a igreja satisfaz o desejo de Cristo. Ele é o Esposo e a igreja é Sua esposa, satisfazendo o desejo de Seu Esposo.
 
A GUERREIRA
No capítulo quatro o novo homem cumpre o propósito de Deus. No capítulo cinco a noiva satisfaz o desejo do coração de Cristo. Agora, no capítulo seis, a igreja como a guerreira luta contra o inimigo de Deus (vs. 10-17).
 
SEU ASPECTO UNIVERSAL
O aspecto universal da igreja é mencionado em Mateus 16:18. Quando Pedro reconheceu que o Senhor Jesus era o Cristo e o Filho de Deus, o Senhor disse a ele que Ele edificaria Sua igreja sobre esta rocha. A igreja aqui é univer­sal, compreendendo todos os crentes de todos os tempos e em todos os lugares, incluindo Paulo, Pedro, e todos os san­tos ao longo destes vinte séculos (1 Co 12:13).
 
SEU ASPECTO LOCAL
O aspecto local da igreja é referido pelo Senhor Jesus em Mateus 18:17. O Senhor Jesus nos quatro Evangelhos menciona a igreja somente duas vezes: uma vez em Mateus 16:18, referindo-se a seu aspecto universal, e a segunda vez em Mateus 18:17, referindo-se a seu aspecto local.
Em Mateus 18 o Senhor Jesus disse que se temos algum problema que não podemos resolver, devemos dizer isso para a igreja. Isso refere-se à igreja em uma certa localidade. Seria difícil contar um problema para a igreja universal. Hoje, muitos cristãos que amam ao Senhor preocupam-se somente com a igreja universal. No conceito deles, contanto que sejam membros do Corpo de Cristo, isso é suficiente; mas perguntaríamos, praticamente falando, onde está a igreja deles? Se temos algum problema que para ser resolvido necessita da ajuda da igreja, aonde iremos? Temos de ter uma igreja local da qual sejamos parte, da qual podemos obter ajuda e à qual podemos ir com os nossos problemas.
 
As Igrejas Locais
Universalmente, a igreja é uma, mas localmente, as igrejas são muitas. Em Atos 8:1 há a igreja em Jerusalém. Em Atos 13:1 (VRC) há a igreja em Antioquia. Em seguida há igrejas mencionadas em Atos 14:23 e 15:41; aqui a palavra igrejas é usada porque havia várias cidades nestas regiões. Em Romanos 16:1 há a igreja em Cencréia. Há a igreja em Corinto (1 Co 1:2). Em Gaiatas 1:2 temos as igrejas na Galácia; havia muitas, porque a Galácia era uma província do antigo Império Romano com muitas cidades. Em Apocalipse 1:4 e 11 há as sete igrejas na Ásia. A Ásia também era uma província.
Apocalipse 1:11 diz: "O que vês, escreve em livro e manda às sete igrejas: Efeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sar-des, Filadélfia e Laodicéia." Este versículo revela que uma igreja é equivalente a uma cidade. Escrever para a igreja em Efeso quer dizer escrever para a cidade de Efeso. Estas são igrejas locais. Igreja local não é um termo usado como um nome, mas ele descreve o fato de haver uma igreja em uma cidade. A igreja não tem um nome, assim como a lua não tem um nome. Não há tal coisa como lua americana ou lua chinesa. A lua na China é a mesma lua como em outros países. Quando ela está sobre a China, ela é a lua na China. Quando ela está sobre a Inglaterra, ela é a lua na Inglaterra. Ela é uma única lua. Da mesma forma, a igreja é uma; ela é única. A igreja é tanto local como universal.
 
Os Candelabros
Essas igrejas locais são candelabros. Um candelabro é a corporificação do Deus Triúno. Como sabemos disso? Primeiro, a substância do candelabro é ouro, significando Deus, o Pai, e a natureza divina. Então, o candelabro tem um formato; ele não é somente uma massa informe de ouro, mas tem uma forma definida. Isso significa Cristo como a própria corporificação de Deus. Terceiro, as sete lâmpadas são os sete olhos do Cordeiro e os sete Espíritos de Deus (Ap 5:6; 4:5 - IBB - Rev.). As sete lâmpadas como os sete Espíritos de Deus são a expressão do Deus Triúno. O Espírito é a expressão, o Filho é o formato, a forma, e o Pai é a substância da igreja como o maravilhoso candelabro.
Dizer que a igreja é a corporificação do Deus Triúno não é fazer a igreja uma parte da deidade, um objeto de adoração. Queremos dizer que a igreja é uma entidade nas­cida de Deus (Jo 1:12, 13), possuindo a vida de Deus (1 Jo 5:11, 12), e desfrutando a natureza de Deus (2 Pe 1:4). A igreja tem a substância divina, possui a semelhança de Cristo e expressa o próprio Deus. Desde que nascemos de Deus, nós certamente temos a vida de Deus e possuímos a Sua natureza, e desfrutamos esta vida e natureza todos os dias. Estamos aprendendo por Sua misericórdia e graça a não viver por nossa vida natural, mas por meio da vida e natureza divinas. Enquanto estamos sendo assim transformados, haverá a plenitude, a expressão, a forma, a aparência de Cris­to, e estaremos brilhando, não por nós mesmos, mas pelo Espírito sete vezes intensificado.
A igreja é a corporificação do Deus Triúno para expressá-Lo. Nós, como membros de Cristo, somos os filhos de Deus nascidos Dele, tendo Sua vida e possuindo Sua natureza. Estamos fazendo o melhor para viver por esta vida e natureza, para que possamos ser enchidos e saturados com este rico Cristo a fim de tornarmo-nos Sua expressão por meio do Espírito sete vezes intensificado.
Isso é uma igreja local. Ela não é somente uma assembléia exterior. Ela é algo interior, de vida, contudo, ex­pressando o próprio Deus. Queridos santos, este é o objetivo de Deus.
 
Seu Conteúdo — o Cristo Pneumático
O conteúdo da igreja é o Cristo pneumático. Grandes mestres na história da igreja primitiva usaram tal termo. Isso quer dizer que Cristo é idêntico ao pneuma, ao Espírito. Não conseguimos explicar isso, todavia isso é um fato. Hoje você e eu estamos vivendo Cristo. Cristo não é somente nossa vida interior, mas também nosso viver exterior. Paulo disse: "Para mim o viver é Cristo" (Fp 1:21a). Nós vivemos Cristo. Ele não é meramente o Cristo objetivo sentado no trono; esse Cristo que está no trono à destra de Deus está simultanea­mente dentro de nós.
Como Cristo pode estar no trono nos céus e também estar dentro de nós? Romanos 8:34 nos diz claramente que Cristo está à destra de Deus, mas o versículo 10 do mesmo capítulo diz: "Cristo está em vós". No mesmo capítulo, um versículo nos diz que Cristo está nos céus e outro versículo nos diz que Cristo está em nós.
A eletricidade nos proporciona uma boa ilustração de como isso pode ser. A luz em uma sala vem da eletricidade. Essa eletricidade está ao mesmo tempo na usina elétrica e na sala. Há uma corrente de eletricidade. Essa corrente conecta a usina elétrica ao prédio. Similarmente, Cristo é "elétrico", pneumático. Há uma corrente do trono de Deus para o nosso espírito. Aleluia! O nosso espírito está todo conectado ao trono celestial, assim como as luzes em uma sala estão todas conectadas à usina elétrica pela corrente interior de eletricidade. A corrente de eletricidade é simplesmente a própria eletricidade. A corrente é a eletricidade em movimento. A eletricidade que se move é a corrente. Cristo é o pneuma que se move. Essa corrente que se move é chamada por João, em sua primeira epístola, de comunhão (1 Jo 1:3). A comunhão é a corrente de Cristo. Cristo está circulando, movendo-se. Carecemos de expressão humana para descrever algo tão misterioso e profundo. A eletricidade, entretanto, pode ajudar-nos a ilustrar tal assunto misterioso, abstrato.
O nosso Cristo é a corrente de eletricidade. O nosso Cristo é a circulação sangüínea em Seu Corpo. Ele é a própria comunhão entre Deus e nós, e entre todos os filhos de Deus. A corrente é o Cristo pneumático e este Cristo pneumático é o próprio conteúdo da igreja. Cristo, que é o Espírito que dá vida (1 Co 15:45 - lit.), está sempre se moven­do para infundir a Si mesmo para dentro de nós. O propósito da corrente elétrica é infundir eletricidade para dentro das lâmpadas para que todas elas possam expressar a luz da eletricidade. Esse Cristo pneumático está movendo-se em nós com o propósito de infundir-se para dentro de nós para que possamos expressar a Sua vida. Todos fomos batizados Nele e agora estamos bebendo Dele (1 Co 12:13).
 
SEU FUNDAMENTO
O fundamento da igreja é Cristo, revelado e ministrado por intermédio dos apóstolos e profetas. Efésios 2:20 fala do fundamento dos apóstolos e profetas. Esse fundamento é o próprio Cristo que eles ministraram a outros. Paulo disse que Cristo era o único fundamento, o qual ele havia lançado. Ninguém pode lançar outro fundamento (1 Co 3:10, 11). O Cristo, que é o fundamento da igreja, é o Cristo único, revelado e ministrado pelos primeiros apóstolos, como registrado no Novo Testamento.
Devemos ficar com esse Cristo. Não devemos tomar "outro Cristo". Quão gratos somos ao Senhor por que Ele tem guardado Sua Santa Palavra nesta terra, e que sob Sua soberania ela tem sido traduzida para tantas línguas! Que misericórdia! Se não houvesse a Bíblia nesta terra, que era tenebrosa seria esta. Aleluia, temos a Bíblia! Isso é certa­mente a lâmpada brilhando em um lugar escuro (2 Pe 1:19). Ela tem-se tornado a luz do nosso caminho (SI 119:105) e nós estamos andando nesta luz — a luz da Bíblia.
SUA BASE
A Primeira Epístola aos Coríntios 3:11 diz que não há outro fundamento que possa ser lançado exceto o único fun­damento, Cristo. Antes que uma fundação seja lançada, entretanto, uma casa deve ter um terreno no qual ela possa ser construída. O lote é a base sobre a qual o fundamento é construído. Então a casa é construída em cima do fundamen­to. A estrutura é construída sobre o fundamento e o fundamento é lançado sobre a base.
A Igreja Católica alega que o seu fundamento é Cristo. As Igrejas Metodista e Prebisteriana também alegam que o fundamento delas é Cristo. Todas as denominações fazem esta mesma afirmação. O fundamento delas, entretanto, está edificado sobre diferentes bases. A Igreja Presbiteriana está edificada sobre Cristo na base Presbiteriana. A Igreja Batista está edificada sobre Cristo, mas na base da imersão na água deles. Os metodistas têm uma base metodista sobre a qual Cristo como o fundamento deles está edificado. As várias denominações seguem o mesmo caminho. Elas edifícam sua denominação em Cristo mas na base particular delas.
Nós não gostamos de criticar, mas temos de falar a ver­dade. Fico pesaroso porque a Igreja Batista Sulina somente reconhece aqueles que são imersos na água deles e pelos pas­tores deles. Se alguém foi imerso em outro lugar, eles não o deixarão juntar-se a eles a menos que ele aceite a imersão deles feita pelo pastor deles. Isso faz da imersão Batista a base e os torna uma facção, uma denominação. A Igreja de Cristo tem uma prática similar, exceto que eles crêem na regeneração batismal, que a água deles pode regenerar aqueles que são batizados nela.
Antes de vir a Dallas em 1966, fui convidado por um irmão em Los Angeles para jantar em sua casa. Enquanto estávamos comendo, um irmão perguntou-me se cria no batismo pela água. Eu disse: "Creio no batismo pela água e no batismo pelo Espírito também." Ele imediatamente começou a argumentar que não havia tal coisa de batismo pela água na Bíblia. Era cristão há quarenta anos e nunca tinha ouvido nenhum cristão dizer que no Novo Testamento não há batismo pela água. Quando citei a ele João 3:5 acerca de ser nascido da água e do Espírito, ele disse que a água ali era a água do ventre materno! Para ele, todos devem primeiramente nascer de sua mãe, o que é significado pela água, e então ele tem de nascer do Espírito. Eu nunca tinha ouvido tal explicação. O conceito era tão absurdo que senti que não havia necessidade de falar.
Na manhã seguinte voei para Dallas. A noite tive uma reunião ali. Enquanto eu estava falando, uma mulher ousada perguntou-me acerca do batismo pela água. Descobri que ela era da Igreja de Cristo e que era totalmente pelo batismo na água deles. Em Los Angeles alguém fora totalmente contra o batismo pela água, e no dia seguinte em Dallas havia alguém totalmente a favor do batismo pela água. Tal é a situação de hoje. Pessoas edifícam uma assim chamada igreja sobre a base deles.
Todas as diversas denominações vieram à existência nas suas diversas bases. Seus vários nomes — Presbiterianas, Batistas, Episcopais, Luteranas, Metodistas, Pentecostais e outras — são as bases sobre as quais edifícam suas igrejas. Em que base você está edifícado? Não diga em Cristo. Todo cristão diz isso. Qualquer que seja a denominação ou grupo a que você vai, eles dirão que o fundamento deles é Cristo. Mas, e quanto a base onde o fundamento é lançado?
Qual é a nossa base? A base do início da era cristã, desde o tempo dos apóstolos, é a única unidade do Corpo de Cristo, mantida e expressada em cada igreja na sua localidade (Ap 1:11). Isso quer dizer que nós, cristãos, em qualquer localidade que estejamos, nos reunimos para ser a igreja ali. Não temos outra base além daquela da única unidade do Corpo de Cristo. Uma igreja local é uma expressão da igreja universal. A igreja universalmente é uma, e este único Corpo de Cristo é expressado em muitas localidades. Em toda localidade onde há vários santos, esses santos devem reunir-se como a igreja ali, não para tomar a base do batismo por imersão, falar em línguas, o presbitério, um método, o sis­tema episcopal, ou alguma base exceto aquela de ser um com
todos os outros reunindo-se ali como a expressão local do Corpo de Cristo.
Essa unidade deve ser a base na qual somos edificados. Não devemos ser sectários; não devemos ser exclusivos. Temos de ser todo-inclusivos, abertos e amando todos os queridos santos. Contanto que sejam cristãos, eles são nossos irmãos. Os nossos irmãos foram dispersos para muitas denominações. Apesar disso, nós ainda os amamos. Não devemos ter uma atitude ou um espírito de luta, oposição ou debate. Isso é errado. Devemos sempre manter um espírito e uma atitude de amar todos os cristãos. Desde que carreguem o nome de cristão e creiam no Senhor Jesus, eles são nossos irmãos e irmãs. Nas igrejas locais não temos nenhuma parede. Não temos nenhuma cerca. Consideramos todos os queridos cristãos como nossos irmãos.
 
      PREGAR O EVANGELHO, APRESENTAR A VERDADE E MINISTRAR VIDA COMO O TESTEMUNHO DE JESUS
Devemos aprender a verdade, crescer em vida, e sair para contatar as pessoas. O que dissermos dependerá do nosso discernimento. Se a pessoa não é salva, pregaremos o evangelho. Se descobrimos que ela é cristã, podemos apresentar a verdade que temos aprendido. Cristãos apreciam muito a verdade. Talvez possamos apresentar a ver­dade da transformação como em 2 Coríntios 3:18. Então, se possível, podemos ministrar vida a ela testemunhando, dizendo a ela como recebemos Cristo e como nós O ex­perimentamos como vida. Um testemunho ministrará vida às pessoas. Não espere trazer as pessoas para a reunião para que a igreja aumente. Deixe o assunto do aumento nas mãos do Senhor. O nosso testemunho não é um grande número. O nosso testemunho é um grupo de santos vivendo no espírito, andando de acordo com o espírito, e sendo a expressão viva de Jesus na família, na escola, no trabalho e na vida da igreja. O nosso encargo é apresentar o evangelho para os não-sal-vos, a verdade para os salvos, e vida aos que a buscam. Deixe
o assunto da igreja com o Senhor. Deixe cada pessoa esco­lher por si mesma de acordo com o seu discernimento. Ninguém pode controlar o cristianismo de hoje. Ele é grande demais. Temos de perceber a nossa pequenez. Nós devemos viver Cristo e andar no espírito, sendo o testemunho vivo Dele. Desse modo seremos um benefício para todos aqueles que contatamos. Não devemos esperar que eles venham à nossa reunião. Se eles quiserem vir, é claro que não os rejeitaremos. Espero que estejamos todos claros acerca de onde nos posicionamos e como praticamos a vida da igreja. Que o Senhor abençoe a todos nós.
 

 
Capítulo Seis
O REINO (1)
 
Leitura da Bíblia: Mt 3:1, 2; 4:17; 10:1, 7; Lc 10:1, 9, 11; 4:43; Mt 24:14; Lc 17:20, 21; Jo 3:3, 5; Mc 4:26-29; At 1:3; 8:12; 19:8; 20:25; 28:23, 30, 31; Rm 14:17; 1 Co 4:17, 20; 6:9, 10; Gl 5:21; Ef 5:5; 2 Pe 1:3,11; Ap 1:9
 
A IGREJA E O REINO
O plano do Pai, a redenção do Filho e a aplicação do Espírito produzem os crentes, que são os componentes da igreja. Em Mateus 16:18, 19 o Senhor Jesus disse a Pedro: "Sobre esta rocha edificarei a minha igreja, e... dar-te-ei as chaves do reino dos céus" para abrir as portas do reino. Pedro usou uma chave no dia de Pentecoste para abrir o portão aos crentes judeus para entrarem no reino dos céus (At 2:38-42); ele usou a outra na casa de Cornélio para abrir o portão para que os crentes gentios entrassem no reino (At 10:34-48). Em Mateus 16:18, 19 estes dois termos, a igreja e o reino, são intercambiáveis. Onde há a igreja, certamente há o reino. Se há o reino, certamente há a igreja.
 
UM DIAGRAMA DO REINO
Desde que o reino é um dos mais complexos temas na Bíblia, o diagrama nas páginas seguintes será de grande ajuda para o nosso entendimento. O primeiro e o último círculos do diagrama estão coloridos em amarelo dourado. Ouro significa Deus ou o que é divino. Estes dois círculos repre­sentam a eternidade passada e a eternidade futura. Entre esses dois círculos existem quatro círculos no tempo. O tempo é a ponte entre os dois extremos da eternidade.
A ponte do tempo cobre quatro dispensações: a dispensação antes da lei, a dispensação da lei de Moisés até Cristo, a dispensação da graça e finalmente, a dispensação do reino. Essas dispensações ligam os dois extremos da eternidade.
Os círculos intitulados "A Dispensação Antes da Lei" e "A Dispensação da Lei" estão coloridos em marrom, sig­nificando algo terreno. A dispensação antes da lei refere-se aos Patriarcas e dura de Adão até Moisés. A dispensação da lei refere-se aos israelitas, durando de Moisés até Cristo. (Por favor, reparem nas colunas na parte de baixo do diagrama com as referências bíblicas e explicações.) Da primeira vinda de Cristo até a Sua segunda vinda é a dispensação da graça. Quando o Senhor Jesus voltar para estabelecer o Seu reino nesta terra, este será o reino de mil anos, o milênio, a dispensação do reino. Os círculos intitulados "A Dispensação da Graça" e "A Dispensação do Reino" estão coloridos em azul, significando o reino dos céus. O céu é sempre demonstrado pela cor azul.
O último círculo está colorido em amarelo dourado, mas ele é bem diferente do círculo amarelo dourado da eter­nidade passada. Na eternidade futura está a Nova Jerusalém, a qual é uma composição de todos os santos de todas as dispensações precedentes. Alguns serão dos Patriarcas, al­guns dos israelitas, alguns da igreja, e alguns também do milênio. Todos os santos dessas quatro dispensações estarão reunidos como a consumação final e máxima, a Nova Jerusalém. Em volta da Nova Jerusalém estarão as nações purificadas como os povos do novo céu e nova terra.
 
A Igreja — Crentes Vencedores e Derrotados
O primeiro círculo azul do quadro é a igreja, a qual é composta dos verdadeiros cristãos. Dentro desse círculo azul está um círculo tracejado também em azul. Este círculo sig­nifica os crentes vencedores, que estão entre as igrejas e pertencem às igrejas. Como cristãos nossa cor é azul. Nós somos celestiais. Estamos na terra, todavia somos celestiais. Um brasileiro, por exemplo, pode estar na África do Sul, mas ele ainda é um brasileiro. Ele é um brasileiro na África do Sul. Hoje estamos aqui na terra, mas não somos um povo ter­reno. Nós somos o povo celestial.
Deus tem escolhido e regenerado milhões de pessoas, mas nem todos acompanharão Deus. Esses se tornam os crentes derrotados. Alguns que foram regenerados cooperam com Deus. Esses tornam-se os crentes vencedores. Entre os crentes, então, existem duas categorias, os vencedores e os derrotados. Muito da disputa com respeito ao arrebatamento é devido à omissão desse ponto. Os crentes vencedores participarão no desfrute do reino milenar, mas os derrotados perderão o alvo.
Em 1 Coríntios 5:1-5 o apóstolo Paulo trata com um irmão que está envolvido em fornicação com a esposa de seu pai. Essa situação forçou o apóstolo a entregar tal pessoa "a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor" (v. 5). Seu espírito, Paulo disse, ainda seria salvo. Não obstante, tal pessoa pecaminosa ainda era um irmão, escolhido por Deus e regenerado. Paulo entrega tal pessoa a Satanás para ser castigado, contudo o espírito dela ainda será salvo. Quando o Senhor Jesus voltar para estabelecer o reino, poderia tal crente derrotado ser um rei junto com o apóstolo Paulo? Não é lógico crer assim. Entretanto, seu espírito será salvo. Esse caso mostra que há uma verdadeira diferença entre os crentes vencedores e os derrotados.
 
Quatro Categorias de Pessoas
Fora do círculo azul da igreja estão dois círculos pretos tracejados. O primeiro indica a aparência do reino dos céus. A essa aparência chamamos de cristandade. Ali há cristãos genuínos e falsos. Entre os verdadeiros cristãos há os ven­cedores e os derrotados. Os cristãos nominais e os verdadeiros compõem o que é chamado de cristandade. Exis­te uma diferença entre a cristandade e a igreja como o Corpo de Cristo. O Corpo de Cristo como a igreja genuína abrange somente os verdadeiros crentes. Os crentes falsos e nominais não são membros do Corpo de Cristo. Eles estão na cristandade, mas eles não estão na igreja.
O segundo círculo preto pontilhado, embaixo de "A Aparência do Reino dos Céus" significa o mundo, as nações. Entre as nações está a cristandade, abrangendo os crentes verdadeiros e falsos. Os cristãos genuínos são os verdadeiros membros do Corpo de Cristo, o qual é a igreja. Entre esses cristãos genuínos estão os vencedores e os derrotados. Entre as nações está a cristandade. Dentro da cristandade está a igreja, uma composição de cristãos genuínos, não incluindo os meramente nominais. Entre os verdadeiros cristãos estão os vencedores. Nesta terra, hoje existem essas quatro categorias de pessoas — o povo do mundo, os cristãos nominais, os cristãos verdadeiros e os cristãos vencedores.
 
Vencer — Acompanhar o Trabalho Transformador de Deus
O desejo de Deus é ter um povo que O acompanhe para vencer Satanás e todas as coisas negativas. Isso nos é possível, não em nós mesmos, mas por meio de Sua plena salvação. Vencer é experimentar essa salvação plena. Essa salvação in­clui a regeneração de nosso espírito e a transformação plena de nossa alma, resultando na transfiguração do nosso corpo. Dizer isso é fácil, mas para experimentar isso necessita muito trabalho da graça.
Fomos regenerados em nosso espírito e estamos sendo transformados em nossa alma. Se vamos vencer ou ser der­rotados depende da transformação da alma. Se deixarmos o Deus Triúno como o Espírito que dá vida nos transformar dia após dia, nós seremos vencedores. Mesmo agora somos ven­cedores, porque estamos acompanhando o trabalho transformador do Deus Triúno. Contanto que estejamos acompanhando o Seu trabalho transformador, nós somos vencedores. Quando não acompanhamos o Seu trabalho em nós, somos derrotados. Se seremos vencedores ou derrotados dependerá de nossa atitude com relação ao trabalho transfor­mador de Deus.
O Deus Triúno hoje está dentro de nós, trabalhando para transformar a nossa alma. Ele está renovando a nossa mente, nossa vontade e nossa emoção. Não há nenhum problema com o nosso espírito; ele foi regenerado. O problema está em nossa alma. Deus está concentrando o Seu trabalho transformador em nossa alma. Qual é a nossa atitude? Obedecer a Deus é acompanhar o Seu trabalho de transformação. Estamos todos aqui debaixo de Seu trabalho transformador. Quando esse trabalho em nossa alma estiver completo, nós estaremos completamente amadurecidos. Então o Senhor Jesus voltará para redimir, transfigurar nosso corpo, e estaremos em glória (Fp 3:21).
 
Nossa Vida Diária
A questão do reino está muito relacionada à nossa vida diária. O trabalho transformador de Deus é, na realidade, Seu exercitar de Seu reino. Muitos cristãos têm sido distraídos pelos prazeres da alma. Nós também podemos ser distraídos da economia de Deus por diferentes formas de divertimentos, entretenimentos ou esportes.
Deus Espírito está trabalhando dentro de nós, tentando transformar o nosso pensamento. Por exemplo, como alguém que ama a Jesus você sabe que não deve ir a um baile. Você pode querer ir, mas o Espírito transformador está se debaten­do dentro de você. Algo dentro de você diz que não é correto alguém que ama Jesus fazer isso. Na realidade, aquela luta dentro de você é o trabalhar do Espírito Santo para transfor­mar a sua mente (Rm 12:2) com respeito à questão de dançar. Ele também deseja transformar a sua emoção nessa questão. Sua emoção não deve estar voltada à dança, mas voltada à Nova Jerusalém.
Você coopera com esse trabalho transformador? Às vezes os santos são derrotados e vão dançar. Naquela hora eles são derrotados. Entretanto, você pode tomar a graça para cooperar com o Espírito que habita interiormente e dizer: "Amém, Senhor, eu Te seguirei. Eu acompanho o Teu mover dentro de mim. Aleluia! Irei para a reunião da igreja!"
Essa escolha envolve mais do que ir à reunião. Isso quer dizer que você está transformado em sua mente com respeito à dança. Sua emoção está também transformada: ao invés de apreciar a dança, você aprecia ir à reunião. Essa transformação também envolve sua vontade porque você decidiu não ir. Você disse: "Satanás, não irei a tal coisa malig­na. Eu irei à reunião da igreja." Por tomar tal posição, sua mente, vontade e emoção são todas tocadas. Ser tocado dessa forma é ser transformado.
Isso ilustra como o Senhor como o Espírito todo-inclusivo habitando em nós está fazendo o Seu trabalho transformador. Se acompanhar isso, você é um vencedor. Do contrário, é um derrotado.
 
Realidade, Aparência e Manifestação
Dentro do primeiro círculo azul do diagrama está a realidade do reino dos céus. Os crentes vencedores estão vivendo nesta realidade. Fora do círculo azul está a aparência do reino dos céus.
Três parábolas em Mateus 13 falam da aparência do reino dos céus. A primeira é a parábola do trigo e do joio (vs. 24-30, 36-43). Trigo refere-se aos crentes genuínos e joio, aos falsos. Os falsos não estão na igreja mas na cristandade, a aparência do reino. A segunda parábola é a parábola do grão de mostarda (vs. 31, 32). O grão de mostarda é uma erva para produzir alimento, mas nesta parábola ela cresce até ser árvore, um abrigo para pássaros, isto é, para pessoas e coisas malignas. A igreja, com a sua natureza mudada, tornou-se profundamente arraigada e estabelecida na terra. Externa­mente viçosa, a grande árvore fala dos empreendimentos da cristandade, os quais são a aparência exterior do reino dos céus. A terceira parábola é a parábola do fermento (v. 33), que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de fari­nha. O pão que está levedado é mais fácil de se comer. Muitas verdades bíblicas com respeito a Cristo foram levedadas pela cristandade. Esses ensinamentos levedados são mais fáceis de as pessoas tomarem.
O segundo círculo azul no diagrama é a manifestação do reino dos céus. Este é o terceiro aspecto do reino dos céus.
Ver estes três aspectos — a realidade, a aparência e a manifestação — nos ajudará a entender a verdade com respeito ao reino dos céus de uma maneira apropriada.
 
O GOVERNO DE DEUS
O reino é o governo de Deus (At 26:18; Cl 1:13). Aqui Deus pode exercer a Sua autoridade para o cumprimento do Seu propósito (Mt 6:13b). O Senhor Jesus orou em Mateus 6:10: "Venha o Teu reino, faça-se a Tua vontade." Se não há nenhum reino, Deus não tem como cumprir a Sua vontade. Deus precisa de um reino para cumprir Seu propósito.
 
O HOMEM DEVE GOVERNAR POR DEUS
Os propósitos na criação do homem por Deus podem ser vistos em Gênesis 1:26-28. Primeiro, Deus criou o homem à Sua própria imagem. Isso indica que a intenção de Deus era se expressar através do homem que Ele criara. Segundo, Deus intencionava que o homem tivesse domínio (gover­nasse) sobre todas as coisas criadas para o Seu reino.
 
O REINO E ISRAEL
O reino foi primeiramente formado entre os filhos de Is­rael. Em Êxodo 19:6 o Senhor disse aos filhos de Israel que eles seriam para Ele um reino de sacerdotes. Israel era o reino de Deus no Velho Testamento.
 
A PRIMEIRA COISA PREGADA NO NOVO TESTAMENTO
O reino foi a primeira coisa pregada no Novo Testamen­to (Mt 3:1, 2; 4:17; Lc 9:1, 2; 10:1, 9, 11; 9:60). João Batista, o primeiro pregador da era do Novo Testamento, disse às pes­soas: "Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus." O primeiro item pregado no Novo Testamento é o reino, não os céus.
Muitos cristãos pensam que o céu e o reino são sinônimos. Eles acreditam que estar no reino é estar nos céus. Muitos acham que quando um cristão morre, sua alma vai para o reino dos céus. Para eles, isso quer dizer que ela vai para os céus. Esse pensamento não está de acordo com a revelação divina. O céu não é o reino; tampouco o reino dos céus é o céu.
 
PREGADO COMO O EVANGELHO
No Novo Testamento o reino é pregado como o evan­gelho (Lc 4:43; At 8:12; Mt 24:14; cf. Lc 18:29; Mc 10:29). O reino é o evangelho. Em Lucas 4:43 e Atos 8:12 a palavra grega para pregar é a forma verbal de evangelho. A palavra usada nestes dois versículos significa pregar algo como o evangelho. O Senhor Jesus em Lucas 4 e Filipe em Atos 8 pregaram o reino como o evangelho.
Em Marcos 10:29 o Senhor refere-se ao deixar tudo e segui-Lo por causa do evangelho. Em Lucas 18:29, entretan­to, o Senhor fala de deixar tudo e segui-Lo por causa do reino de Deus. Deixar tudo por causa do evangelho quer dizer deixar tudo pelo reino de Deus. O que quer que façamos pelo reino de Deus é o que fazemos pelo evangelho, porque aos olhos de Deus o reino e o evangelho são sinônimos.
 
HERDANDO A VIDA ETERNA
Em Marcos 10:17, 23 podemos ver que herdar a vida eterna é entrar no reino. Receber a vida eterna é uma coisa; herdá-la é outra. O Novo Testamento faz a diferença bem distinta, mas muitos cristãos não notam essa diferença. Quan­do cremos no Senhor Jesus, fomos regenerados e recebemos a vida eterna. Quando vivemos por esta vida que recebemos, ela torna-se a nossa herança para o nosso desfrute. Recebemos a vida eterna hoje, mas herdá-la, entrar nela, é uma questão da era vindoura. Herdar ou não a vida eterna como a nossa bênção dependerá de se você é um vencedor ou um derrotado. Entrar na vida eterna, herdar a vida eterna, quer dizer entrar no reino, herdar o reino.
 
UMA ENTRADA PARA O REINO
Todas as coisas que se relacionam com a vida divina foram concedidas a nós para suprir-nos uma entrada no reino (2 Pe 1:3, 11). Em 2 Pedro 1:3 diz-se que "pelo seu divino poder nos têm sido doadas todas as cousas que conduzem à vida e à piedade". Os versículos 5-11 nos mostram o desen­volvimento da vida eterna resultando em uma rica entrada no reino eterno. Por meio da vida eterna com o seu desenvol­vimento nós podemos entrar no reino.
 
RELACIONADO À VIDA INTERIOR E À VIDA DA IGREJA
O reino está relacionado à vida interior e à vida da igreja. João 3:3, 5 nos diz que temos de ser nascidos de novo para ver o reino e para entrar no reino. Entrar no reino de Deus é uma questão da vida interior. Precisamos nascer de novo para que tenhamos a vida divina. Quando temos essa vida, entramos no reino. Receber a vida divina é entrar no reino de Deus.
Em Mateus 16:18, 19 o Senhor diz que Ele edificará a Sua igreja, e então Ele dará a Pedro as chaves do reino dos céus. Esses versículos mostram que o reino dos céus é para a igreja. Romanos 14:17 diz: "Pois o reino de Deus não é co­mida nem bebida, mas justiça e paz e alegria no Espírito Santo." Romanos 14 é um capítulo sobre como receber os fracos na vida da igreja. Quando Paulo menciona o reino de Deus nesse capítulo, ele está se referindo à vida da igreja. A vida da igreja é o reino de Deus hoje. A vida da igreja, o reino de Deus, não é uma questão de comida nem bebida, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo.
 
A SEMENTE SEMEADA NOS EVANGELHOS
O Cristo todo-inclusivo tem sido semeado para dentro daqueles que Nele crêem como a semente do reino (Mt 13:3; Mc 4:26). O próprio Senhor está dentro dos crentes como o Rei, a semente. Jesus é o Rei; nós somos o "no"! O reino é a expressão ou a extensão do Rei. O Rei é a semente, e a igreja é a extensão, o "no". A expansão do Rei dentro dos crentes como a semente é o reino (Mc 4:26-29). O reino foi semeado nos Evangelhos pelo Senhor Jesus no meio dos judeus e dentro dos Seus discípulos (Lc 17:20, 21). O reino é algo in­terior. Não podemos observá-lo exteriormente. O Senhor Jesus disse que o reino não era visível.
Esse reino foi manifestado a Pedro, Tiago e João (Mt 16:28—17:2). Quando o Senhor semeou a semente do reino entre os judeus, dentro de Seus crentes, os judeus não con­seguiam discernir isso. Um dia, entretanto, três discípulos foram ao monte com o Senhor Jesus. No monte, Jesus foi transfigurado. Sua transfiguração foi a manifestação do reino. O reino é o próprio Jesus Cristo semeado para dentro de nós e crescendo em nós, até que um dia haja a manifestação do reino.
 
O REINO EM ATOS
Em Atos, o reino foi ensinado pelo Senhor depois de Sua ressurreição. Atos 1:3 nos diz que Ele esteve com os discípulos por quarenta dias "falando das cousas concernen­tes ao reino de Deus."
O reino foi também pregado pelos apóstolos. Em Atos 8:12 Filipe "evangelizava a respeito do reino de Deus." Paulo também pregou o reino de Deus (At 19:8; 20:25; 28:23, 31). Os últimos dois versículos de Atos nos dizem que "por dois anos permaneceu Paulo na sua própria casa, que alugara, onde recebia a todos que o procuravam, pregando o reino de Deus."
Alguns mestres da Bíblia acreditam que o reino foi suspenso devido à rejeição dos judeus. Eles crêem que esta não é a era do reino, mas a era da igreja, e que o reino virá mais tarde. Esse ensinamento é incorreto. Como vimos, a igreja na realidade é o reino. Mesmo nesta era, a era da igreja, a era da graça, o reino está aqui. Isso é claro em muitas referências ao reino no livro de Atos.
 
O REINO NAS EPÍSTOLAS
Também podemos ver o reino nas Epístolas. As Epístolas nos dizem que os crentes foram transferidos para o reino (Cl 1:13; Hb 12:28). Também nas Epístolas o reino é a vida da igreja (Rm 14:17).
Em 1 Coríntios 4:17, 20 também nos mostra que o reino é a vida da igreja. O versículo 17 diz: "Vos mandei Timóteo... o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo Jesus, como por toda parte ensino em cada igreja." Os versículos 18-20 dizem: "Alguns se ensoberbeceram, como se eu não tivesse de ir ter convosco; mas em breve irei visitar-vos, se o Senhor quiser, e então conhecerei não a palavra, mas o poder dos en-soberbecidos. Porque o reino de Deus consiste, não em palavra, mas em poder." Estes versículos mostram que o reino de Deus é a igreja em todos os lugares, e a igreja em todos os lugares é o reino. O reino está aqui porque a igreja está aqui.
Também nas Epístolas alguns dos crentes eram os cooperadores do apóstolo para o reino de Deus (Cl 4:11). Paulo e seus cooperadores estavam trabalhando pelo reino. Isso quer dizer que eles estavam trabalhando pela igreja. Trabalhar pela igreja é trabalhar pelo reino; assim a igreja é o reino. As pessoas da igreja também herdarão o reino (1 Co 6:9, 10; 15:50; Gl 5:21; Ef 5:5; Tg 2:5; 1 Ts 2:12; 2 Pe 1:11).
 
O REINO EM APOCALIPSE
O reino é também visto no livro de Apocalipse. João disse que ele era um companheiro com os crentes "no reino e na perseverança, em Jesus" (1:9). Se o reino é algo para o futuro, então a perseverança também deve ser algo para o futuro. Se a perseverança está aqui hoje, então o reino deve também estar presente hoje. A menção da perseverança em Apocalipse 1:9 indica que o reino no qual João estava não é algo ainda por vir. Ele está aqui agora; nós somos cooperadores com João no reino presente.
Esse reino presente virá em sua plena manifestação depois da grande tribulação (Ap 12:10). Então, finalmente, o reino do mundo se tornará o reino de nosso Senhor e de Seu Cristo no milênio (Ap 11:15). Esse é um esboço breve do en­sinamento no Novo Testamento com respeito ao reino, dos quatro Evangelhos até o final de Apocalipse.
Capítulo Sete
O REINO (2)
 
Leitura da Bíblia: Mt 11:11; 16:18, 19; 5:3, 10, 20; 7:21; 13:24, 25; 25:1, 14; 19:28, 29; 24:45-47; 25:19, 23; Ap 11:15; 20:4, 6; 1 Co 15:24; Ap 21:1,2,3-7; 22:2-5,14,17
 
 A DIFERENÇA ENTRE O REINO DE DEUS E O REINO DOS CÉUS
 
O Reino de Deus
 
A maioria dos cristãos não percebem que existe uma diferença entre o reino de Deus e o reino dos céus. En­tretanto, o Novo Testamento faz uma clara distinção entre os dois.
O reino de Deus é o governo divino de eternidade a eternidade. Ele inclui Adão no Éden (Gn 2:8), os Patriarcas (de Adão a Jacó), a nação de Israel (Êx 19:6), a igreja (Mt 16:18, 19), a nação restaurada de Israel (At 1:6; 15:16), o milênio (Ap 20:4, 6), e o novo céu e a nova terra (Ap 21:1, 2). Atos 1:6 e 15:16 revelam que a nação restaurada de Israel é chamada de tabernaculo de Davi. A nação de Israel será restaurada na volta do Senhor. Depois disso será o milênio e, finalmente, o novo céu e nova terra. O reino de Deus abrange todas as dispensações da eternidade passada à eternidade futura. No diagrama há seis círculos, os quais in­cluem todas as dispensações da eternidade passada à eternidade futura. A totalidade desses seis círculos é o reino de Deus.
 
O Reino dos Céus
O reino dos céus é o governo celestial do início da igreja ao final do milênio, a parte crucial do reino de Deus. No diagrama há dois círculos delineados em azul, significando o reino dos céus. O reino dos céus é uma parte do reino de Deus assim como Sergipe e Goiás são parte do Brasil. Ser­gipe e Goiás são Brasil, mas não é correto dizer que o Brasil é Sergipe e Goiás. Da mesma forma, podemos dizer que o reino dos céus é o reino de Deus, mas não podemos dizer que o reino de Deus é o reino dos céus. O reino dos céus é o reino de Deus porque ele é parte do reino de Deus. O reino de Deus refere-se ao reino de Deus de uma forma geral, da eternidade passada à eternidade futura, mas o reino dos céus inclui somente duas partes do reino de Deus: a dispensação da graça e o milênio.
 
Um Período Transicional
O ministério de João Batista começa o Novo Testamen­to, mas ele mesmo não estava no reino dos céus. Mateus 11:11 confirma isto: "Entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele." Este versículo indica que João não estava no reino dos céus.
Entre o fechamento da era do Velho Testamento e o começo do reino dos céus houve um período transicional. Tal foi o tempo no qual João viveu. Ele estava próximo ao reino dos céus, mas não estava nele.
Mateus 21:43 e Marcos 12:9 indicam que o reino de Deus existia antes do tempo de João Batista. O Senhor Jesus disse aos líderes judeus que o reino de Deus seria tirado deles. Naquele tempo quando o Senhor Jesus estava falando, o reino de Deus estava com a nação judaica, mas Ele os es­tava prevenindo de que o reino de Deus seria tirado deles. Esses versículos indicam que o reino de Deus já existia entre os israelitas. O reino dos céus, em contraste, tinha somente se aproximado (Mt 3:2; 4:17). Aqui novamente está evidente que o reino dos céus é diferente do reino de Deus.
 
Começando em Pentecoste
Em Mateus 13 há muitas parábolas. A primeira é a parábola do semeador. Quando o Senhor Jesus veio como o semeador para semear a semente, o reino dos céus não havia vindo ainda; ele tinha somente se aproximado (Mt 3:2; 4:17;
É na segunda parábola, do trigo e do joio, que o reino dos céus está presente. O Senhor Jesus disse: "O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo" (13:24). O reino de Deus estava ali durante a pregação de João, de Jesus e de Seus discípulos. Naquele tempo, entretanto, não havia o reino dos céus. Em Mateus 3:2 João Batista disse: "Arrependei-vos porque está próximo o reino dos céus." Jesus começou o Seu ministério da mesma maneira, dizendo às pessoas para se arrependerem, pois o reino dos céus estava próximo (4:17). Em 10:7 o Senhor Jesus incumbiu os doze para pregar que o reino dos céus es­tava próximo.
Em Mateus 21:43, porém, o Senhor disse aos líderes judeus "que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos." Disto vemos que o reino de Deus estava com a nação de Israel desde o tempo de Êxodo 19:6. No tempo em que o Senhor Jesus falou a palavra em Mateus 21:43, o reino de Deus estava ali, mas o reino dos céus somente estava próximo.
Em Mateus 16:18, 19 o Senhor Jesus disse a Pedro que Ele edificaria a Sua igreja e que Ele daria a Pedro as chaves do reino dos céus. Pedro usou uma dessas chaves para abrir a porta para os crentes judeus entrarem no reino dos céus no dia de Pentecoste. Aqui está outra indicação de que o reino dos céus começou no dia de Pentecoste.
No diagrama há uma flecha, sobre a qual se lê: "A descensão do Espírito Santo" (At 2:1-4). A descensão do Espírito Santo no dia de Pentecoste marca o início do reino dos céus e o início do cumprimento da parábola do trigo e do joio. No dia do Pentecoste, Satanás começou a semear joio, falsos crentes, no meio do trigo, os crentes.
 
A REALIDADE DO REINO DOS CÉUS
A realidade do reino dos céus, como a realidade da vida da igreja (Rm 14:17), é revelada em Mateus 5—7. João 3:5 revela que a regeneração é a nossa entrada no reino de Deus. Entrar no reino de Deus requer a regeneração como um novo começo de nossa vida (Jo 3:3, 5), mas "entrar no reino dos céus" exige justiça excedente em nosso viver depois de termos sido regenerados (Mt 5:20). Mateus 5—7 nos mostra a realidade do reino dos céus.
 
A APARÊNCIA DO REINO DOS CÉUS
A aparência do reino dos céus é revelada nas parábolas do joio, do grão de mostarda e do fermento em Mateus 13:24-42. A aparência do reino dos céus é a cristandade, que está cheia de coisas falsas. O joio são os crentes nominais, fal­sos. Há muitos desses "crentes"na cristandade.
Fermento, na Escritura, significa coisas malignas (1 Co 5:6, 8) e doutrinas malignas (Mt 16:6, 11, 12). Práticas pagas, doutrinas heréticas e assuntos malignos têm sido misturados aos ensinamentos com respeito a Cristo para fermentar toda a cristandade.
O Natal é um exemplo desse fermento. Originalmente, 25 de dezembro era um dia em que os antigos romanos celebravam o nascimento do sol. Com a expansão da Igreja Católica, ela assimilou esta festa antiga porque tinha milhares de incrédulos que ainda queriam celebrar o nascimento do deus deles. Para acomodá-los, a Igreja Católica tomou 25 de dezembro como o nascimento de Cristo. Essa é a origem do fermento do Natal.
O Natal na realidade não tem nada a ver com Cristo ou com a igreja. Na restauração do Senhor temos somente Cris­to.
A Páscoa é outro exemplo de fermento. Como cristãos agradecemos ao Senhor pela Sua ressurreição, mas Páscoa, um "feriado cristão "de origem paga e cheia de práticas pagas; é fermento.
Com o papa e os cardeais da Igreja Católica Romana também podemos ver a cristandade, a aparência do reino dos céus. Não queremos estar na aparência; queremos estar na realidade. Se vivermos na realidade do reino dos céus hoje, desfrutaremos sua manifestação no futuro.
 
A MANIFESTAÇÃO DO REINO DOS CÉUS
A profecia em Mateus 24:30—25:30 revela a manifestação do reino dos céus. O milênio tem tanto o aspec­to celestial como o aspecto terreno. A manifestação do reino dos céus é a parte celestial do milênio. Essa manifestação é o reino do Pai. Mateus 13:43 diz: "Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai." Os justos são os vencedores, que serão a luz brilhando no reino de seu Pai. Na parte celestial do milênio — a manifestação do reino dos céus, o reino do Pai — os santos vencedores reinarão com Cristo como co-reis.
 
A RECOMPENSA DISPENSACIONAL DE CRISTO
O reino de Deus é uma parte da salvação eterna de Deus para todos os crentes, cuja entrada é a regeneração (Jo 3:5). A salvação eterna de Deus inclui Seu reino. Para entrar nesse reino precisamos ser regenerados.
O reino dos céus, entretanto, é a recompensa dispensacional de Cristo para Seus seguidores fiéis, cuja entrada é justiça excedente e fazer a vontade de Deus (Mt 5:20; 7:21). O reino dos céus é a recompensa dispensacional de Cristo porque ele é somente um período de mil anos. Recebemos a salvação eterna; mas, e, quanto a recompensa dispensacional? Isso está pendente. Ela será dada aos seguidores fiéis de Cristo.
D. M. Panton certa vez disse que os mestres cristãos dos seus dias estavam distribuindo entradas para as pessoas entrarem no reino dos céus. Quando eles chegarem lá, entretanto, disse Panton, o porteiro dirá a eles que os seus bi­lhetes não são genuínos. De acordo com Panton, muitos pregadores cristãos estavam enganando os ouvintes e dando-lhes bilhetes sem valor. Panton estava muito claro acerca da questão do reino dos céus.
Enquanto a salvação é eterna, a recompensa é dispensacional. Essa recompensa dispensacionsal é condicional. Se um estudante faz um excelente trabalho nos estudos, por exemplo, ele será recompensado em sua formatura. Ele tem-se autodisciplinado para obter notas altas para que possa obter uma recompensa. Como cristãos, temos de exercitar a nós mesmos sob a disciplina de Deus todos os anos de nossa vida cristã, a fim de receber a recompensa do reino dos céus. Muitos cristãos hoje vivem de uma maneira relaxada porque eles não percebem essa questão da recompensa e punição dispensacional. Por causa disso, há a necessidade da restauração da verdade com respeito ao reino.
Em 1936 publiquei um livrete sobre a entrada no reino do céus. O irmão Watchman Nee encorajou-me a escrever mais sobre esse assunto. Ele me falou de um irmão afastado, que depois de ler o livrete, foi reavivado e trazido de volta ao Senhor. Como resultado, em 1939 publiquei várias mensagens sobre a questão do reino dos céus.
Como cristãos, temos de ser cuidadosos para não per­dermos nossa recompensa. A nossa salvação jamais pode ser perdida. Ela é assegurada pela nossa predestinação por Deus. Calvino é forte na questão da predestinação eterna, com a qual concordamos, mas ele não viu a recompensa dispen­sacional. Sem essa chave não há maneira satisfatória para interpretar muito de Mateus e das cinco advertências no livro de Hebreus (2:1-4; 3:7—4:13; 5:11—6:20; 10:19-39; 12:1-29). Temos de pegar a chave para interpretar essas cinco advertências em Hebreus. A chave é a disciplina dispen­sacional.
 
Recompensa ou Punição
Os cristãos ou receberão recompensa ou sofrerão dis­ciplina. A recompensa é a realeza a ser exercida por Cristo com os Seus seguidores fiéis nos mil anos. A punição é revelada em Mateus 24:50, 51: "Virá o senhor daquele servo em dia em que não o espera, e em hora que não sabe, e castigá-lo-á, lançando-lhe a sorte com os hipócritas; ali haverá choro e ranger de dentes." Na volta do Senhor os cristãos relaxados e infiéis sofrerão punição.
Não pense que o Senhor é bondoso demais para não puni-lo. Um bom pai sempre disciplina os filhos. Disciplina é um sinal de amor (Hb 12:6, 7). Fomos escolhidos, predes­tinados, chamados e regenerados; agora estamos desfrutando a riqueza da graça do Senhor. Se recusarmos tomar o cami­nho do Senhor, não devemos pensar que quando morrermos nossos problemas acabarão. Isso não é lógico.
Um dia o Senhor voltará e estabelecerá o Seu trono de julgamento. Aqui Ele julgará não os incrédulos mas os cren­tes. Em 2 Coríntios 5:9 Paulo disse que ele anelava ser agradável ao Senhor. Então continuou dizendo: "Porque im­porta que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo" (v. 10). Na volta do Senhor, nós, cristãos, teremos de prestar contas a Ele no Seu trono de julgamento. Seu julgamento decidirá se seremos recompen­sados com uma entrada no reino dos céus ou se seremos punidos de alguma forma. Os cristãos derrotados sofrerão perda (1 Co 3:15).
 
A Necessidade de Arrependimento e Confissão
A redenção de Cristo é completa e perfeita, contudo ainda precisamos confessar os nossos pecados para que sejamos perdoados (1 Jo 1:9). Como cristãos precisamos nos arrepender diariamente para sermos trazidos de volta à economia de Deus. Muitos cristãos morrerão com problemas não resolvidos entre eles e o Senhor. Eles cometeram pecados depois de serem salvos, contudo, nunca os confes­saram nem se arrependeram. O perdão de Deus e a purificação de Cristo para os crentes quando pecam estão baseados na confissão deles. Se não confessamos, Deus não perdoa. Se não confessamos, Cristo não purifica. Achar que podemos viver negligentemente e que não teremos problemas depois da morte é ilógico. Temos de prestar contas a Ele. A verdade do reino é muito sóbria. Ela nos desperta. Quando o Senhor voltar, Ele voltará como nosso Noivo, mas também como nosso juiz (2 Tm 4:1,8).
 
Vencedores
Entre os crentes nas sete igrejas em Apocalipse 2 e 3 existem alguns vencedores fiéis, a quem o Senhor promete uma recompensa (Ap 2:7, 11, 17, 26-29; 3:5, 6,12,13, 21, 22). Esses vencedores que vivem na realidade do reino dos céus na era presente da igreja, serão os seguidores fiéis de Cristo na manifestação do reino dos céus. Eles serão recompen­sados com o desfrute da vida eterna no milênio (Mt 19:28, 29; 24:45-47; 25:19-23). Eles também serão co-reis com Cris­to no milênio (Ap 20:4, 6; 2 Tm 2:12).
 
O MILÊNIO
O milênio tem uma parte terrena e uma parte celestial. A parte terrena é o reino do Messias (2 Sm 7:13), o tabernáculo de Davi (At 15:16), o reino do Filho do homem (Mt 13:41; Ap 11:15). O reino do Pai é a parte celestial do milênio. O reino do Filho do homem é a parte terrena do milênio. No milênio, os vencedores na parte celestial reinam com Cristo sobre a parte terrena. Na parte terrena está o reino restaurado de Davi, onde Cristo como o Filho do homem, o descendente real de Davi, será o Rei sobre os fi­lhos de Israel.
Durante este tempo os filhos de Israel serão sacerdotes (Zc 8:20-23; Is 2:2, 3). Os santos vencedores serão reis na parte celestial, e a nação restaurada de Israel será os sacer­dotes na parte terrena, ensinando as nações a conhecer a Deus e a servi-Lo. As nações serão o povo na parte terrena do milênio (Mt 2:32-34). As ovelhas em Mateus 25 serão as nações e as nações serão o povo.
No milênio, então, haverá três tipos de povos: os santos vencedores como reis na parte celestial, os judeus res­taurados como os sacerdotes na parte terrena, e as ovelhas, as nações, como o povo. Os santos vencedores terão as nações para governar e os judeus terão as nações para en­sinar. As nações serão o povo governado por nós e ensinado pelos judeus.
O reino dos céus terminará no milênio (Ap 20:7). O reino de Deus, entretanto, continuará pela eternidade.
 
O REINO DE DEUS EM SUA MAIS PLENA EXTENSÃO
A mais plena extensão do reino de Deus começará no novo céu e nova terra (1 Co 15:24; Ap 21:1, 2). Neste reino eterno todos os santos redimidos ao longo dos séculos desfrutarão as bênçãos eternas da vida eterna na Nova Jerusalém, como filhos de Deus e reis com Cristo sobre as nações para sempre (Ap 21:6, 7; 22:3b-5, 14, 17). Como família real, teremos dois títulos: filhos de Deus e reis sobre as nações. O remanescente das nações purificadas será o povo das nações para desfrutar eternamente a bênção res­taurada da criação de Deus (Ap 21:3-5; 22:2b, 3a).
Até aqui vimos um quadro claro do reino de Deus e do reino dos céus. O nosso Deus tem um reino para levar a cabo o Seu propósito, cumprir a Sua vontade, e exercer a Sua justiça. Esse reino mostra a Sua multiforme sabedoria. O nosso Deus é justo, sábio e de propósito. A verdade do reino nos encorajará a prosseguir, e ela também será uma advertência para estarmos no lugar correto e no trilho cor­reto a fim de chegarmos ao destino correto.
 
  
Capítulo Oito
A NOVA JERUSALÉM — A CONSUMAÇÃO FINAL E MÁXIMA (1)
Leitura da Bíblia: Ap 21:1-3,9-14,16-23; 22:1,2,5,14,17
 
CRIAÇÃO E EDIFICAÇÃO
Requer-se toda a Bíblia para nos dar a revelação com­pleta de Deus. Gênesis fala-nos acerca da criação de Deus. Então, no fim da Bíblia vemos uma cidade santa. No começo há a criação e, no fim, uma cidade. Na criação Deus chamou "à existência as coisas que não existem" (Rm 4:17), mas uma cidade significa algo mais porque uma cidade é uma edificação. Na economia de Deus, então, Ele primeiro criou. Após a criação, Ele começou a edificar.
A idéia de edificação percorre todo o Novo Testamento. Depois que Pedro reconheceu que Jesus era o Filho de Deus e o próprio Cristo, o Senhor disse a ele: "Sobre esta pedra edificarei a minha igreja" (Mt 16:18). Aqui está a idéia de edificação em Mateus 16.
A idéia de edificação na realidade veio muito mais cedo. Para Deus o que estava acontecendo, mesmo nos tempos do Velho Testamento, era uma edificação. Em Mateus 21 o Se­nhor usou a parábola de uma vinha para representar a nação judaica. No final da parábola o Senhor disse aos líderes judeus que, por causa de esterilidade deles, o senhor da vinha voltar-se-ia da vinha para uma outra nação (isto é, para a igreja) (vs. 33-43). O Senhor disse a eles: "A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, an­gular" (v. 42). O Senhor estava lhes dizendo que eles eram os construtores e que Ele era a pedra angular, a qual eles, como líderes judeus, estavam rejeitando. Essa pedra rejeitada tor­nou-se, na soberania de Deus, a pedra angular da edificação.
Cristo, como a pedra angular, é a base do evangelho. Muitos pregadores citam Atos 4:12, que diz: "Não existe ne­nhum outro nome... pelo qual importa que sejamos salvos." Temos de perceber, porém, que Atos 4:12 está baseado no versículo 11. O versículo 11 nos diz que Cristo, a pedra rejei­tada, tornou-se a pedra angular. Esta pedra angular é o próprio Salvador no versículo 12. Cristo ser Salvador é ba­seado no fato de ser Ele a pedra angular, a qual foi rejeitada pelos construtores na economia do Velho Testamento. Os líderes judeus até aquele tempo eram os construtores aos olhos de Deus; a pedra rejeitada tornando-se a pedra angular é uma profecia no Salmo 118:22. Aos olhos de Deus, então, tanto a época do Velho Testamento como a do Novo Tes­tamento tem sido o seu período de edificação.
Logo depois de Sua criação Ele começou a edificar. A Sua criação foi para produzir os materiais de construção para Sua edificação. Deus criou o universo e o homem com o propósito de edificar uma cidade. Criação significa chamar coisas que não existem à existência. Uma cidade, entretanto, é uma edificação a partir de coisas criadas. Deus tem duas obras. A primeira é a obra de criação, e a segunda é a obra de edificação. A Nova Jerusalém, uma cidade como o edifício de Deus, é a conclusão de toda a revelação de Deus.
 
O HOMEM REGENERADO, MATERIAL DE EDIFICAÇÃO DE DEUS
Para que Deus tenha uma edificação, o centro de Sua criação, o homem, necessita ser regenerado. O homem regenerado torna-se o material de edificação de Deus. Deus não se infundiu para dentro de nenhum dos itens de Sua criação. Em Sua velha criação, Ele soprou o sopro de vida para dentro do homem (Gn 2:7), mas aquele sopro não era algo de Sua essência ou natureza. Era somente Seu sopro. Aquele sopro de vida, neshamah (hebr.), tornou-se o espírito do homem; como Provérbios 20:27 diz: "O espírito (neshamah) do homem é a lâmpada do Senhor." Nada da essência de Deus foi infundido para dentro do homem até a época do Novo Testamento e o completar da plena redenção do Senhor Jesus Cristo. Então Deus veio para dispensar, não somente algo Dele mesmo, mas também Ele mesmo para dentro do homem para que o homem pudesse ser regenerado por Ele (Jo 3:5), nascido Dele (Jo 1:12,13).
Quando nascemos de nosso pai terreno, a essência e natureza de nosso pai foram dispensadas a nós. Nós agora somos pessoas regeneradas, a descendência de Deus. Somos filhos nascidos de Deus, não filhos adotados por um pai adotivo. Fomos gerados de um pai que gera. Tudo o que o Pai é foi dispensado para dentro de nós, Seus filhos.
A única coisa Dele que não temos é Sua deidade. Ele é o próprio Deus. Mesmo que tenhamos nascido Dele, nós não participamos de Sua deidade. Dizer que somos deificados no sentido de ter Sua deidade é blasfêmia. Nós O adoramos. Mas nós mesmos não somos objeto de adoração de nenhum homem e nunca poderemos ser. Isso seria blasfemo.
Entretanto, devemos ter ousadia em dizer: "Aleluia! Eu tenho a vida de Deus (Cl 3:4; 1 Jo 5:12) e a natureza de Deus (2 Pe 1:4). Em vida e natureza eu sou igual ao meu Deus, porque nasci Dele." A Sua vida é nossa vida e Sua natureza é nossa natureza. Aleluia! Somos os excelentes filhos de Deus (Rm 8:16; 1 Jo 3:1). A última estrofe do hino 59 fala sobre nós e Deus: "Nada difere; em vida somos um."
O material natural proveniente da criação de Deus não está qualificado para ser usado como material de Sua edificação porque ele não tem nada da essência de Deus. O que Deus usa para a Sua edificação tem de ter a Sua essência.
 
UMA MONTANHA DE OURO
Em nossa vida diária somos incomodados pela poeira. Gosto do Texas mas não gosto do fato de ali ventar muito. Muito vento traz poeira. Quando estivermos na Nova Jerusalém, porém, não haverá poeira. A Nova Jerusalém, a cidade santa é uma montanha de ouro (Ap 21:18). Essa mon­tanha tem cerca de 2200 quilômetros de altura, a distância aproximada de Porto Alegre a Brasília. A Nova Jerusalém tem doze mil estádios de altura (Ap 21:16); um estádio é igual a 182 metros. Vocês já viram uma montanha tão alta? Levariam cinqüenta dias para subir a pé, se andassem 43 quilômetros por dia.
 
OURO, PEDRAS PRECIOSAS E PÉROLAS
A muralha da cidade é feita de jaspe sobre uma fundação de doze pedras preciosas diferentes (Ap 21:18-20). As pedras preciosas foram primeiramente criadas, e então transformadas por pressão e calor. Elas não são meramente naturais, mas foram criadas e, então, transformadas. No Novo Testamento existe um forte conceito de transformação (2 Co 3:18). As doze portas são doze pérolas (Ap 21:21). As pérolas também passaram por um processo. As pérolas são produzidas por ostras nas águas da morte. Quando a ostra é ferida por uma partícula de areia, ela expele sua secreção de vida em volta da areia e faz disso uma pérola preciosa. Nesse processo podemos ver a morte, o matar, e a secreção do suco de vida para produzir a pérola.
A cidade inteira é edificada com ouro, pedras preciosas e pérolas. Não haverá necessidade de varrer o chão. Não há poeira! Todas as coisas criadas foram transformadas.
 
A EDIFICAÇÃO DIVINA COM A HUMANIDADE TRANSFORMADA
Paulo, em 1 Coríntios 3, diz que o único fundamento foi lançado, mas temos de ser cuidadosos em como edificamos sobre ele. Podemos edificar com duas categorias de materiais: ouro, prata e pedras preciosas ou madeira, feno e palha (3:10-12). Madeira, feno e palha tornam-se pó depois que são queimados, mas ouro, prata e pedras preciosas, não.
No conceito de Paulo, o homem natural criado é madeira, feno e palha; os homens regenerados e transfor­mados são ouro, prata e pedras preciosas. Quando Pedro veio ao Senhor Jesus, ele era homem que tinha a natureza do pó, um homem feito de pó (Gn 3:19), porque ele nasceu da raça adâmica. Adão foi feito do pó, e Pedro nasceu um homem que tem a natureza do pó. No entanto, o Senhor Jesus o chamou Cefas (grego), que significa uma pedra (Jo 1:42). A mudança do nome de Simão pelo Senhor Jesus para Pedro indicava que Pedro seria transformado.
Essa foi a razão porque Pedro foi muito forte quanto a essa questão já na primeira epístola que escreveu. Ele disse que o Senhor Jesus é a pedra viva (1 Pe 2:4), e que, quando viemos a esta pedra viva, todos nos tornamos pedras vivas para sermos edificados uma casa espiritual (2:5). A casa espiritual não é edificada com madeira, feno e palha. Ela é edificada com materiais transformados. Porque a nossa mente é plenamente ocupada pelos pensamentos naturais de ética, filosofia e moral, nós negligenciamos essa questão no Novo Testamento. Todo o Novo Testamento, entretanto, está saturado com esse conceito da edificação divina da humanidade transformada. A conclusão da Bíblia é uma cidade santa composta de ouro, pérolas e pedras preciosas.
 
OS DOIS EXTREMOS DA BÍBLIA REFLETINDO UM AO OUTRO
Todos os materiais que compõem essa cidade santa são encontradas nos dois primeiros capítulos de Gênesis. Em Gênesis 2 existe a árvore da vida. Ao lado da árvore há um rio. Onde o rio flui há ouro, "e o ouro dessa terra é bom". Há o bdélio, uma pérola produzida pela vida vegetal, e a pedra de ônix (Gn 2:9-12). Em seguida, no final do capítulo, existe uma noiva para Adão (2:21-23).
Em Apocalipse 21 e 22 há uma noiva, uma cidade edificada com ouro, pérolas e pedras preciosas. Na cidade há um rio e no rio está a árvore da vida. Esses seis itens — a noiva, o ouro, as pérolas, as pedras preciosas, a árvore da vida e o rio — todos são encontrados nos primeiros dois capítulos de Gênesis. A diferença é que em Gênesis, a cidade não tinha ainda sido edificada. Os três materiais estavam ali mas não edificados em uma cidade. Seis mil anos mais tarde, por meio do trabalho edificador de Deus, todos os materiais foram edificados em uma cidade. Vocês vêem como esses dois extremos na Bíblia refletem um ao outro?
Em 1963 fui a Tyler, Texas, e fiquei na casa de um irmão. Depois de uma das reuniões um amigo dele, que era um mi­nistro itinerante, telefonou para seu amigo James Barber, em Plainview, Texas. Ele disse para James vir e ouvir-me a qualquer custo. Na noite seguinte, James Barber estava na reunião. Naquela noite dei uma mensagem sobre como os dois extremos da Bíblia refletem um ao outro. Esse homem, James Barber, foi capturado. Depois da conferência ele disse que tinha segurança em tomar esse caminho. Esse foi o início da vida da igreja no Texas. Espero que nós também possamos ter tal impressão gloriosa do início e do final da Bíblia refletindo um ao outro. Essa é a economia de Deus — edificar Sua habitação eterna com as coisas criadas e transformadas para serem Seus materiais.
 
A EDIFICAÇÃO DE DEUS EM ÊXODO
Quando os filhos de Israel foram trazidos ao monte Sinai, Deus revelou-lhes a planta do Seu tabernáculo e eles o edificaram. Aquilo era um tipo. No Santo dos Santos, dentro do tabernáculo, não havia nada para ser visto a não ser ouro. O ouro revestia as tábuas, e no teto podiam ser vistos fios de ouro. Sobre o sumo sacerdote estava o peitoral de ouro com­plementado por doze pedras preciosas. As doze pedras no peitoral tinham os nomes das doze tribos de Israel (Êx 28:15-21). Esse era o "alfabeto" especial de Deus para revelar Seu pensamento a Seus filhos por meio do Urim e Tumim (Êx 28:30). Podemos ver, então, que o pensamento da edificação de Deus, usando pedras preciosas, está também em Êxodo.
 
A EDIFICAÇÃO DE DEUS NO NOVO TESTAMENTO
No Novo Testamento somos incumbidos a sermos cuida­dosos em como edificamos (1 Co 3:10-12). Não use madeira, feno e palha, isto é, não use o seu homem natural. A igreja não é edificada com o homem natural. Ela é edificada com o homem regenerado e transformado. Quando você traz a sua vida natural para dentro da igreja, você faz da igreja não mais a igreja. Isso é o que está acontecendo hoje. Muitos cristãos, mesmo obreiros cristãos, estão fazendo da igreja não a igreja ao usar a maneira natural, a maneira carnal, a maneira do homem, não a maneira transformada e regenerada.
Pedro nos diz que como bebês recém-nascidos precisamos beber o leite da Palavra para que possamos ser transformados em pedras preciosas para sermos edifícados uma casa espiritual (1 Pe 2:2-5). Os escritos de João en­fatizam especialmente essa questão de transformação. No primeiro capítulo de seu Evangelho existe o Cristo encar­nado como o tabernáculo de Deus (1:14). Então, nos dois últimos capítulos de Apocalipse de João existe o tabernáculo ampliado, incluindo não somente Cristo, mas também todos os Seus crentes, porque naquele tempo eles foram regenerados, plenamente transformados e edifícados juntos para dentro de uma entidade. Isso é a Nova Jerusalém. Essa é a verdadeira revelação de Deus.
A Bíblia começa com a criação de Deus e conclui com a Sua edificação. Essa edificação é uma entidade regenerada e transformada. As pérolas indicam regeneração. É por isso que todas as portas de entrada são pérolas. Sem regeneração ninguém pode entrar no reino de Deus (Jo 3:5). Regeneração é a entrada para o reino de Deus, conforme plenamente representado pelas portas de pérola. As pedras preciosas significam transformação. Depois de entrar nesse reino pela porta de pérola, somos gradualmente transfor­mados para a edificação.
 
O TABERNÁCULO DE DEUS
A Nova Jerusalém será o tabernáculo de Deus com os homens na eternidade. O tabernáculo em Apocalipse não é um termo novo. Ele é plenamente revelado e retratado em Êxodo 25 a 40. Então, João 1:14 diz que a Palavra tornou-se carne e tabernaculou entre nós. Quando Jesus estava nesta terra, Ele era um tabernáculo.  Então, nos últimos dois capítulos da Bíblia está o tabernáculo eterno. Portanto, para entender os dois últimos capítulos de Apocalipse, temos de voltar e estudar Êxodo 25 a 40 e João 1:14.
 
O AGREGADO DE TODOS OS CANDELABROS
A cidade santa na montanha de ouro é o agregado de todos os candelabros. A cidade inteira tem uma rua (Ap 21:21; 22:2 - lit.), contudo essa única rua alcança todas as doze portas. Como uma rua em uma cidade poderia servir as doze portas? Também, a muralha tem cento e quarenta e quatro côvados de altura (21:17), e a própria cidade tem doze mil estádios de altura (21:16). Esses fatos indicam que a cidade propriamente dita deve ser uma montanha. No topo da montanha há um trono, do qual a rua desce em espiral até a parte mais baixa para alcançar as doze portas. Ela deve ser uma rua espiral, espiralando-se ao longo da montanha até circular por todas as doze portas. Uma rua, descendo do topo até a parte mais baixa, alcança e serve todas as doze portas. No topo dessa montanha de ouro está o trono como o centro. No trono está Cristo como o Cordeiro com Deus Nele (22:1). Esse Cordeiro é a lâmpada com Deus Nele como a luz (21:23; 22:5). Isso indica que Deus está no Cordeiro assim como a luz está na lâmpada.
Essa alta montanha de ouro é um suporte. Sobre esse suporte está uma lâmpada; portanto, isso é um candelabro de ouro. Isso é um candelabro de ouro com Cristo como a lâmpada e Deus dentro Dele como a luz, brilhando pela eter­nidade. Assim, a cidade santa na montanha de ouro é o agregado de todos os candelabros, a totalidade de todos os candelabros de hoje, brilhando para a glória de Deus na eter­nidade no novo céu e nova terra.
 
A Cidade e Sua Rua
A cidade e sua rua são de ouro puro como vidro transparente (21:18b, 21b - lit.). Ouro transparente repre­senta a natureza de Deus. Os mestres da Bíblia em geral concordam que, em prefiguração, ouro significa a natureza divina, a essência divina.
 
Os Doze Fundamentos e as Doze Portas
Os doze fundamentos de doze pedras preciosas diferen­tes, levando o nome dos doze apóstolos, representam todos os santos do Novo Testamento, representado por estes doze apóstolos (21:14, 19, 20). A Nova Jerusalém é uma composição de todos os santos redimidos, tanto do Velho como do Novo Testamento. Os doze apóstolos representam os santos do Novo Testamento, enquanto os nomes das doze tribos nas doze portas representam os santos do Velho Tes­tamento (21:12, 13, 21a).
As pérolas representam os santos produzidos por meio do Cristo encarnado, crucificado e ressuscitado. Em Sua encarnação Ele era como uma ostra viva nas águas da morte. Então, Ele foi ferido por nós, as pequenas partículas de areia. Essas feridas levaram-No a liberar o Seu suco de vida em volta de nós, assim tornando-nos pérolas. Aqui está a encarnação, crucificação e ressurreição. Por meio desse processo nós, os grãos de areia, tornamo-nos pérolas preciosas.
 
Pedras Preciosas
O fundamento e a muralha edificadas com pedras preciosas representam os santos transformados pelo Espírito Santificador (21:19, 20, 18a, 11b). Fomos feitos do pó, mas fomos regenerados em pedra e transformados em pedras preciosas. O pó, regenerado em pedra e transformado em pedra preciosa, está qualificado para ser usado como material para a edificação de Deus.
 
O Comprimento, Largura e Altura da Cidade
O comprimento, a largura e a altura da cidade são iguais, assim como o Santo dos Santos no Velho Testamento tinha três dimensões iguais (1 Rs 6:20). A medida lá é vinte côvados de comprimento, vinte côvados de largura e vinte côvados de altura. Esse é o Santo dos Santos na prefiguração do templo. O Santo dos Santos no tabernáculo tem dez côvados por dez côvados por dez côvados (Ex 26:2-8). Em ambos os casos, as três dimensões são iguais. O princípio é que tal edificação de três dimensões iguais representam o Santo dos Santos, que é o próprio lugar onde Deus habita (Ap 21:16). A cidade inteira, então, é o próprio lugar de habitação de Deus.
 
Sem Templo
João diz que ele não viu nenhum "santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-poderoso e o Cor­deiro" (21:22). Isso indica que a cidade inteira é o templo. Primeiramente há o tabernáculo em Êxodo. Então, depois de entrar na boa terra, os filhos de Israel edifícaram um templo, que substituiu o tabernáculo. Mesmo antes de o templo ser edificado, em 1 Samuel 3:3 o tabernáculo era chamado o templo. Isso quer dizer que o tabernáculo e o templo, na realidade, referem-se a uma coisa só. Um podia ser desmon­tado e movido de um lugar para outro no deserto; o outro tinha uma localização estabelecida na boa terra como uma edificação mais permanente.
A cidade santa é chamada o tabernáculo. No Velho Tes­tamento o templo estava na cidade de Jerusalém, mas em Apocalipse 21 e 22 a cidade inteira é o tabernáculo e o templo. Esse templo não é somente a habitação de Deus, mas também o lugar de habitação de todos os que O servem. Naquele tempo todos os santos serão sacerdotes com um sacerdócio eterno. Todos nós O serviremos (22:3). O nosso lugar de habitação, então, será o templo. A Nova Jerusalém é um grande templo, onde tanto Deus como os Seus redimidos habitam juntos.
 
A Glória de Deus como a Luz e o Cordeiro como a Lâmpada
"A glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua lâmpada" (Ap 21:23). "Nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles" (22:5). A glória de Deus como a luz e o Cordeiro como a lâmpada, significam que Deus em Cristo é a luz da Nova Jerusalém na eternidade. Na cidade nova não há necessidade de sol, da luz natural, nem de nenhuma lâmpada feita por homens porque o próprio Deus será a luz e Cristo será a lâmpada, brilhando Deus para iluminar a cidade inteira.Isso quer dizer que Deus em Cristo é tudo na Nova Jerusalém.
 
O Trono de Deus e do Cordeiro
O trono de Deus e do Cordeiro é o centro ad­ministrativo da cidade. Dele procede o rio da água da vida no meio da rua, com a árvore da vida, como uma videira, cres­cendo ao longo das duas margens (22:1, 2). A rua é uma espiral, e o rio está na rua. Desde que a árvore da vida cresce ao longo de ambas as margens do rio, ela deve ser uma videira. Uma árvore ereta não poderia crescer nas duas mar­gens. Ela deve ser, portanto, uma videira, crescendo espiralmente ao longo da rua. João 15 fala de uma videira (v. 1). Jesus é a videira, que é a árvore da vida.
Em um programa de rádio um mestre da Bíblia foi per­guntado acerca da árvore da vida. Ele disse que a árvore da vida já não existe. Isso é incorreto. A árvore da vida per­manece hoje, e ela permanecerá para sempre. Em Apocalipse 2:7 o Senhor Jesus disse que àquele que vencer Ele "dará de comer da árvore da vida". Ainda hoje essa promessa está sendo cumprida. A árvore da vida, da qual es­tamos comendo, é Jesus (Jo 6:57). O Senhor Jesus nos disse, por um lado, que Ele é o pão da vida (6:48), tipificado pelo maná. Então, por outro lado, Ele nos disse em João 15 que é a videira, e em 14:6 que Ele é a vida. Como a videira e a vida Ele é a árvore da vida. A árvore da vida em Gênesis 2:9 re­presenta Cristo. Ele veio a nós como a realidade em João 14 e 15. Ainda hoje Ele é a árvore da vida da qual podemos comer.
A árvore da vida, como a videira crescendo ao longo das duas margens do rio, significa que Deus no Cordeiro é o centro da Nova Jerusalém e a supre com a Sua vida divina para nutri-la e satisfazê-la. A rua, na qual o rio da água da vida flui, desce do topo da montanha espiralmente para alcançar todas as doze portas nos quatro lados da cidade para sua comunhão (22:1, 2). A rua é para comunicação; comunicação é comunhão. Em 1 João 1:1 e 3 vemos que dessa vida divina sai a comunhão divina. A rua, o rio e a árvore da vida são para comunhão. Hoje, na restauração do Senhor, estamos nessa comunhão, que está ao longo da rua com o rio fluindo e a árvore crescendo.
 
A NOIVA, A ESPOSA DO CORDEIRO
A consumação final e máxima é a noiva, a esposa do Cordeiro (21:2, 9). A cidade santa inteira é uma noiva. No Evangelho de João, quando os discípulos de João estavam com ciúmes de Jesus, João disse: "O que tem a noiva é o noivo" (Jo 3:26-29). Como o amigo do Noivo, João estava alegre por seus seguidores o deixarem e irem a Jesus, porque Ele era o noivo. A regeneração em João 3 é para a produção da noiva.
Consumadamente, seremos uma mulher coletiva pela eternidade (Ap 21:2). O único homem pela eternidade é nosso Deus, nosso Redentor, nosso Senhor. Seremos uma mulher coletiva para combinar com Ele. Finalmente, então, o que provém da dupla obra de Deus — criação e edificação — é um casal. Deus está casado com o homem e o homem está casado com Deus. Na conclusão dos sessenta e seis livros da Bíblia está Apocalipse 22:17 que diz: "O Espírito e a noiva dizem..." A conclusão da Bíblia é aquilo que o casal diz.
Essa noiva que combina com o Espírito é a consumação final e máxima de todos os homens tripartidos, redimidos, regenerados, transformados e glorificados. O Espírito é o Espírito todo-inclusivo como a consumação final e máxima do Deus Triúno. O Espírito é o Deus Triúno alcançando-nos, pois O que alcança é a consumação. Ele passou pelos processos de encarnação, viver humano, crucifícação, ressurreição e ascensão.
Hoje o nosso Deus é um Deus processado. No princípio era a Palavra, e a Palavra era Deus, e essa Palavra tornou-se carne. A encarnação é um processo. Esse que se encarnou, viveu na terra na casa de um pobre carpinteiro. Depois de trinta e três anos e meio Ele foi levado como um cordeiro para o matadouro, e foi imolado na cruz. Isso também foi um processo. Ele foi ao Hades (At 2:27; Ef 4:9), e Ele entrou na ressurreição. Esses também são processos. Certamente todos esses passos são processos pelos quais Ele passou. Hoje nos­so Deus não pode ser igual ao que era antes da encarnação.
Vocês crêem que Deus é igual ao que era antes da encarnação? Hebreus 13:8 diz: "Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre." Se disserem que desde a Sua ressurreição Ele é o mesmo ontem, e hoje e para sempre, concordo com vocês; mas se disserem que esse versículo é verdadeiro para Jesus antes da encarnação, eu não concordo. Ele não tinha carne antes de Sua encarnação. Por todos esses processos Deus tornou-se nosso Redentor, nosso Salvador e nossa vida. Ele até mesmo tornou-se o Espírito que dá vida, rico, abundante, dentro de nós hoje.
Assim, na conclusão da Bíblia está a consumação do Deus Triúno processado, enquanto a esposa é o agregado e a consumação de todos os homens tripartidos, redimidos, regenerados, transformados e glorificados. Aleluia! O Deus Triúno casa com o homem tripartido. Eis aqui um casal eter­no expressando o Deus Triúno pela eternidade. O homem tripartido na eternidasde estará desfrutando desse rico Deus Triúno.
Fomos escolhidos e predestinados, e fomos chamados, salvos e regenerados. Agora estamos sendo transformados para sermos materiais preciosos para que possamos ser edificados a fim de sermos uma casa espiritual, para servir a Deus e para ser o Corpo de Cristo e expressá-Lo. Esse é o nosso objetivo. Somos os filhos de Deus, sendo transfor­mados para que possamos ser edificados como uma casa para servir a Deus e como o Corpo para expressar Cristo.


 
 
Capítulo Nove
A NOVA JERUSALÉM — A CONSUMAÇÃO FINAL E MÁXIMA (2)
 
Leitura da Bíblia: Ap 1:1; 21:1-3,10-21
 
A CHAVE PARA ENTENDER OS ESCRITOS DE JOÃO
O livro de Apocalipse é difícil de ser entendido. É por isso que Deus em Sua sabedoria usa sinais para fazê-lo co­nhecido a nós. Apocalipse 1:1 diz que Deus deu a revelação de Jesus Cristo para Ele mostrar a Seus escravos: "notificou por meio de sinais" (lit.). Sinais são figuras. Ao ensinar crianças pequenas nós fazemos as coisas conhecidas a elas por meio de figuras. Algumas vezes quando falo, torno as coisas conhecidas por meio de diagramas. João recebeu uma revelação a respeito de coisas tão divinas, tão misteriosas, tão profundas, que nenhuma palavra poderia expressá-la ade­quadamente. Assim, a revelação foi tornada conhecida por meio de sinais.
Não somente o livro de Apocalipse, mas o Evangelho de João também é um livro de sinais. Em nosso Estudo-Vida da­quele Evangelho salientei que a palavra milagre não é usada. A mudança da água em vinho pelo Senhor foi um milagre, mas João chama isso de sinal (2:11), indicando que isso tem um significado. A mudança da água em vinho pelo Senhor significa Seu mudar a morte em vida. A ressurreição de Lázaro foi um milagre, mas João chama isso de sinal (11:47).
João 1:14 fala da Palavra tornando-se carne e tabernaculando (lit.) entre nós. "Tabernaculou" é um verbo. Esse sinal nos dá a chave para entender como o Senhor Jesus viveu nesta terra. Ele viveu aqui como o tabernaculo de Deus. Para entender plenamente o tabernaculo, temos de voltar para Êxodo, onde muitos capítulos descrevem o tabernáculo. O tabernáculo de Deus entre o Seu povo não era somente onde Ele habitava mas também onde os que O serviam entravam para habitar com Ele. Esse é Jesus! En­quanto Jesus estava na terra, Ele estava "tabernaculando". Deus habitava Nele e todos os servidores de Deus, os que amavam Jesus, podiam entrar Nele para ficar com Deus. Essa única palavra como um sinal descreve o que nenhuma pala­vra comum poderia expressar.
Também em João o Senhor Jesus diz: "Eu sou a porta" (10:7). Vocês crêem que o Senhor é uma porta com uma ver­ga e um umbral? Uma porta é um sinal, significando que Ele é a própria abertura para as pessoas entrarem e para saírem.
Temos de enfatizar o primeiro versículo de Apocalipse, que diz que a revelação divina é dada a Jesus Cristo, e que Ele a tornará conhecida por meio de sinais. Essa é a chave para abrir todo o livro. Sem essa chave, o livro de Apocalipse está fechado para nós. Para entendermos o significado real desse livro, temos de entender esses sinais.
 
OS SINAIS PRINCIPAIS EM APOCALIPSE
 
Os Candelabros
O primeiro sinal em Apocalipse que o apóstolo João viu são os candelabros. No capítulo um nos é dito que João, no dia do Senhor, na ilha de Patmos, viu sete candelabros de ouro. Ele viu os candelabros. Os sete candelabros são as sete igrejas (1:20). Descrever o que a igreja é no seu significado espiritual usaria mil livros. Mas somente um sinal, uma figura, é melhor do que mil palavras.
Que é a igreja? Que deveria ser a igreja? Olhem para o candelabro. A igreja tem de ser de ouro. Ouro significa a essência de Deus, a natureza de Deus. Isso quer dizer que a igreja tem de ter a essência de Deus como a sua substância. Este ouro tem de estar na forma de um candelabro, um can­delabro brilhando com uma intensidade sétupla. Algumas lâmpadas têm um interruptor triplo; mas vocês já viram uma lâmpada sétupla? O candelabro tem um brilho sétuplo. A natureza de ouro significa a essência de Deus, a forma repre­senta Cristo como a corporificação do Deus Triúno, e as sete lâmpadas são os sete Espíritos (4:5 - VRC).
A Trindade está aqui: o Espírito está brilhando, Cristo é a corporificação e Deus é a própria essência. Que é a igreja? A igreja é uma composição, uma constituição do Deus Triúno, brilhando as virtudes e os atributos de Deus na noite escura para que todos vejam a luz. Precisamos de mensagem após mensagem para descrevermos o que a igreja é, mas a sabedoria de Deus é mostrar-nos um candelabro. Santos, isso é a igreja. Olhem para a igreja. O candelabro é a igreja! A igreja não é de barro, mas de ouro. Ela é da natureza divina de Deus. Ela não é sem forma, mas tem forma. Ela não é trevas, mas resplandecente. Isso é a igreja!
 
As Sete Estrelas
O segundo sinal são as sete estrelas, que acompanham os candelabros. As sete estrelas são os mensageiros ou os anjos das igrejas (1:20). Em cada igreja existem alguns irmãos que são estrelas em espiritualidade. Eles são estrelas brilhan­tes. Em Daniel 12:3 é dito que aqueles que converterem muitos à justiça brilharão como estrelas. Em Mateus 13:43 o Senhor diz que o justo brilhará no reino vindouro como o sol. Mas os mensageiros da igreja não precisam esperar até a era vindoura para brilhar. Eles estão brilhando agora mesmo. Espero que todos os presbíteros nas igrejas sejam estrelas brilhantes. Quando as pessoas vão a eles, elas devem vir para a luz. Um estrela brilha, ilumina, em tempo de trevas. Ao olhar para as estrelas podemos aprender que tipo de pessoas devem ser os líderes na igreja.
 
Jaspe — a Aparência de Deus
Depois que João viu os candelabros e as estrelas bri­lhantes, ele viu um trono no céu e Alguém sentado no trono. Aquele, em aparência, era como pedra de jaspe (4:2, 3). João viu a Deus com aparência de jaspe. Jaspe é uma bonita cor esverdeada, significando plenitude de vida. A plenitude de vida é a aparência de Deus. Jaspe é também a aparência da Nova Jerusalém (21:11), e toda a sua muralha é construída de jaspe (21:18). Isso indica que a cidade inteira possui a aparência de Deus, porque ela é constituída daqueles que foram transformados em Sua imagem.
Devemos ler Apocalipse 21:11 com 2 Coríntios 3:18: "E todos nós com o rosto desvendado, contemplando e refletin­do como um espelho a glória do Senhor, estamos sendo transformados à Sua própria imagem de glória em glória" (lit.). Apocalipse 21:11 descreve a Nova Jerusalém como tendo a glória de Deus. O seu fulgor era semelhante a uma pedra preciosíssima, como pedra de jaspe cristalina. A cidade toda possui a glória de Deus e brilha como jaspe; isto é por­que toda a composição da Nova Jerusalém foi transformada na imagem de Deus. Aquele sentado no trono, que é Deus, assemelha-se ao jaspe, e a cidade inteira assemelha-se ao jaspe. Isso quer dizer que Gênesis 1:26 foi cumprido: "Façamos o homem à nossa imagem." O homem era para ser a expressão de Deus, e isso é cumprido na Nova Jerusalém. Toda a Nova Jerusalém é uma imagem, uma expressão, de Deus. A aparência de Deus pode ser descrita por um sinal, o sinal do jaspe.
 
O Leão da Tribo de Judá
Em Apocalipse 5:5 Jesus Cristo é chamado de o Leão da tribo de Judá. Esse título significa Cristo como o Rei triunfante. Todas as criaturas vivas estão debaixo Dele. Ninguém O pode subjugar; antes, Ele subjuga todas as coisas. A primeira vez que vi um leão no zoológico fiquei temeroso de que a grade não fosse bastante forte para restringir aquela criatura ousada e triunfante. Nada e ninguém pode subjugar o nosso Cristo.
 
O Cordeiro
Cristo não somente é um Leão, mas também um Cor­deiro (5:6). Para Satanás e todos os inimigos Cristo é um
Leão, mas para nós, os redimidos, Ele é um Cordeiro. Vocês têm medo de um cordeiro? Vocês podem ter medo de leão, mas sentem amor por um cordeiro. Para nós o Senhor Jesus é um Cordeiro, um Cordeiro redentor. Pensar que na eter­nidade, no trono de Deus haverá literalmente um cordeiro com quatro patas e uma cauda não é a maneira apropriada de entender a Bíblia. Lembro-os novamente, Apocalipse é um livro de sinais.
 
A Mulher Universal e o Filho Varão
A mulher universal em Apocalipse 12 está vestida com o sol. Em sua cabeça há uma coroa de doze estrelas e sob os seus pés está a lua (v. 1). Quem é essa mulher? A maioria dos expositores fundamentalistas seguem o ensino dos Irmãos Unidos, de que essa mulher representa Israel e o filho varão representa Cristo. Entretanto, depois de muito estudo da Palavra, percebemos no capítulo doze que essa mulher é composta de dois povos: aqueles que guardam os mandamen­tos de Deus e aqueles que carregam o testemunho de Jesus (v. 17). O povo que guarda a lei são os judeus, Israel. O povo que carrega o testemunho de Jesus são os crentes do Novo Testamento. Portanto, dizer que essa mulher representa Is­rael é somente verdade parcialmente, deixando de lado os crentes do Novo Testamento.
Dizer que o filho varão nascido dessa mulher é Jesus Cristo é errôneo. Depois que esse filho varão é arrebatado para o trono de Deus, três anos e meio se seguem. Os mil duzentos e sessenta dias em 12:6 são três anos e meio, os quais todos concordam ser o período da grande tribulação. A grande tribulação veio logo após a ascensão do Senhor? Ela ainda não veio! Isso indica fortemente que o filho varão aqui não é o Senhor Jesus.
A mulher veste uma coroa de doze estrelas na cabeça. Ela está vestida com o sol e a lua está sob os seus pés. Isso in­dica três categorias entre o povo redimido de Deus: os Patriarcas, Israel e os crentes do Novo Testamento. Os Patriarcas são representados pelas estrelas, Israel pela lua e os crentes do Novo Testamento pelo sol. Essa mulher é, por­tanto, uma composição com todo o povo redimido de Deus, incluindo os Patriarcas, os outros crentes do Velho Testamen­to e todos os santos do Novo Testamento.
O filho varão é os vencedores de todas as gerações. Através dos séculos, entre o povo de Deus um pequeno número tem sido martirizado. Esses foram os fiéis. Imediata­mente antes da grande tribulação, esses santos martirizados serão ressuscitados e arrebatados para o trono de Deus.
 
O Grande Dragão Vermelho e a Besta
O grande dragão vermelho significa o diabo, Satanás (12:3, 4). No começo do capítulo seguinte existe uma besta emergindo do grande mar, o Mediterrâneo (13:1, 2). Esse é o Anticristo. Na realidade ele é o César vindouro, o último César do Império Romano renascido.
 
A Colheita e as Primícias
Nesta terra, Deus tem uma colheita. Essa colheita re­presenta todos os santos do Novo Testamento vivendo na terra próximo ao tempo da volta do Senhor (14:15). Dentre esses crentes vivos sairão as primícias. Esses serão alguns vencedores vivendo entre os crentes que amadurecem mais cedo e tornam-se as primícias.
 
A Grande Babilônia
A grande Babilônia representa a Igreja Romana. Ela é chamada de a grande prostituta (17:1, 5) por causa das suas relações pecaminosas com os governadores da terra para o benefício dela.
 
A Esposa do Cordeiro
A esposa do Cordeiro, a noiva em Apocalipse 19:7, será todos os vencedores ao longo das gerações, incluindo os do Velho Testamento, isto é, os vencedores mortos e ressurretos mais os vencedores vivos (as primícias). Eles serão a Sua noiva nos mil anos (20:4-6). Aquele dia será o dia do casamento. Mil anos para o Senhor são um dia (2 Pe 3:8). Todo o milênio será um dia de casamento. No dia do casamento a esposa é uma noiva, mas depois daquele dia ela torna-se uma esposa. Depois do milênio, na eternidade, a noiva é a esposa. Todos os vencedores entre o povo redimido de Deus serão Sua noiva.
 
A Nova Jerusalém
Agora chegamos ao último sinal, a Nova Jerusalém. A Nova Jerusalém é o conjunto de todos os candelabros. No começo desse livro existem sete candelabros, candelabros locais nesta era. No final desse livro existe um conjunto, um candelabro composto, não candelabros locais, mas o eterno, o universal. Apocalipse inicia com os candelabros e termina com o candelabro. Os candelabros são sinais das igrejas; a Nova Jerusalém é também um candelabro, o sinal do lugar de habitação de Deus.
 
UMA REVISÃO DOS SINAIS
Todos esses sinais são as cenas principais nesta tela da televisão divina de Apocalipse. O programa começa com sete candelabros, significando as igrejas; então seguem-se sete estrelas brilhantes, representando os mensageiros de todas as igrejas. Depois há uma pedra de jaspe, significando a aparência de Deus, e um leão e um cordeiro, ambos repre­sentando Cristo. Então aparece uma mulher universal com doze estrelas na cabeça, o sol vestindo-a, e a lua sob os seus pés, e um dragão vermelho pronto para engolir o seu filho; daí o filho varão gerado por ela é arrebatado ao trono de Deus. Depois há uma besta emergindo do Mar Mediterrâneo, há uma colheita nesta terra, e desta colheita há as primícias. Vemos, então, uma grande prostituta, a grande  Babilônia,   terrível,   feia,   abominável;   mas  então, aleluia, uma linda esposa, a noiva; então finalmente, algo mais brilhante, maior, a Nova Jerusalém, a qual é o tabernáculo de Deus assim como Jesus era o tabernáculo de Deus quando Ele estava na terra.
Essa Nova Jerusalém não é somente um tabernáculo para Deus, mas também uma esposa para o Filho de Deus, Jesus Cristo. Deus terá um tabernáculo e Cristo terá uma esposa. Tanto o tabernáculo como a esposa são o mesmo: a Nova Jerusalém.
 
ENTENDENDO APOCALIPSE
Esse é o livro de Apocalipse, contendo todos esses sinais cruciais. Se vocês os entendem, entendem todo o livro de Apocalipse. Com tal visão clara e exata, vocês crêem que a Nova Jerusalém será uma cidade física edificada por Deus ao longo de todos os séculos? Apocalipse é um livro de sinais. Cada item principal é um sinal. Sinais não devem ser inter­pretados literalmente. Vocês acham que a igreja é um suporte de verdade com sete lâmpadas brilhando? Isso é um entendimento errado. Vocês crêem que Jesus Cristo é um cordeiro de verdade? Isso é ridículo! Crêem que o César vin­douro do Império Romano será uma besta de verdade que emerge do Mar Mediterrâneo e pula para a margem? Crêem que a esposa do Cordeiro em Apocalipse 19 será uma mulher adornada com um longo vestido de casamento? Novamente, não faz nenhum sentido entender esses fatos dessa maneira.
 
INTERPRETANDO A NOVA JERUSALÉM
E quanto a Nova Jerusalém? No mesmo princípio, não faz nenhum sentido pensar na Nova Jerusalém como uma cidade física. Não é porque esse livro usa o leão como um sinal de Cristo como o rei triunfante, que devemos pensar que Cristo é como um leão no zoológico. O leão não é um leão de verdade, mas ele é um sinal de Cristo como o rei triunfante. O cordeiro não é um cordeiro de verdade, mas é um sinal de Cristo como o Redentor. Da mesma forma, a
Nova Jerusalém é um sinal; ela representa algo espiritual.
Um princípio de interpretação da Bíblia é ser consis­tente. Desde que não tomemos os outros sinais literalmente, podemos estar certos de que a Nova Jerusalém não é uma cidade física nela para vivermos. Tal interpretação é total­mente natural. Se não interpretam Cristo como um leão com quatro pernas e uma cauda, por que vocês pensariam que a Nova Jerusalém é uma cidade de verdade? O leão é um sinal, e a cidade é também um sinal.
 
A Chave para Apocalipse
Apocalipse 1:1 é o versículo chave para todo o livro. So­mente essa única chave pode abrir todas as portas. Temos a chave-mestra. Podemos ir a qualquer porta e abri-la. Devemos tomar 1:1 como a chave-mestra. O ponto chave é "por meio de sinais". Todas as figuras nesse livro são sinais.
Os mestres fundamentalistas concordariam certamente que Cristo como o cordeiro não tem quatro pernas e uma pe­quena cauda. Eles não fariam tal interpretação ridícula. Mas e quanto a Nova Jerusalém? Quando jovem, também cria que a Nova Jerusalém era uma mansão celestial. Eu ficava alegre com a crença de que um dia estaríamos em uma mansão. Como parte de nossa pregação do evangelho, tivemos uma música acerca de como entraríamos pelos portões de pérolas e andaríamos na rua de ouro. Gradualmente, entretanto, à medida em que estudava a Bíblia descobri que a Nova Jerusalém é uma esposa. Quem casaria com uma cidade literal? Mesmo se tivesse doze portões com pérolas e uma rua de ouro, alguém casaria com ela?
Ao estudar e entender a Palavra Sagrada, os cristãos freqüentemente trazem os seus pensamentos naturais. No novo céu e nova terra habitaremos na Nova Jerusalém. Mas não devemos pensar na Nova Jerusalém como uma cidade física. É Deus quem será a nossa morada. Quando jovem, ouvi alguns mestres da Bíblia discutindo o que comeríamos e onde seria o banheiro na "mansão celestial". Quão pobre é trazer o nosso pensamento natural!
Hoje perguntei a alguns santos se eles estão na igreja. Quando responderam sim, pedi-lhes que me mostrassem a igreja. O Novo Testamento nos diz que a igreja é a casa de Deus, e que Deus está habitando em Sua casa; mas onde está a igreja? A igreja, como a casa de Deus e como nosso lar, não é um edifício físico, mas uma composição de crentes vivos (1 Pe 2:5). Ela não é uma entidade física, sem vida, mas uma composição orgânica de pessoas vivas. Ela existe onde quer que os crentes se reúnam. A igreja como a casa de Deus hoje é uma composição de pessoas vivas; é uma pessoa coletiva. Isso é verdadeiro nesta era e o será na eternidade.
 
Consistente com Toda a Bíblia
A idéia da casa de Deus está também no Velho Tes­tamento. Moisés diz em Salmos 90:1: "Senhor, Tu tens sido nossa habitação de geração em geração" (lit.).
O Senhor Jesus disse que se alguém O ama, Seu Pai e Ele virão a ele e farão nele morada (Jo 14:23). Seremos a Sua morada, e Ele será a nossa morada. Em João 15 o Senhor diz: "Permanecei em mim e eu permanecerei em vós" (v. 4). Em 1 João 3:24 e 4:15 (lit.) diz que nós habitamos em Deus e Deus habita em nós.
Nesta era da igreja estamos habitando em Deus e Deus está habitando em nós. Vocês crêem que quando entrarmos no novo céu e nova terra Deus sairá de nós e nós sairemos de Deus? Se nesta era podemos habitar em Deus, tomando-O como nossa habitação, e podemos dar a Deus um lugar em nós, não é lógico pensar que na eternidade não mais O teremos como o nosso lugar de habitação, mas que viveremos em uma cidade de ouro como nosso lugar de habitação.
Temos de crer que o nosso habitar no Senhor e Seu habitar em nós será intensificado, ampliado e elevado ao máximo. É por isso que João diz que viu que a cidade não tinha templo nela, "porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-poderoso e o Cordeiro" (Ap 21:22). Essa é uma forte indicação de que a cidade não é um lugar físico. Nessa cidade o templo é uma Pessoa. Essa Pessoa é Deus e o Cordeiro. O próprio Deus Triúno será o templo. Se o santuário dentro da cidade é uma Pessoa, vocês crêem que a cidade poderia ser algo sem vida?
Desde que o santuário é uma Pessoa divina, o próprio Deus Triúno, a cidade tem de ser pessoas também. Na realidade, a cidade inteira é o Santo dos Santos com três dimensões iguais (1 Rs 6:20; Ap 21:16). Uma vez que o Deus Triúno será o templo e a cidade inteira será o Santo dos San­tos, a cidade não pode ser algo físico. Ela tem de ser uma composição orgânica.
Nos tempos do Novo Testamento a habitação de Deus nesta terra foi primeiramente uma única Pessoa, Jesus Cristo. Ele era o tabernáculo de Deus. Então, depois Dele, a igreja é o templo de Deus (Ef 2:21, 22; 1 Co 3:16). Jesus, uma única Pessoa, era o tabernáculo de Deus, Seu lugar de habitação. Então, a igreja, como uma pessoa coletiva tornou-se o templo de Deus, a habitação de Deus. Esse é o Novo Tes­tamento. Depois da era do Novo Testamento, quando entrarmos na eternidade, a habitação de Deus não mudará de pessoas vivas para uma cidade sem vida, física. Temos de crer que essas pessoas edificadas juntas como o lugar de habitação de Deus serão ampliadas e intensificadas. Na era vindoura haverá uma ampliação destas pessoas vivas como o lugar de habitação de Deus.
 
Não uma Cidade Literal
Se a Nova Jerusalém fosse uma cidade de verdade feita de ouro, pérolas e pedras preciosas, isso significaria que uma cidade física seria a conclusão de toda a revelação. Isso não é lógico. Deus tem trabalhado ao longo das eras. Primeiro Ele criou o universo. Então Ele criou o homem. Posteriormente se encarnou para redimir o homem. Ele viveu nesta terra, foi crucificado, e então ressuscitou, ascendeu, e se derramou como o Espírito sobre Seus discípulos. Os discípulos então saíram para pregar o evangelho. Muitos têm sido salvos e acrescentados à igreja; eles estão sendo edificados como o Corpo para expressar Cristo. Vocês crêem que o resultado final será Deus ganhando meramente uma cidade física? Pensa que essa é a intenção de Deus?
Se esse fosse o caso, Deus seria um pobre arquiteto. Mediante a Sua criação, encarnação, crucificação, ressurreição, e ascensão, mediante a Sua edificação das igrejas e aperfeiçoamento dos santos geração após geração, Deus está preparando algo muito maior do que uma grande cidade literal. Deus já criou algo mais esplêndido do que uma cidade — o universo. O sistema solar é lindo, mas Deus não está satisfeito com aquilo. Como Ele poderia ficar satisfeito com uma cidade, mesmo uma cidade que é em tamanho a metade dos Estados Unidos? Interpretar tal visão, tal sinal, de maneira natural é errado.
A igreja hoje é o nosso lar. Quando viemos à igreja, viemos ao lar. A igreja está em Deus. A vida da igreja com Deus está em todo lugar. Há igreja em Dallas, Houston, Hong Kong, e em toda a terra. Aleluia! Aonde quer que vamos, nosso lar está lá. Nosso lar é a igreja. Por que nos preocupar se teremos uma casa na Nova Jerusalém? Não precisamos nos preocupar a esse respeito. Deus não está in­teressado nessas coisas físicas. Esse pensamento físico tem de ir embora.
 
O Lugar de Habitação de Deus pela Eternidade
Deus se importa é com uma composição viva de Seu povo escolhido, redimido, regenerado, transformado e glorificado. Tudo isso será edificado junto para expressar Deus pela eternidade. Isso satisfará a Deus para sempre. Satanás estará no lago de fogo. Deus estará em Sua habitação viva. Todos aqueles que Ele criou, escolheu, redimiu, regenerou e transformou serão glorificados à Sua imagem. Ele estará vivendo neles e eles estarão vivendo Nele. Ninguém pode explicar adequadamente tal conceito profundo. Maravilhoso! Isso será a habitação de Deus e a esposa de Seu querido Filho, Cristo. Nenhum edifício físico pode ser uma esposa. Uma esposa é algo orgânico, uma pes­soa viva.
A Nova Jerusalém significa a habitação de Deus no novo céu e nova terra. No Novo Testamento, o lugar de habitação de Deus na terra foi primeiramente um único Homem, Jesus Cristo, representado pelo tabernáculo (Jo 1:14), e, então, um homem coletivo, a igreja, representada pelo templo (1 Co 3:16). No novo céu e nova terra, a habitação de Deus, como a esposa do Cordeiro (Ap 21:9,10), é também uma composição viva de Seu povo redimido, com­posto tanto dos santos do Velho Testamento, representados pelas doze tribos, como pelos santos do Novo Testamento, representados pelos doze apóstolos (Ap 21:12,14).
Essas pessoas edificadas juntas para ser a habitação de Deus, primeiramente experimentaram a regeneração por meio da morte e ressurreição de Cristo. Isso é representado pelas portas de pérolas, a entrada das pessoas para a cidade. Uma pérola é produzida por uma ostra, uma criatura viva nas águas da morte. Quando um grão de areia fere a ostra, ela secreta uma substância ao redor da areia, a qual faz com a areia se torne uma pérola. A ferida da ostra significa morte, e a secreção do suco de vida em volta do grão de areia significa a vida de ressurreição. A morte e ressurreição de Jesus nos fazem pérolas por meio da regeneração. Ninguém pode entrar no reino de Deus a não ser pela regeneração (Jo 3:5).
Na cidade santa a natureza de Deus ou essência de Deus torna-se nosso elemento básico, representado pelo ouro (Ap 21:18b, 21b); a própria cidade é de ouro e a rua é de ouro. A essência de todos os crentes é simplesmente o próprio Deus.
Pela obra do Espírito seremos transformados à imagem de Deus, representado pelo jaspe. A natureza do Pai (ouro), a redenção do Filho e a nossa regeneração (pérola), e a obra transformadora do Espírito (pedras preciosas) produzem todos os componentes dessa habitação eterna de Deus. A habitação de Deus é também a nossa habitação. Nós também seremos edificados juntos para sermos o Lugar Santíssimo de Deus, expressando-O em glória.
 
O Ultimo e Maior Sinal
Espero que todos sejamos impressionados com a interpretação e o entendimento apropriados desse último e maior sinal em toda a Bíblia. De todos os sessenta e seis li­vros da Bíblia, a Nova Jerusalém é o último e o maior sinal. A última palavra é a palavra decisiva. Deus, mediante a criação, encarnação, redenção, ressurreição, ascensão e toda a Sua obra de transformação e edificação ao longo de todos estes séculos cristãos, obterá uma composição viva de Seu povo redimido para ser a Sua habitação e Sua companheira para satisfazê-Lo plenamente. Unir-nos-emos a Ele porque seremos a Sua companheira.
O Senhor Jesus disse aos saduceus em Mateus 22:30 que na ressurreição não haverá casamento, mas que todos seremos como os anjos. A Bíblia não nos fala de questões ou relações físicas na eternidade. O que ela revela é elevado e profundo. Temos de ser libertos de nossa mentalidade humana e natural ao considerar a Nova Jerusalém como uma habitação física. Temos de perceber o que está no coração de Deus. Ele precisa de uma habitação eterna, composta de bilhões de pessoas vivas transformadas e glorificadas, para serem o Seu lugar de habitação e a Sua querida esposa, Sua companheira. Essa consumação final e máxima faz com que valha a pena para Ele trazer a criação à existência, encarnar-se, morrer na cruz, ser ressuscitado, e gastar tantos séculos para edificar as igrejas.
Se a Nova Jerusalém fosse uma cidade literal, ela seria somente a metade, em tamanho, dos Estados Unidos (cf. Ap 21:16). Os Estados Unidos hoje têm uma população de quase um quarto de bilhão de pessoas. Através das gerações, porém, Deus terá salvo bilhões de pessoas. Como poderiam bilhões viver em uma cidade que é em tamanho a metade dos Estados Unidos? Não devemos seguir os ensinamentos naturais, mas, antes, exercitar a nossa mente sóbria para ver o que Deus deseja.
A Palavra é a verdade. Agradecemos a Deus por Ele nos haver dado esse livro. Temos algo sólido na linguagem humana que podemos estudar muitas vezes. O Senhor Jesus disse a Pedro que Ele edificaria a Sua igreja sobre essa rocha (Mt 16:18). Pedro nos diz que todos nós, como pedras vivas, estamos sendo edificados uma casa espiritual (1 Pe 2:5). Paulo diz que ele lançou o fundamento, mas todos nós temos de ser cuidadosos em como edificamos: temos de edificar com ouro, prata e pedras preciosas (1 Co 3:10-12). O pen­samento da edificação de Deus está ao longo de todo o Novo Testamento até o fim. É por isso que dizemos que a Nova Jerusalém é a consumação final e máxima da obra de edificação de Deus ao longo de todas as gerações.
 


Capítulo Dez
A NOVA JERUSALÉM — A CONSUMAÇÃO FINAL E MÁXIMA (3)
 
Leitura da Bíblia: Ap 21:2,3,10-23; 22:1,2a, 14,17,19
 

DUAS ESCOLAS PRINCIPAIS DE INTERPRETAÇÃO
A Nova Jerusalém tem sido um quebra-cabeça para os leitores e mestres da Bíblia ao longo dos vinte séculos da era cristã. Há duas escolas principais de interpretação. Uma es­cola diz que a Nova Jerusalém é uma cidade física. Ela será parte do novo céu e nova terra, e estará na terra como uma cidade literal. A segunda escola, que é muito superfical, diz que a Nova Jerusalém é uma mansão celestial.
Entretanto, não deveríamos pensar nesta cidade como sendo meramente física, nem como uma mansão celestial. Vamos deixar de lado essas diferentes escolas, que são provenientes do entendimento humano.
É muito significativo que a Nova Jerusalém se posicione no final de toda a revelação de Deus e ocupe os dois últimos capítulos. Precisamos de toda a Bíblia para entender, inter­pretar e indicar qual é o seu significado. A conclusão de um livro deve ser a palavra final a respeito de seu conteúdo. Isso é um princípio. Qualquer livro que seja significativo certa­mente tem algum conteúdo apropriado e definido e também uma conclusão apropriada e definida. Acheguemo-nos à Bíblia de Gênesis a Apocalipse. Temos de considerar seu conteúdo e, então, olhar a conclusão.
 
A REVELAÇÃO DO LUGAR DE HABITAÇÃO DE DEUS
A Bíblia  é  uma  revelação  completa  do  lugar  de habitação de Deus. Esse lugar de habitação é para Ele des­cansar, ficar satisfeito e ser expressado.
Gênesis 1:1 diz que no princípio Deus criou os céus e a terra. Então, depois que todas as coisas no universo foram criadas, Deus fez Adão no sexto dia. Deus queria ter o homem. Ele preparou os céu, a terra e tudo o mais para este homem a quem Ele fez à Sua própria imagem e conforme a Sua semelhança.
Essa é uma forte indicação de que Deus queria uma ex­pressão. Ele queria algo vivo e orgânico para carregar a Sua imagem e ter a Sua semelhança. Imagem refere-se a algo in­terior, enquanto que semelhança refere-se a algo exterior. Interiormente todos temos o intelecto, a vontade e a emoção. Exteriormente temos a semelhança, a forma corpórea.
Em Gênesis 1 nos é dito que Deus criou os animais segundo a sua espécie e as plantas segundo a sua espécie. O cavalo, por exemplo, é segundo a espécie eqüina, enquanto que o pessegueiro e a macieira são segundo as suas espécies. Espécie quer dizer uma família, um gênero biológico. O homem, entretanto, não foi feito segundo a espécie humana. O homem foi feito segundo a espécie de Deus. Nós homens somos da espécie de Deus. Somos uma família com Deus porque carregamos a Sua imagem e temos a Sua semelhança. Mesmo que o homem nessa época não tivesse a vida de Deus ou Sua natureza, ele tinha a Sua imagem e semelhança.
Isso indica que Deus queria uma expressão. Gênesis 1:26, 27 mostra que o homem não era apenas uma única pes­soa. O versículo 27 diz: "Criou Deus, pois, o homem à sua imagem... homem e mulher os criou." Isso indica que o homem aqui é algo coletivo. J. N. Darby diz que o homem em Gênesis 1:27 quer dizer gênero humano, o homem como uma raça. Na criação de Deus Ele fez algo de acordo com o Seu plano para ter uma expressão. O gênero humano era para ex­pressar Deus. Esse é o início da Bíblia.
Então a Bíblia continua falando a respeito de oito gran­des homens: Adão, Abel, Enos, Enoque, Noé, Abraão, Isaque e Jacó. Incluindo Adão, estes são os oito gigantes no primeiro livro da Bíblia.
 
Betel — a Casa de Deus
Quando chegamos a Jacó, sem a luz divina podemos ver somente um menino travesso. Mas este jovem travesso, en­quanto escapava de seu irmão Esaú, dormiu ao relento e teve um sonho (Gn 28:11-19).
Jacó sonhou com uma escada ligando a terra ao céu, com anjos subindo e descendo por ela. Os anjos não estavam descendo e subindo, mas subindo e descendo. Isso indica que a escada era da terra ao céu. Freqüentemente dizemos que os nossos sonhos provêm do que pensamos. Se temos algo na mente, isso virá para nós como um sonho enquanto estamos dormindo. No caso de Jacó entretanto, não creio que ele so­nhou o que estava em seus pensamentos durante o dia. Naqueles dias ele deveria estar pensando em como ele estava fugindo de Esaú. Em seu sonho, porém, não havia nenhum Esaú e nenhum Labão. Ele viu uma escada na terra alcançando os céus. Quando ele acordou, teve uma inspiração de Deus e disse: "É a casa de Deus, a porta dos céus" (Gn 28:17). Erigiu a pedra que ele tinha usado como travesseiro e derramou óleo sobre ela, chamando aquele lugar de Betel, que significa a casa de Deus.
Noé foi comissionado por Deus para edificar uma arca, e Abraão recebeu uma promessa de Deus de que toda a terra, toda humanidade, seria abençoada em sua semente. Mas esse menino travesso, o neto de Abraão, teve um sonho. Acordando daquele sonho, ele disse algo maravilhoso, algo que compõe e direciona toda a Bíblia — a casa de Deus. Esse é um ponto direcional, passando ao longo da Bíblia. Desse menino travesso que teve tal sonho veio um povo, o povo de Israel.
 
O Tabernáculo a Casa de Deus
No segundo livro da Bíblia, Êxodo, todos os filhos de Is­rael foram ganhos por Deus. Ele não somente os resgatou, mas os reuniu no monte Sinai. Ali Deus deu-lhes uma visão (Êx 19), e não simplesmente um sonho. Há uma conexão entre a visão que Moisés recebeu de Deus no monte Sinai e o sonho de Jacó. Jacó em seu sonho viu algo relacionado à casa de Deus, e agora os seus descendentes, um povo que veio de Jacó, estava ali no monte Sinai com os céus abertos para eles. Um dos representantes deles, Moisés, subiu ao monte para estar com Deus, e Deus lhe mostrou o modelo de Sua casa, um modelo de como edificar o tabernáculo.
O tabernáculo é a casa de Deus. Em 1 Samuel 3:3 o tabernáculo é chamado de o templo do Senhor; isso quer dizer, que ele era a casa de Deus. O tabernáculo como lugar de habitação de Deus é também chamado de templo, a casa de Deus.
No monte Sinai Moisés viu todos os projetos, e os filhos de Israel edifícaram um tabernáculo de acordo com esse modelo. No último capítulo de Êxodo, o tabernáculo foi erigido, e imediatamente a glória de Deus desceu dos céus e encheu o tabernáculo (Ex 40:34). Isso é maravilhoso! Isso foi até mesmo maior do que os atos criadores de Deus. Criar o universo é algo geral, mas para Deus ter um lugar definido nesta terra para que Ele pudesse descer e entrar, o caminho da glória foi verdadeiramente maravilhoso. O tabernáculo físico era um tipo de todos os filhos de Israel como o lugar de habitação de Deus.
 
O Tabernáculo  — Jesus Cristo, o Homem-Deus
Finalmente aquele tipo foi cumprido no Senhor Jesus. Quando o Senhor Jesus veio, Deus veio. "No princípio era a Palavra e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus" (lit.), e essa Palavra tornou-se carne (Jo 1:1, 14). Sabemos que este é Jesus na encarnação. Quando Ele veio na encarnação, Ele "tabernaculou" (v. 14 - lit.). Isso indica que Ele mesmo como o tabernáculo vivo foi o cumprimento do taber­náculo em Êxodo 40. Jesus, como o tabernáculo, não é um edifício mas uma pessoa viva, orgânica. Esse que é o taberná­culo é uma Pessoa divina, uma Pessoa maravilhosa, um homem-Deus. A primeira impressão que a Bíblia dá a respei­to do tabernáculo é que ele é uma coisa orgânica, uma pessoa orgânica. Ainda mais, ele é um humano orgânico mesclado com Deus. O tabernáculo é o homem-Deus Jesus Cristo.
No final da Bíblia está a Nova Jerusalém, a consumação final e máxima do tabernáculo (Ap 21:3). O tabernáculo nos dois Testamentos, tanto o Velho como o Novo, é, na verdade, uma pessoa viva de duas naturezas — a natureza humana e a divina. O Senhor Jesus era um homem composto de divin­dade e humanidade. O Espírito Santo é o elemento divino, a divindade, e a virtude humana é o elemento humano, a humanidade. Portanto, a concepção de Jesus é do elemento divino no elemento humano. Essa concepção gerou uma criança de duas naturezas — divina e humana. Essa criança não era somente humana, mas também divina. Ela era um homem-Deus, e este homem-Deus era o tabernáculo.
Deixem-me enfatizar fortemente que esse é um taber­náculo no sentido bíblico. Na Bíblia o tabernáculo é uma pessoa viva como uma composição da natureza divina e da humana. Por causa disso, a Nova Jerusalém não pode ser uma cidade literal, nem pode ser uma mansão celestial. De acordo com o sentido bíblico, tabernáculo quer dizer uma pessoa viva como uma composição de divindade com humanidade.
 
 
O Tabernáculo e o Templo
Israel primeiramente edificou o tabernáculo. Então, quando entraram na boa terra, Deus revelou-lhes por meio de Davi (2 Sm 7:2, 5-13) que Ele queria ter algo fixo e não transportável. O tabernáculo era uma casa de Deus "transportável." Ele podia satisfazer a Deus temporaria­mente, mas não permanentemente. Ele queria algo fixo edificado sobre um fundamento sólido. O templo não era móvel ou transportáve, mas algo estabelecido. Davi conhecia o coração de Deus e preparou todos os materiais para a edificação do templo (1 Cr 22). Deus tinha-lhe dado um filho, Salomão, que edificaria o templo. Esse templo era a ampliação do tabernáculo. Quando ele foi finalizado, as coisas do tabernáculo foram trazidas para dentro do templo (2 Cr 5:1, 5), indicando que os dois eram, na verdade, um.
No Novo Testamento, o Senhor Jesus em João 1:14 é re­velado como o tabernáculo, mas em João 2:19-21 Ele indica que Ele é o templo. "Destruí este santuário, e em três dias eu o reconstruirei" (v. 19). A palavra de Jesus aqui indica que Seu corpo era o verdadeiro templo. Quando Ele disse que le­vantaria o templo em três dias, sabemos que Ele ergueu uma casa de Deus em ressurreição. A casa de Deus que Jesus edificou em ressurreição não é somente Ele próprio, mas inclui Seus crentes também (Ef 2:6). Assim, esse templo edificado na e pela ressurreição de Jesus é um templo coletivo. Esse templo é a igreja. A igreja é o templo (1 Co 3:16).
 
A Igreja — Composta dos Membros Vivos de Cristo
Muitos cristãos consideram a igreja um edifício físico. Eles se referem ao edifício como a igreja ou como o santuário. Muitos pensam numa igreja como um edifício com um teto inclinado, vitrais e um campanário.
A Bíblia, entretanto, revela que a igreja é uma composição viva dos membros vivos de Cristo (1 Pe 2:5). Ela é uma composição orgânica de todos os verdadeiros crentes. Nós somos a igreja. Ela não é um edifício sem vida. A igreja é orgânica. A igreja somos nós, você e eu, as pessoas regeneradas pelo Espírito com a vida divina. Ela é todos os queridos santos. A igreja é um organismo. Ela é viva e ativa. Ela não é sem vida, pois os componentes da igreja são pes­soas vivas. Nós, os crentes, somos os componentes. A igreja é composta de todos os santos, assim ela é algo vivo.
 
A Igreja Humanidade e Divindade
A igreja é também uma pessoa coletiva composta de dois elementos, de humanidade e divindade. Nós, os crentes, como os componentes da igreja temos duas naturezas — uma natureza humana e uma natureza divina. Recebemos nossa natureza humana por meio do nascimento natural. Então em nosso segundo nascimento, um nascimento espiritual, recebe­mos outra natureza, a natureza divina. Em nossa regeneração recebemos a vida divina (1 Jo 5:11). Se temos vida, certa­mente com esta vida vem a natureza. Somos participantes da natureza divina (2 Pe 1:4); portanto temos duas naturezas.
Há uma tendência hoje, entre estudantes de seminário, em crer que os cristãos têm somente uma natureza, a qual será gradualmente melhorada. Isso não somente é um en­sinamento errado; é heresia. Tal ensinamento anula o fato da regeneração.
A igreja, entretanto, é uma composição viva e coletiva de pessoas com duas naturezas — humana e divina. Com Cristo existiu primeiro a divindade, e, depois, a humanidade. Conosco existe primeiro a humanidade, então a divindade. Cristo como o tabernáculo foi uma pessoa com divindade mais humanidade, e nós, como a ampliação de Cristo, o lugar de habitação de Deus, o próprio templo, somos uma composição, primeiro da humanidade e, então, da divindade. Cristo tem divindade mais humanidade. Nós temos humanidade mais divindade. Em natureza Ele e nós somos o mesmo. A única diferença é que Ele tem a deidade, e nós não; contudo, temos a vida e a natureza divina como Ele tem. Não temos a Sua autoridade, Sua deidade.
 
A Consumação do Templo
A Nova Jerusalém é a consumação de tal templo. Baseado neste princípio, não podemos dizer que ela é uma cidade física ou uma mansão celestial. Uma vez que a Nova Jerusalém é a consumação final e máxima de toda a edificação da habitação de Deus ao longo das gerações como a conclusão de toda revelação de Deus de Sua economia, ela é totalmente orgânica. Ela é seres humanos mesclados com Deus. Essa composição será uma habitação mútua, para Deus habitar nos santos e para os santos habitarem em Deus.
A Nova Jerusalém é uma composição do povo redimido e regenerado de Deus, que são os Seus Filhos. Essa cidade é também o agregado da filiação divina. Efésios 1 diz que fomos escolhidos e predestinados para a filiação (vs. 4, 5). O agregado  da   filiação  será   a  Nova  Jerusalém.   Ela é a composição de todos os filhos de Deus (Ap 21:7). Tal edi­ficação, a cidade santa, é uma pessoa coletiva viva porque ela é chamada de a esposa do Cordeiro (Ap 21:9). Uma cidade física não pode ser uma esposa. Uma esposa é uma pessoa; portanto, essa cidade deve ser uma pessoa coletiva viva.
 
OS ELEMENTOS INTRÍNSECOS DA EDIFICAÇÃO DE DEUS
O conteúdo da edificação de Deus tem alguns elemen­tos, os quais são intrínsecos e ocultos. O elemento intrínseco da Nova Jerusalém como o lugar eterno de habitação de Deus é o próprio Deus Triúno.
 
A Trindade Divina A Estrutura Básica
A Trindade divina é a estrutura básica da Nova Jerusalém. Ela é estruturada com a natureza do Pai, con­forme representada pelo ouro. A própria cidade é uma montanha de ouro, e sua rua é também de ouro (Ap 21:18b, 21b). Isso indica que a cidade é uma coisa divina. Divindade é o elemento básico do conteúdo do edifício.
A redenção do Filho por meio da morte e ressurreição é representada pela pérola. Pérolas provêm de ostras. Elas são produzidas após as ostras serem feridas por um grão de areia. A ostra secreta seu sumo de vida em volta da areia e faz dela uma pérola. Isso significa a encarnação de Cristo e a Sua ida para dentro das águas da morte como uma ostra. O ser ferido pelas nossas transgressões e o liberar de Sua vida de ressurreição produz uma pérola.
A transformação do Espírito é representado pelas pe­dras preciosas. No ouro está a natureza do Pai, na pérola está a redenção do Filho por meio da morte e ressurreição, e nas pedras preciosas está o Espírito em Sua obra transformadora. Isso quer dizer que o próprio Deus Triúno é a estrutura básica da Nova Jerusalém. A Trindade é também a estrutura da vida da igreja, que é uma miniatura da Nova Jerusalém. O tamanho é muito menor, mas os elementos são os mesmos.
 
A Vida Divina — O Suprimento e a Nutrição Interior
Para a nossa vida física, nós, diariamente, precisamos de suprimento nutrição. É por isso que temos de comer ao menos três vezes ao dia. A vida divina é o suprimento e a nutrição interior de todas as partes da Nova Jerusalém. Isso é indicado pela água da vida fluindo do trono divino para saturar toda a cidade (Ap 22:1, 17). Na água cresce a árvore da vida, que produz doze frutos, um a cada mês, doze meses anualmente, para alimentar toda a cidade (Ap 22:2a, 14, 19). A água da vida e a árvore da vida com o fruto da vida realizam o suprir e o nutrir. Toda a cidade vive desses dois itens.
 
A Luz Divina — A Luz Interior e a Glória Exterior
A Trindade divina é a estrutura básica, a vida divina é o suprimento e a nutrição interior, e a luz divina é a luz interior e a glória exterior para a expressão. Deus no Cordeiro é a lâmpada como a luz interior (Ap 21:23). Na Nova Jerusalém não precisaremos do sol, da lua, de velas, de querosene ou de eletricidade. Não precisaremos da luz criada por Deus ou da luz feita pelo homem, pois teremos o próprio Deus, que é a luz interior. Ao mesmo tempo, essa luz brilha na e através da pedra preciosa, como uma pedra de jaspe, significando os crentes transformados (Ap 21:11). A pedra de jaspe é "transparente como cristal." Deus, como a luz dentro do Cor­deiro como a lâmpada, está brilhando pela cidade. Na cidade está a luz que brilha. Fora, a luz está expressando a glória de Deus, de modo q~c a cidade inteira possui a glória de Deus. A glória de Deus é o próprio Deus, brilhando da cidade através da muralha transparente de jaspe (21:18). Isso é o que a igreja deve ser hoje — uma composição viva de Deus, com Cristo como nossa luz interior resplandecente e como a nossa expressão em glória.
 
Um Mesclar do Deus Triúno com o Homem Tripartido
Fomos redimidos, regenerados, e agora estamos sendo transformados. Também estamos a caminho para sermos glorificados. O nosso espírito foi regenerado, nossa alma problemática está sendo transformada, e nosso pobre corpo está esperando transfiguração.
Na Nova Jerusalém o Deus Triúno está plenamente mesclado com o homem tripartido redimido, regenerado, transformado e glorificado. Esse mesclar é a habitação eterna de Deus, representado pelo número doze. Doze é três multi­plicado por quatro. Sabemos disso porque a cidade é quadrada com quatro lados. Em cada lado há três portas (21:13). Pela eternidade a Nova Jerusalém será um mesclar absoluto, não somente uma adição. Ela é a multiplicação — o Deus Triúno (três) multiplicado pelo homem (quatro).
Na Nova Jerusalém o número doze é usado catorze vezes. Doze fundamentos de doze pedras preciosas possuem os nomes dos doze apóstolos (21:14, 19, 20). As doze portas de doze pérolas com doze anjos possuem os nomes das doze tribos (21:12, 21a). A medida da cidade é doze mil estádios em três dimensões (21:16). A altura da muralha é de cento e quarenta e quatro côvados (21:17a), que é doze multiplicado por doze côvados. A árvore da vida produz doze frutos em cada um dos doze meses (22:2). O número doze, ocorrendo tantas vezes, quer dizer que a cidade santa é um mesclar do Deus Triúno com o homem tripartido.
 
Um Edifício em Ressurreição
Apocalipse 21:17b diz que a medida da muralha é "medida de homem, isto é, de anjo." Esse é um sinal de que naquele tempo o homem será como os anjos. Em Mateus 22:30 o Senhor Jesus indicou que em ressurreição o homem será "como anjos de Deus nos céus." Assim, o homem sendo como um anjo indica o princípio da ressurreição. A cidade in­teira, portanto, estará em ressurreição. Cristo, o Cabeça, e nós, Seus membros, estaremos todos em ressurreição.
 
Uma Expressão Plena do Deus Triúno
A muralha é feita de jaspe, e a luz da cidade é como jaspe (21:18, 11). Em 4:3 nos é dito claramente que Deus sentado no trono se assemelha a jaspe. Jaspe, então, significa a aparência de Deus. Na eternidade, a Nova Jerusalém possuirá a aparência de Deus. Deus se assemelha a jaspe, e a cidade toda possuirá a aparência de jaspe. Isso indica que ela será uma expressão eterna e coletiva de Deus.
Isso cumpre Gênesis 1:26. A Bíblia começa da forma como termina. Ela começa com a imagem de Deus para a Sua expressão, e ela termina com uma expressão coletiva, vasta, imensa e esplêndida. Essa é a consumação final e máxima do registro do tabernáculo e do templo. A Bíblia é um registro dessas duas coisas: o tabernáculo e o templo. A conclusão da Bíblia é a consumação do tabernáculo e do templo.
O que a Nova Jerusalém é deve ser verdadeiro na igreja agora mesmo. Nós, como a igreja na restauração do Senhor, temos de ter o Deus Triúno como a nossa estrutura, com a vida divina como o nosso suprimento e nutrição interior, e com a luz divina como o nosso brilho interior e expressão ex­terior. Esse é o testemunho de Jesus. No começo do livro de Apocalipse estão os candelabros como o testemunho de Jesus (1:2,12). Então, no fim do mesmo livro está o agregado de todos os candelabros, a Nova Jerusalém, como o testemu­nho eterno de Jesus. Hoje devemos ser tal testemunho vivo de Jesus. Não somos uma outra obra cristã, nem somos sim­plesmente um grupo cristão. Somos o testemunho de Jesus como o candelabro hoje, que será consumado na Nova Je­rusalém. O que seremos lá devemos primeiramente ser aqui.

 
Capítulo Onze
A NOVA JERUSALÉM — A CONSUMAÇÃO FINAL E MÁXIMA (4)
 
Leitura da Bíblia: Ap 21:3,4,6,7,24,26; 22:2-5,14,17
A Nova Jerusalém é a consumação de toda a revelação divina. Os sessenta e seis livros da Bíblia têm uma conclusão, e essa conclusão é a Nova Jerusalém. A Bíblia começa com a criação de Deus e finaliza com o Seu edifício. A criação não é o objetivo de Deus. Ela é para o Seu objetivo, que é a edificação. Essa idéia da edificação divina percorre toda a Bíblia.

 O VELHO TESTAMENTO

A visão do edifício de Deus veio primeiro para Jacó. En­quanto estava fugindo de seu irmão Esaú, ele teve um sonho. Sonhou com a casa de Deus, Betel (Gn 28:11-19). Mais tarde, Deus trouxe os descendentes de Jacó para fora do Egito e para o monte Sinai, onde ficaram por um longo tempo. Enquanto estavam ali, Deus mostrou-lhes o projeto celestial de um edifício, o tabernáculo, que seria a habitação de Deus entre Seu povo na terra.

Depois que eles entraram na boa terra, Deus quis que edificassem o templo. O Velho Testamento é uma história principalmente do tabernáculo e do templo. Esses dois são um — o lugar de habitação de Deus nesta terra entre Seu povo. A história dos descendentes de Jacó é uma história do tabernáculo e do templo no Velho Testamento. Esses dois foram o centro, o foco da história do povo de Deus no Velho Testamento nesta terra.

O NOVO TESTAMENTO

No Novo Testamento vemos Deus encarnado. Deus tor­nou-se carne. João 1:14 nos diz que Este que se encarnou "tabernaculou entre nós" (lit.). João usou particularmente esta palavra "tabernaculou." Isso indica que quando o Se­nhor Jesus estava na terra, em carne, Ele era o tabernáculo de Deus. Em prefiguração o tabernáculo edificado em Êxodo era um tipo completo da encarnação do Senhor; o Senhor encarnou-se para ser a própria corporificação de Deus nesta terra. Essa corporificação era a habitação de Deus. Colossen-ses 2:9 nos diz que a plenitude da Deidade habita em Cristo corporeamente, em Cristo com um corpo humano, físico. O próprio Cristo era a corporificação de Deus, e essa corporificação era o tabernáculo de Deus.

Em João 2:19 o Senhor disse aos judeus: "Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei." O corpo do Senhor Jesus era o templo de Deus (v. 21). Em João 1 está o tabernáculo e em João 2 está o templo. A palavra do Senhor Jesus "em três dias" significa a Sua ressurreição. Paulo nos diz em Efésios 2:6 que quando Cristo foi ressuscitado, nós fomos ressuscitados juntamente com Ele. Pedro diz mais adiante que por meio daquela ressurreição todo-inclusiva todos fomos regenerados (1 Pe 1:3). Nascemos de Deus e somos os Seus filhos. Isso implica que o próprio templo que o Senhor Jesus edificou em três dias, isto é em Sua ressurreição, não é algo individual, mas algo coletivo. Portan­to, nas Epístolas nos é dito que a igreja como o Corpo de Cristo é o templo de Deus. Em 1 Coríntios 3:16 diz que os santos são templo de Deus.

O Novo Testamento termina com a Nova Jerusalém, e a Nova Jerusalém como a conclusão da Bíblia é chamada de tabernáculo (Ap 21:3). João disse que ele não viu nenhum templo na cidade santa, "porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-poderoso e o Cordeiro" (21:22).

Como temos enfatizado, a medida da Nova Jerusalém é a mesma em comprimento, largura e altura. Nas três dimensões  a cidade mede doze mil estádios  (21:16).  O princípio revelado na Bíblia é que um edifício com três dimensões iguais indica o Santo dos Santos. O Santo dos San­tos no tabernáculo era de dez côvados nas três dimensões. O Santo dos Santos no templo de acordo com 1 Reis 6:20, era também de três dimensões iguais, de vinte côvados cada. De acordo com a medida da Nova Jerusalém, então, esta cidade santa deve ser o Santo dos Santos. Se lermos Apocalipse 21 cuidadosamente, podemos ver que a cidade santa é tanto o tabernáculo como o templo.

Tanto o Velho Testamento como o Novo Testamento estão focalizados no tabernáculo e no templo como a habitação de Deus. Então a conclusão de toda a Bíblia, tanto o Velho Testamento como o Novo, é também o tabernáculo e o templo. No Velho Testamento o tabernáculo prefigurava Cristo individualmente como o tabernáculo de Deus, e o templo tipificava Cristo coletivamente como o templo de Deus. O que temos aqui é Cristo e a igreja. Cristo é o cumprimento do tipo do tabernáculo, e Cristo como a Cabeça com a igreja como Seu corpo, juntos, cumprem a figura do templo. Isso terá uma consumação, e essa consumação final e máxima será a Nova Jerusalém, a qual é tanto o tabernáculo como o templo. Aqui está a consumação final e máxima da habitação de Deus, a qual Ele tem edificado por séculos. Esta Nova Jerusalém é, além disso, uma composição viva de todos os santos do Velho Testamen­to, assim representados pelos nomes das doze tribos, e de todos os santos do Novo Testamento, assim representados pelos nomes dos doze apóstolos. Ela é a composição viva do povo redimido de Deus para ser o lugar eterno de Sua habitação.

QUATRO DISPENSAÇÕES PARA A EDIFICAÇÃO DE DEUS

Na velha criação, antes da vinda do novo céu e nova terra, há quatro dispensações. A dispensação dos Patriarcas, de Adão a Moisés, foi a dispensação antes da lei. Vocês podem chamá-la de dispensação pré-lei ou dispensação dos Patriarcas. A segunda é a dispensação da lei, de Moisés à primeira vinda de Cristo. A terceira é a dispensação da graça, durando da primeira vinda de Cristo até a Sua segunda vinda. Então, com a Sua segunda vinda, a quarta dispensação começará, isto é, o reino de mil anos de Cristo. Depois desta quarta dispensação, a velha criação certamente estará inteira­mente renovada porque por meio das dispensações Deus terá cumprido o que pretendeu cumprir.

A obra criadora de Deus foi completada nos dois pri­meiros capítulos da Bíblia. Então a partir da segunda metade de Gênesis 2, Deus começou a Sua obra de edificação. Essa obra continua por todas as quatro dispensações: a dispensa­ção dos Patriarcas, a dispensação da lei, a dispensação da graça e finalmente a dispensação do reino milenar. Por meio dessas quatro dispensações Deus realiza a Sua edificação.

 A OBRA DE DEUS  - UMA OBRA DE EDIFICAÇÃO

A obra de Deus por meio de todas as quatro dispensações é uma obra de edificação. No Velho Testamento vemos a edificação do tabernáculo e do templo, a qual era o foco da história do Velho Testamento. Quando o Senhor Jesus veio, Ele era o tabernáculo. Depois de ajudar os discípulos a perceberem que Ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo, Ele imediatamente revelou que Ele edificaria a Sua igreja (Mt 16:18). A palavra do Senhor indicava que Ele estava fazendo uma obra de edificação.

Essa idéia de edificação é muito forte na Bíblia. Mesmo em Atos 4 Pedro disse aos líderes judeus que eles eram os edificadores que rejeitaram a Cristo, a pedra viva, contudo Deus O ressuscitou e O fez a pedra angular de Seu edifício (At 4:10, 11). Pedro nos diz em seu escrito que o Senhor é a pedra viva, e nós todos como pedras vivas vimos ao Senhor e estamos sendo edificados uma casa espiritual (1 Pe 2:4, 5).

Paulo também fala da edificação. Ele nos diz que ele lançou o único fundamento, e que ninguém pode lançar outro. O problema, entretanto é como nós edifícamos sobre ele. Podemos edificar com ouro, prata e pedras preciosas ou com madeira, feno e palha (1 Co 3:10-12).

Nos escritos de João a idéia de edificação é mais forte. Quando Simão veio ao Senhor Jesus em João 1:41, 42, o Se­nhor mudou o seu nome para Cefas, uma pedra. Mais tarde no mesmo capítulo o Senhor disse a Natanael que ele veria "o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem" (v. 51). Na verdade, o Senhor estava referindo a Natanael o sonho de seu antepassado Jacó (Gn 28:12, 17, 19), indicando que uma obra de edificação de Betel, a casa de Deus, estava se iniciando. Então no capítulo dois o Senhor indicou que Ele edificaria o Seu corpo em ressurreição como o templo coletivo de Deus (2:19, 21, 22).

João escreve mais adiante em Apocalipse que os ven­cedores serão edificados no templo de Deus como coluna (Ap 3:12). Finalmente, em Apocalipse 21, ele nos mostra que a consumação final e máxima dessa obra de edificação será a Nova Jerusalém, o tabernáculo e templo de Deus, edificada com ouro, pérolas e pedras preciosas, e tendo os apóstolos como as doze pedras fundamentais.

Notem, então, que em toda a Bíblia somente um capítulo e meio estão na criação de Deus. O resto da Bíblia, da segunda metade de Gênesis 2 ao final de Apocalipse, está na edificação de Deus. Essa edificação é denominada o tabernáculo e o templo muitas vezes no Velho Testamento, no Novo Testamento, e na conclusão da Bíblia. No Velho Tes­tamento estão o tabernáculo e o templo. No Novo Testamento está a realidade do tabernáculo e do templo. Na conclusão desses dois testamentos está a consumação final e máxima do tabernáculo e do templo.

O AGREGADO DA FILIAÇÃO DIVINA

Essa consumação, a Nova Jerusalém, é o agregado da filiação divina para ar opressão coletiva do Deus Triúno (Rm 8:23). O Filho é a expressão do Pai. Ninguém jamais viu o Pai, mas o Filho unigênito O revelou (Jo 1:18). Um pai e seus filhos possuem uma imagem. A face dos filhos é como a face do pai. Jesus Cristo como o Filho de Deus é a própria expressão de Deus, o Pai. Deus, entretanto, gostaria de ter mais do que um filho. Cristo é referido como sendo o unigênito em João 1:18 e em 3:16, onde se diz que Deus deu o Seu Filho unigênito. Em Romanos 8:29 conhecemos que em ressurreição esse único Filho de Deus tornou-se o primogênito entre muitos irmãos. O Senhor Jesus em Sua ressurreição incumbiu uma das irmãs para ir "ter com meus irmãos" (Jo 20:17), e Hebreus 2:11 diz que Ele "não se en­vergonha de lhes chamar irmãos" porque eles todos nasceram do mesmo Pai. A única diferença é que Ele é o primeiro Filho, e nós somos os muitos filhos.

 Conduzindo Muitos Filhos à Glória

O Deus Triúno está ainda trabalhando hoje para con­duzir Seus muitos filhos à glória (Hb 2:10). Somos filhos de Deus, mas não estamos na glória ainda. Assim como uma lagarta é transformada em uma borboleta, assim nós estamos sendo conduzidos para a glória. Aleluia! estamos a caminho! Um dia todos estaremos lá em glória como os muitos filhos de Deus. Romanos 8:18-22 nos diz que toda criação caída, agora sob a escravidão da corrupção, espera ansiosamente para ver-nos em glória. Aquela glória será a liberdade da glória dos filhos de Deus, que é a nossa plena redenção (v. 23). O nosso corpo ainda não foi redimido, mas uma dia ele será transfigurado em um corpo glorioso (Fp 3:21). Essa plena redenção de nosso corpo é a filiação plena. O nosso espírito já nasceu de Deus, mas nosso corpo ainda não foi trazido à filiação. O universo inteiro está esperando ansiosa­mente pela parte final de nossa redenção. A criação quer ver todos os filhos de Deus conduzidos à glória para desfrutar a plena filiação deles.

 
Filhos, Irmãos e Membros

Antes da Sua ressurreição, Cristo era o Filho unigênito de Deus, mas por meio da morte e ressurreição Ele tornou-se o primogênito, seguido por muitos filhos que foram produzidos por meio de Sua morte e ressurreição. Agora, para Deus somos os muitos filhos, para Cristo, somos os muitos irmãos, e para o Seu Corpo, somos membros. É por isso que nos chamamos de irmãos. Somos irmãos uns dos ou­tros porque somos os irmãos de Cristo e os filhos de Deus. Isso é filiação. Isso é uma entidade coletiva.

 

Filiação Total

A Nova Jerusalém é o agregado da filiação divina. Há somente uma única filiação divina; todos estamos nessa única filiação. Na ressurreição todos seremos homens, incluindo as irmãs. Nesse corpo da velha criação ainda temos a diferença entre irmãos e irmãs, mas em ressurreição todos seremos homens, irmãos. A filiação total será completada por meio do arrebatamento e ressurreição vindouros. Quando estivermos lá na Nova Jerusalém, aquilo será um agregado da filiação divina. Essa filiação é para a expressão coletiva do grande Deus que é triúno — o Pai, o Filho e o Espírito.

 

PREDESTINADOS PARA A FILIAÇÃO

Essa filiação cumpre o desejo da predestinação de Deus. Efésios 1:4, 5 nos diz que antes da fundação do mundo Deus nos predestinou para a filiação. Quando jovem, eu amava esses versículos, mas pensava que Deus me havia predes­tinado para os céus. Então pensei que fui predestinado para a salvação. Muitos de nós podem ter pensado a mesma coisa. Muitas vezes quando lemos a Bíblia lemos nela algo de nossa mente. A Bíblia não diz que Deus nos tem predestinado para os céus ou para a salvação. Ela diz que fomos predestinados para a filiação.

Deus tomou uma firme decisão antes da fundação do mundo para fazer de você um filho. Todo escolhido é um pecador, até mesmo um inimigo de Deus, mas Deus tem a habilidade redentora para fazer de você, que é um pecador e um inimigo Dele, um de Seus filhos. Essa é a maravilha das maravilhas. Deus fez de nós, que éramos Seus inimigos, Seus filhos.

João diz que a todos que O recebem, isto é, que creêm em Seu nome, será dada a autoridade de serem filhos de Deus (Jo 1:12). Esses são nascidos de Deus. Ele veio para ser o tabernáculo (1:14), desejando que O recebêssemos e assim nascêssemos como filhos. A intenção do Senhor Jesus, o tabernáculo, era que nascêssemos como filhos para sermos os componentes do templo vindouro (Jo 2:19, 21, 22)
 

FILIAÇÃO EM ROMANOS 8

Em Romanos 8 Paulo é forte nessa questão de filiação. Romanos 8 diz: "Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus" (v. 14). Deus não nos tem dado um espírito de escravidão mas um espírito de filiação (v. 15). O Seu Espírito testifica com o nosso espírito que somos fi­lhos de Deus (v. 16). Toda a criação está aguardando ansiosamente por essa nossa filiação (v. 19). Deus está agora nos conformando à própria imagem do Primogênito, Cristo (v. 29). Somos os Seus irmãos hoje, mas não plenamente. Nós estamos no processo. Quando estivermos conformados à ima­gem do Primogênito, seremos a Sua própria expressão de uma maneira coletiva.

 
UMA EXPRESSÃO COLETIVA DE DEUS

Em Apocalipse, Deus sentado no trono se assemelha a jaspe (4:3). Então em 21:18 João nos diz que a muralha da cidade era feita de jaspe. Esses dois versículos nos dizem que a Nova Jerusalém se parecerá com Deus. A cidade será uma expressão coletiva de Deus.

Que Deus terá uma expressão coletiva está também in­dicado em Sua criação do homem. Antes das eras, Deus nos predestinou para a filiação. Então Ele criou o homem à Sua própria imagem, de acordo com a Sua predestinação, com a intenção de que um dia este homem criado fosse a Sua expressão coletiva. Aquele dia ainda não chegou. Quando as quatro dispensações terminarem — as dispensações dos Patriarcas, da lei, da graça e do reino —, a obra de Deus em conformar-nos à imagem do Primogênito será completada. Então seremos uma entidade viva coletiva, possuindo a ima­gem de Deus.

A Nova Jerusalém é o agregado de todos os filhos como a expressão coletiva. Ela é uma composição de todos os queridos santos redimidos por Deus em todas as dispensações, tanto as do Velho como do Novo Testamento. Eles juntos serão os componentes dessa cidade santa, o agregado da filiação divina, expressando Deus coletivamente para cumprir o desejo de Seu coração, como indicado na Sua criação do homem à Sua própria imagem. Apocalipse 21 e 22 são o cumprimento de Gênesis 1:26 — Deus tendo um homem à Sua imagem.
 

DUAS CATEGORIAS

No novo céu e nova terra existem duas categorias de pessoas. Uma são os muitos filhos e a outra são os povos. Quando estivermos na Nova Jerusalém, seremos os filhos de Deus, não os povos de Deus.

Na Inglaterra há uma família real. Eles não são "o povo", mas os que reinam. Santos, vocês já consideraram que não estão entre o povo comum? Vocês são da família real. João nos diz em Apocalipse 1:6 que Cristo tem-nos feito "um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai." Somos os filhos do Deus Todo-poderoso, que é o Rei dos reis. Isso nos faz membros, familiares da família real. Não somos somente fi­lhos de Deus mas também membros da família real.

Em Apocalipse 21:3 se diz: "Eles serão povos de Deus." Então em 21:7 se diz: "O vencedor... me será filho." Em 21:24 estão "as nações". As nações andarão mediante a luz da cidade santa. Nós, os filhos, a família real, somos a cidade santa. Para Deus, então, Seus Filhos são uma categoria e Seu povo é outra.

Em Londres, fui levado para ver a troca da guarda em frente do portão do Palácio de Buckingham. Mesmo na grande cidade de Londres, há uma "pequena cidade" chamada Palácio de,Buckingham, onde a família real vive. A

Nova Jerusalém será o Palácio de Buckingham celestial, espiritual, divino e eterno. Em volta da cidade real estão as nações.

No novo céu e nova terra não seremos os povos, as nações, mas os filhos. Os filhos de Deus em Apocalipse 21:6, 7 são aqueles que nasceram de Deus por meio da regeneração (Jo 1:12, 13; 1 Pe 1:3, 4, 23; Tg 1:18). Eles estão edificados juntos por meio da transformação (1 Co 3:9-12a; Ef 2:20-22; 1 Pe 2:4-6; 2 Co 3:18; Rm 12:2; Ef 4:23, 24). Eles serão glorificados em plena conformação para serem uma expressão coletiva do Deus Triúno (Rm 8:29, 30; Hb 2:10; Ap 21:11). As nações do lado de fora da Nova Jerusalém não são de nascidos de novo, transformados ou glorificados. Somos diferentes das nações.

Os Filhos de Deus

As pessoas que são renascidas, transformadas, glorificadas e conformadas serão os componentes da Nova Jerusalém. Hoje os crentes como os membros do Corpo de Cristo são os componentes da igreja, que é tanto a casa de Deus como a esposa de Cristo. A igreja não é um edifício. Ela é uma composição viva de todos os membros vivos de Cristo. Essa composição viva é um organismo. Não é uma organização. Onde essas pessoas estão, ali está o organismo. Estamos aqui como esse organismo, a igreja. Se mudarmos para Brasília, esse organismo estará ali em Brasília.

Esses componentes — os filhos de Deus regenerados, transformados, glorificados e conformados para ser tanto a casa de Deus como a esposa de Cristo (Ap 21:3, 9) — na eternidade comerão da árvore da vida e beberão a água da vida. Esses serão os dois desfrutes principais, substanciais e básicos dos filhos de Deus. Apocalipse 22:14 promete que teremos o direito de comer da árvore da vida. Em Apocalipse 22:17 existe um chamado para beber água. Esses serão nossos desfrutes básicos na Nova Jerusalém pela eternidade.

Então serviremos a Deus e ao Cordeiro como Seus escravos (Ap 22:3) pela eternidade. Também seremos reis sobre as nações — os povos — pela eternidade. Apocalipse 22:5 diz que reinaremos "pelos séculos dos séculos." Os cren­tes como filhos de Deus serão todos reis. Os anjos serão os que servem (Hb 1:13,14), servindo-nos. Eles são os servos da família real, e nós somos reis sobre as nações. Este é o reino de Deus na eternidade.
 

Os Povos de Deus

Os povos de Deus em Apocalipse 21 são o remanes­cente das ovelhas descritas em Mateus 25:31-46. Quando o Senhor Jesus voltar, Ele sentará em Seu trono de glória em Jerusalém e reunirá todos os diversos povos vivos das nações para Ele. Eles serão classificados era ovelhas e cabritos e Ele os julgará. Os cabritos, que estão à Sua esquerda, irão direta­mente para o lago de fogo. As ovelhas, à Sua direita, herdarão o reino milenar, que Deus preparou para eles desde a fundação do mundo. Fomos predestinados para a filiação antes da fundação do mundo, mas o milênio foi preparado por Deus para essas ovelhas desde a fundação. Há uma diferença. Esse julgamento não será no grande trono branco (Ap 20:11), que segue o milênio. Ele será no trono da glória de Cristo antes dos mil anos. O julgamento não será de acor­do com a lei de Moisés nem de acordo com o evangelho da graça, mas de acordo com o evangelho eterno (Ap 14:6, 7). Muitos cristãos nunca ouviram a respeito do evangelho eter­no. Ele não inclui redenção nem perdão de pecados. Ele compreende duas coisas: temer a Deus e adorá-Lo. Esse evangelho será pregado por um anjo no tempo da grande tribulação, que durará três anos e meio. Esse é o tempo no qual o Anticristo fará tudo o que puder para perseguir os judeus e os cristãos. Em Mateus 25, de acordo com o veredito do julgamento de Cristo, os judeus e os cristãos serão tratados muito bem pelas ovelhas (vs. 34-36). Mas muitos seguirão o Anticristo na perseguição aos judeus e aos cristãos. Cristo fará o Seu julgamento adequadamente, e aquele julgamento se.a de acordo com o evangelho eter­no.

As ovelhas serão transferidas para o reino milenar para serem os povos, e os santos vencedores serão os reis sobre eles (Ap 20:4, 6). As ovelhas serão restauradas ao estado original do homem quando criado por Deus e serão os cidadãos do reino milenar, desfrutando a bênção da restauração (At 3:21). Restauração não é regeneração. Ser regenerado é ser nascido de novo com uma outra vida, a vida de Deus, mas ser restaurado é ser trazido de volta ao estado original da criação de Deus.

No final do reino milenar, Satanás, depois de ser liber­tado, instigará a última rebelião contra Deus (Ap 20:7-9). Muitas das ovelhas se unirão à rebelião de Satanás e serão queimadas com o fogo do céu. O remanescente das ovelhas será transferido para a nova terra para ser as nações (Ap 21:24). Deus "tabernaculará" com eles, os povos (Ap 21:3). Eles serão governados pelos filhos de Deus como reis (22:5). Para eles não haverá mais morte, mágoas, choro, dor ou maldição (21:4; 22:3a). Eles serão sustentados eternamente pelas folhas da árvore da vida (22:2). Nós comeremos do fruto, mas as nações desfrutarão das folhas. Eles andarão através da luz da cidade santa (21:24a). Com os seus reis trarão a glória e honra deles para a cidade. Eles respeitarão a cidade e a considerarão como superior.
 

UMA VISÃO FINAL

Os santos de todas as dispensações que foram redimidos serão os renascidos, os filhos de Deus, pertencendo à família real. Eles serão reis na eternidade. O remanescente res­taurado dos incrédulos será os povos, as nações, andando na luz da cidade e governados pelos santos. Outra categoria de pessoas são os que pereceram. Os incrédulos que pereceram estarão no lago de fogo (21:8). Isso nos dá uma visão geral do novo céu e nova terra.